Desiludido, Paulão encerra carreira no automobilismo

Paulo de Tarso e alguns dos capacetes da Action, no seu apartamento em Curitiba: “É de chorar"




Paulo de Tarso e alguns dos capacetes da Action, no seu apartamento em Curitiba: “É de chorar”

Não há história que resista a uma grande decepção. Nem um dos dinossauros do automobilismo brasileiro, Paulo de Tarso. Após ver os 20 anos dedicados à Stock Car virarem pó no incêndio que destruiu o caminhão, três carros e todo o aparato da Action Power no caminho de São Paulo a Curitiba, o dono da equipe mais vitoriosa da categoria decidiu se aposentar.

A decisão não foi fácil – e certamente surpreenderá muita gente, assim como causará dúvidas de que Paulo conseguirá levar adiante o intento. Depois do acontecimento, no dia 6 de julho, logo após seu piloto, Marcos Gomes, ganhar a primeira prova da equipe no ano, o choque foi tão grande que o empresário ficou “fora do ar”, como diz. Passou 20 dias refletindo, no norte da Flórida, EUA. Ainda tinha dúvidas quando retornou a capital paranaense, no começo da semana. Bastou entrar na sede da equipe e ver a oficina vazia para decidir.

“Estou saindo. É muita decepção. Fiquei 20 dias fora do ar, fora do Brasil inclusive, para tomar uma decisão. Nem para Salvador eu vou (a próxima etapa, no domingo). Nem assistir. Meu filho vai correr e não vou. Não quero, por enquanto, nem chegar perto. É traumático”, afirma Paulo de Tarso, pai dos pilotos Tarso Marques e Thiago Marques.

Claro que o prejuízo de quase R$ 3 milhões contribuiu para a decisão (o seguro só pagará 15% desse montante, o resto foi perdido), mas não foi o principal motivo. Pesou mais ver todo o esforço feito ao longo dos anos virar cinza.

Paulo de Tarso é curitibano, nasceu em 1952 em uma família que nunca gostou de carros. Mas ele, sabe-se lá o porquê, desde criança sonhou com isso. Tanto que seu primeiro automóvel, uma Fusca comprado quando tinha 21 anos, era usado nos dias úteis para trabalhar e nos fins de semana, pintado com tinta de parede, como o bólido que começou a fama do piloto paranaense, campeão de quase tudo nas categorias de turismo até entrar na principal competição brasileira de automobilismo.

Quando criou a Action Power, em 1988, para entrar na Stock, também teve de acumular a função de chefe da equipe por seis anos. Mesmo assim, em quatro deles acabou entre os quatro primeiros. A partir daí, concentrou por três anos suas atividades em seus filho, Tarso Marques, que foi correr na Europa e depois chegou à Fórmula 1. O retorno para o box ocorreu em 2000. Ao todo, foram seis títulos da equipe na categoria – por lá passaram pilotos como Wilson Fittipaldi, Ingo Hoffman, Xandy Negrão, Cacá Bueno.

Essa longa história, contada em poucas palavras, talvez ajude um pouco a entender o que Paulo sentiu ao ficar, sozinho, no meio de sua oficina vazia.

“É de chorar. Todo aquele salão vazio… não vou lá nunca mais. A gente trabalha ali muito mais por paixão do que por dinheiro. É igual a você ter um cavalo de corrida, ele ganha o Grande Prêmio Brasil, um cavalo que você criou por 20 anos, e quando ele volta para casa está morto. E daí, você pensar em criar outro cavalo é quase impossível. Eu só admito competir em alto nível”, diz Tarso, que justifica. “Tudo é importado e de diversos países, acumulado durante anos. Mesmo se tivesse tudo ali na loja da esquina, ainda assim ia ser difícil ter alguém no Brasil disposto a investir. Quem vai por um dinheiro desses para fazer uma equipe de corrida? No banco rende mais”, acrescenta.

Continuidade: novo time vai absorver piloto e estafe

Paulo de Tarso saiu, mas antes de anunciar a decisão tratou de arranjar tudo para que seu principal piloto, o patrocinador e o estafe da equipe continuassem em ação. Apenas em Salvador, domingo, Marcos Gomes correrá em um carro da equipe RC, também de Curitiba. Já a partir da próxima prova, no Rio de Janeiro, o piloto e o time serão terceirizados a uma equipe de outra categoria que tem a intenção de entrar na Stock – o patrocinador irá junto. Até lá os novos carros especiais para a disputa, construídos pela empresa JL, deverão estar prontos.

“Estou acertando essa parceria e está dentro desse acordo eles admitirem todo o nosso estafe, o piloto e o patrocinador. Quanto a mim, não quero dar uma de Schumacher e voltar na primeira chance. Tenho de resistir até o fim”, afirmou.

Currículo

Aposentado, Paulo de Tarso encerra uma rica trajetória como piloto, chefe de equipe e preparador de carros.

Piloto

Foi campeão paranaense (1973) e gaúcho (1975) de Turismo; paranaense de Stock Car (1990) e brasileiro de Super Stock (1991). Entre os anos 80 e 90 foi piloto do Brasileiro de Marcas e da Stock Car. Em 2000, voltou às pistas para ser campeão das 12 horas de Curitiba.

Chefe de equipe

Com a Action Power, disputou no início dos anos 90 a Fórmula Chevrolet e a Fórmula 3 Sul-Americana, tendo seu filho Tarso Marques como piloto. Entre 1988 e 2009 manteve a equipe na Stock Car, com seis títulos.

Preparador

Nos anos 70, organizou no Paraná a Fórmula 180. Mais re­cen­temente, forneceu carros para a Copa Clio, Troféu Masserati e Super Megane.

Fonte: Gazeta do Povo

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