Ladrões mudam a rota do roubo de cargas

Estudo mostra que entre 2002 e 2007, quadrilhas que agem em rodovias brasileiras, principalmente no sudeste, levaram o equivalente a R$ 4 bilhões em mercadorias




Mais de uma década se passou e o caminhoneiro Hudson de Oliveira Leite, de 35 anos, se recorda com riqueza de detalhes do pesadelo que enfrentou na noite mais longa de sua vida: “Foi na BR-381, numa fria madrugada de 1998, quando quatro homens de uma quadrilha especializada em roubar cargas no Sul de Minas e em São Paulo me renderam. ‘Mantenha a cabeça baixa, senão atiro’, disse um deles”. Dez anos depois, em fevereiro de 2008, o empresário Ulisses Martins Cruz também foi vítima de criminosos que agiam nos dois estados. “Roubaram um de meus caminhões perto de Extrema. Não encontrei a carga até hoje”. Os casos mostram que os piratas do asfalto espalham pânico nas estradas há muito tempo e continuam causando imenso prejuízo à economia brasileira.

Estudo da Associação Nacional do Transporte de Carga e Logística (NTC & Logística) revela que, em seis anos, entre 2002 e 2007, os criminosos levaram o equivalente a R$ 4 bilhões em mercadorias nos assaltos e furtos praticados nas rodovias e áreas urbanas de todo o país. No Sudeste, região mais visada pelos marginais, o prejuízo foi de R$ 1,94 bilhão. O levantamento indica outro dado alarmante: a estatística de roubo e furto em 2007 no Sudeste (9.271 registros) mostrou, na região, a média de uma ocorrência por hora ou a de 25,4 por dia. Há transportadoras que foram atacadas mais de uma vez.

“Conosco, foram oito só este ano, sendo metade em menos de um mês. Em 30 de junho, um caminhão foi abordado na BR-381, em João Monlevade. Em 7 de julho, na BR-135, entre Curvelo e Montes Claros. Uma semana depois, na BR-262, em Juatuba. Em 17 de julho, novamente na 135”, lamentou José, nome fictício do gerente de uma empresa de Belo Horizonte, cidade com 2,4 milhões de habitantes e um orçamento anual de R$ 6 bilhões. O prejuízo nacional causado pelas quadrilhas que agem no país (R$ 4 bilhões) representa dois terços do orçamento da capital mineira.

A NTC chegou à soma de R$ 4 bilhões depois de apurar que os criminosos levaram R$ 735 milhões em 2007; R$ 710 milhões em 2006; R$ 700 milhões em 2005; R$ 700 milhões em 2004; R$ 630 milhões em 2003 e R$ 575 milhões em 2002. A entidade de classe aguarda os dados dos estados para fechar o balanço nacional de 2008, mas, qualquer que seja a cifra, uma realidade é certa: o prejuízo não atinge somente as empresas, pois os donos das cargas transferem a perda para o consumidor. E são os moradores do Sudeste que pagam boa parte da conta, uma vez que a região é a campeã do ranking nacional, com 79% dos 11.699 roubos registrados em 2007. Em se tratando de valores, o Sudeste responde por 67% (R$ 491,6 milhões) da perda registrada pelas empresas no mesmo ano.

O levantamento feito pela NTC & Logística peca apenas em não revelar a rota dos assaltos nos estados, mas especialistas são unânimes em dizer que, no caso de Minas, a maior parte ocorre no Sul do estado, pela proximidade com São Paulo, maior mercado consumidor do país. A região também é rota de produtos valiosos, como os eletrodomésticos da chamada linha branca (máquina de lavar, freezer, micro-ondas etc.), e caminho para escoar o saboroso café produzido nos campos do estado vizinho. Na quarta-feira, um caminhão com 200 sacas foi roubado na BR-267, próximo a Poços de Caldas.

“São produtos (linha branca e café) de fácil giro”, observa Ulisses Cruz, que também é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de Minas Gerais (Setcemg). Ele conta que, nos 56 anos de sua empresa, oito caminhões da frota foram abordados no Sul do estado. O último, em 2008. “Estava cheio de autopeças, confecções etc. Nunca mais vi a carga”. As investidas das quadrilhas que agem no Sul de Minas e no Norte de São Paulo levaram as polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal (PRF) a deflagrar, em janeiro, uma megaoperação que resultou na prisão de 11 suspeitos que atuavam na divisa dos dois estados.

Mas a saída de cena do bando, considerado um dos mais perigosos do país, não pôs fim ao medo dos caminhoneiros que transitam pela BR-381, que liga a capital mineira à paulista, e pela MG-050, caminho para o interior de São Paulo. Toda vez que entra num desses corredores, o caminhoneiro Hudson clama por proteção divina. “Fui rendido na 381, mas a 050 também é perigosa, principalmente de Divinópolis em diante. Ouvi um colega dizer, há poucas horas, que não viaja à noite nessa rodovia se estiver sozinho”.

Estimativa

Apesar de a NTC não divulgar os registros de roubos e furtos de carga no estado, o presidente do Setcemg calcula que este percentual seja de 15% das ocorrências do Sudeste. Levando-se em conta o balanço de 2007 (9.271 registros) da NTC no Sudeste, as ocorrências em Minas seriam em torno de 1,4 mil. A Polícia Civil informou que o Departamento Estadual de Operações Especiais (Deoesp) instaurou 84 inquéritos em 2008. O número, aparentemente baixo em relação à conta permitida pelo Setcemg para 2007, tem algumas explicações.

A primeira é que o órgão de elite da Civil concentra a investigação nos casos em que o valor da mercadoria ultrapassa 120 salários mínimos: R$ 55,8 mil. Outra é que as delegacias regionais também apuram esse tipo de crime, mas os dados dessas unidades não foram computados. Já a PRF anotou 195 ocorrências em 2008. Em 2007, foram 204. A Polícia Federal, que também desbaratou algumas quadrilhas que atuavam em Minas Gerais nos últimos anos, não informou seus dados.

Fonte: Uai

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