Eles têm por ofício enfeitar caminhões

Os pintores de carroceria se concentram na Ceagesp e tiram até R$ 3 mil mensais com sua arte das estradas




Os pintores de carroceria se concentram na Ceagesp e tiram até R$ 3 mil mensais com sua arte das estradas

O ofício é pouco notado na imensidão da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), maior entreposto comercial da América Latina, do tamanho de 70 campos de futebol. É trabalho que roda, porém, literalmente, o Brasil inteiro. Os cinco mil veículos que circulam por dia no local atraíram classe específica de artistas: é na Ceagesp que se concentram os pintores de caminhões, responsáveis pelos desenhos e paisagens nos baús, pelos ornamentos nas carrocerias, pelas inusitadas frases nos para-lamas dos veículos. Nas malinhas que carregam o dia inteiro, entre ferramentas de pintura, elementos típicos de oficina – entre tintas e pincéis, graxa e gasolina.

Para misturar a tinta, nada de tíner ou aguarrás. “A gasolina tem o mesmo uso, funciona da mesma forma e é bem mais fácil de conseguir por aqui”, conta Renato Reis, de 39 anos, pintor de caminhões no Ceagesp desde 2001, no ponto próximo do setor de pescados do entreposto. “O caminhoneiro fica pouco tempo em cada lugar e, se a gente não tiver o material na hora, fácil de conseguir por perto, o trabalho vai embora. Pintor de caminhão tem de se virar.”

Ao abrir a mala de ferramentas, mais material inusitado. Para as cerdas dos pincéis, o lubrificante utilizado é graxa, comprada em oficinas mecânicas comuns. Os que pintam com aerógrafo dispensam compressor de ar – usam o próprio rodoar dos caminhões, aparelho cuja finalidade única seria manter calibrados os pneus do veículo. “Os jatos de tinta vêm direitinho. Já fiz grafite em muro com rodoar de caminhão”, conta Reis.

Além dele, Valdemar Pereira e Joseval Almeida, o Val Pintor – cujo cartão de visitas é distribuído à média de 20 unidades diárias -, são os responsáveis pelo ofício na Ceagesp, ponto de trabalho pródigo para a categoria. “Há pintores em postos de gasolina ou borracharias também, mas o Ceagesp é o ponto mais privilegiado, com o maior número de caminhoneiros do País dentro de ambiente urbano”, diz José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam). Entre os pavilhões do entreposto, eles pintam de quatro a dez caminhões por dia, com rendimentos mensais de até R$ 3 mil.

GRAFITE

O improviso no estilo, nos materiais utilizados, e a rapidez com que realizam um trabalho – uma frase inteira em para-lama (“lameira”) de até 2 metros em cerca de 20 minutos – chamaram a atenção de artistas conhecidos. Em 2006, os grafiteiros osgemeos chamaram Reis até seu ateliê, para produzir alguns ornamentos típicos de carrocerias de caminhão, cujo estilo eles reproduziriam, para sua exposição O peixe que devorava estrela cadentes. “Interessante é que, como eles têm de fazer um trabalho rápido, têm estilo próprio. Fazem uma caravela no mar com cinco, dez traços”, diz Otávio Pandolfo, um dos grafiteiros osgemeos. “Vimos ele trabalhar e, depois, seguimos seu estilo em algumas obras.”

A exposição, de repercussão internacional, foi vista por cerca de 30 mil pessoas. Por Reis, não. “Fiz meu trabalho e fui embora. A exposição deve ter sido linda.”

O perfil dos “artistas da lameira”, como se definem, é dividido por categorias – Reis é especialista em paisagens, Pereira prefere as letras rebuscadas e Val Pintor, as frases nos para-lamas. Para ajudar na decisão dos caminhoneiros, Val desfilava pela Ceagesp com um livrinho com 1.500 frases, presente de uma amiga. “Sempre tento convencer os caminhoneiros a colocar algo que gosto, geralmente frases românticas”, conta Val, no ofício há 19 anos.

Para as frases, os três têm predileção por temas românticos – bregas, como admitem. As mais pedidas, eles dizem, se encaixam nessa categoria. “?Riqueza do homem pobre é o carinho da mulher sincera? e ?No baralho da minha vida, apenas uma dama?, são minhas preferidas. Fica lindo, desfilando nas estradas”, se empolga Reis. “O que nós produzimos não fica na sala de casa, ou em galerias. É para ser visto nas estradas, para passar voando em frente aos olhos, ou admirada pelo vidro do carro que vem atrás.”

Fonte: Estadão




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