Carga expressa

Para transportar seus carros de competição nos anos 50, a Mercedes criou um veloz caminhãozinho com o motor do 300 SL




Para transportar seus carros de competição nos anos 50, a Mercedes criou um veloz caminhãozinho com o motor do 300 SL

Os carros de competição da Mercedes-Benz no início da década de 1950 foram tão marcantes que seria um desperdício conduzi-los, da fábrica aos circuitos e vice-versa, em caminhões comuns. Pensando nisso, em 1952, quando decidiu que retornaria dali a dois anos às corridas de Grande Prêmio, a marca da estrela começou a idealizar um veículo de transporte muito especial.

O utilitário deveria atender a alguns requisitos: ser muito veloz, estável e ter potentes freios. Logo se percebeu que os caminhões da época não estavam aptos à tarefa. A sugestão, assim, foi de uma combinação inusitada que se mostraria ideal: o chassi tubular em forma de “X” do sedã 300 “Adenauer”, o motor do cupê 300 SL “Gull Wing” e elementos internos do modelo 180 para a cabine. O veículo não teve nome, mas ficou conhecido como Racing Car Transporter (transportador de carro de corrida).

Muito diferente de qualquer outro utilitário, o Racing Car Transporter usava elementos da cabine do automóvel 180 e componentes mecânicos do sedã "Adenauer" e do cupê 300 SL
Muito diferente de qualquer outro utilitário, o Racing Car Transporter usava elementos da cabine do automóvel 180 e componentes mecânicos do sedã "Adenauer" e do cupê 300 SL

O chassi do automóvel foi bastante alongado na frente e na traseira, para dar espaço suficiente a um carro como o W196 de Fórmula 1. A distância entre eixos era de 3,05 metros. Uma cabine de desenho curioso, com um diminuto capô, foi instalada toda à frente do eixo dianteiro, tendo por baixo o motor — na mesma posição que no 300 SL, aliás —, a transmissão e o tanque de combustível, com capacidade de 150 litros.

As linhas arredondadas da cabine, que era a do 180 com largura bem maior, tinham continuidade nas laterais e terminavam numa traseira que fazia lembrar o carro esporte com “asas de gaivota”, apesar de bem larga. A região dos dois vidros posteriores era alongada, o que favorecia a aerodinâmica do veículo tanto descarregado quanto em transporte, pois suavizava o fluxo de ar sobre o automóvel que levava. Na seção entre eixos ficava um estepe de cada lado. O caminhãozinho media 6,75 metros de comprimento, 2 m de largura e apenas 1,75 m de altura.

A foto de uma miniatura mostra detalhes curiosos, como a forma da cabine, os estepes nas laterais e a traseira que lembra a do "Gull Wing"
A foto de uma miniatura mostra detalhes curiosos, como a forma da cabine, os estepes nas laterais e a traseira que lembra a do "Gull Wing"

O seis-cilindros em linha de 3,0 litros, dotado de injeção mecânica direta de combustível, desenvolvia potência de 192 cv a 5.500 rpm, bem menos que os 215 cv que alcançava no esportivo original, graças à recalibração com vistas ao desempenho em baixas rotações. O torque máximo de 25,8 m.kgf, porém, ainda surgia em alto regime, 4.700 rpm. A velocidade final ficava em torno de 160-170 km/h, mais que expressiva para um utilitário.

Com câmbio manual de quatro marchas, todo sincronizado, e tração traseira, o veículo recebeu suspensões independentes de automóvel, coerentes com sua proposta: na frente, braços sobrepostos e molas helicoidais; atrás, semi-eixos oscilantes (mesmo conceito do Fusca e da maioria dos Mercedes da época) com molas helicoidais e barras de torção auxiliares. Freios a tambor de comando hidráulico — o melhor que havia então — desaceleravam com certa rapidez seus 2.100 kg de peso, associados a um freio a disco interno entre a árvore de transmissão e o diferencial. As rodas de 5,5 x 15 pol recebiam pneus 7,60-15.

Suspensões de automóvel, potentes freios e um motor de seis cilindros, com injeção direta de gasolina e 192 cv: um conjunto adequado para o transporte rápido e seguro de carros preciosos
Suspensões de automóvel, potentes freios e um motor de seis cilindros, com injeção direta de gasolina e 192 cv: um conjunto adequado para o transporte rápido e seguro de carros preciosos

O Transporter ficou em atividade entre 1954 e o final de 1955, quando a empresa novamente retirou-se das pistas. A cada prova, era uma sensação nos boxes maior do que os próprios carros de corrida — sobretudo depois de ter sido pintada nos pára-lamas traseiros uma indicação de sua velocidade máxima de 105 milhas por hora. O veículo retornou à fábrica só em 1957, um tanto usado, mas ainda em boas condições.

Seu destino parecia definido: repousar junto a um 300 SLR no Museu Mercedes-Benz para a posteridade. No entanto, constatou-se que ele era muito pesado para o piso do museu e a marca preferiu mantê-lo em serviço, no departamento de testes, até que não tivesse mais condições de uso. Em dezembro de 1967 o único exemplar era descartado, para decepção de muitos.

Os responsáveis por veículos antigos da Mercedes, porém, não tiveram paz: inúmeros foram os pedidos para que o Transporter voltasse a ser visto e mesmo dirigido. Uma ampla consulta nos arquivos da empresa levou a algumas fotos e informações, mas se descobriu que não havia sido feito qualquer desenho do projeto, algo comum em veículos especiais da marca na época.

O único exemplar do Transporter foi usado até seu limite, em 1967, quando a Mercedes o descartou; 33 anos depois renascia, cuidadosamente restaurado
O único exemplar do Transporter foi usado até seu limite, em 1967, quando a Mercedes o descartou; 33 anos depois renascia, cuidadosamente restaurado

Em 1993 a Messrs. MIKA GmbH, empresa especialista em restauração de antigos no norte da Alemanha, recebia a incumbência de recolocar o utilitário em condições de uso, a partir das escassas referências disponíveis. Foram precisos sete anos para refazer toda a carroceria, a mecânica, os detalhes de acabamento. Apenas uma alteração no original foi admitida — o uso de freios dianteiros a disco do conversível SL de 1989, com a eliminação do antigo freio junto ao diferencial. E o curioso caminhãozinho renasceu, para ser admirado pelos que apreciam veículos únicos.

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Meio século depois de sua última atuação, o caminhãozinho expresso que a Mercedes-Benz construiu em 1954 para transportar um carro de Fórmula 1 volta à atividade. Foi apenas uma apresentação no GP da Europa de 2005, mas o Racing Transporter Car – como é mais conhecido – roubou a cena. Nas fotos, os pilotos da McLaren Mercedes, Kimi Räikkönen e Juan Pablo Montoya, aprsentam o curioso utilitário, que usava o motor do carro esporte 300 SL e alcançava 170 km/h.

Fonte: Best Cars Web Site




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