Caminhoneiros: “Limite de horas não funcionará”




Anilson Krone esteve sexta-feira (25) em Cascavel, ele estava bem de saúde e seu caminhão não tinha nenhum arranhão, caminhoneiro há 15 anos, Anilson sabe que poderia não ter sido assim. Há poucos dias ele fez um frete até Porto Velho-RO, distante mais de 2,7 mil quilômetros e a pressa para entregar a carga o obrigou a dirigir sem descanso, por mais de dois dias seguidos, “a gente perde muito tempo parado, esperando liberação, quando aparece a carga tem que tirar o atraso, tem que dirigir 24 horas por dia, parei só para abastecer e comer”, contou. Ele tem consciência do perigo que correu, “dirigir sem dormir é 100% perigoso. A canseira tira o reflexo, a capacidade de resposta, depois de uma noite de sono o ânimo para trabalhar é outro”.

A revisão a ser realizada no Código de Trânsito Brasileiro inclui diversas questões polêmicas, entre elas a fixação de um limite de horas de trabalho para o caminhoneiro, a discussão ressurge diante do pronunciamento de Márcio Fortes, ministro das Cidades, que afirmou esta semana que “O caminhoneiro autônomo, sobretudo, acha que é super-homem, quer fazer viagem o dia inteiro para lá e para cá, andar na estrada com aqueles caminhões articulados de um estado para o outro. E esquece que o corpo humano tem limites. Em determinado momento, ele pode estar fatigado, perde a sua capacidade de reação e isso leva a acidentes”. A proposta inicial é criar etapas na viagem, com no máximo quatro horas cada, com descanso de meia hora entre elas, além disso o tempo mínimo de descanso por dia seria de dez horas, sobrando portanto, 14 horas para o trabalho.
Anilson não é contra a limitação: “eu gostaria de poder descansar certinho, todas as noites”, mas teme a diminuição da remuneração que isto pode causar, “a gente trabalha tantas horas para conseguir ter um salário razoável; com o valor do frete ruim como está, se diminuir a carga horária não vai ser possível arcar nem com as despesas básicas”.
Viabilidade
A grande maioria dos caminhoneiros concorda com Anilson e questionam a viabilidade de uma lei como esta. Afirmam que a mudança é necessária, mas que as atuais condições de trabalho não permitem o ritmo que as novas regras querem exigir.
Olindo Rodrigues da Silva mora no estado de São Paulo, mas está longe de casa há 38 dias e não sabe quando poderá voltar, “estou esperando hoje, o dia todo, por uma carga que compense, enquanto estou parado também tenho os meus gastos que precisam ser compensados com muito trabalho quando o frete aparece. Se eles quiserem limitar o número de horas trabalhadas por dia vamos ter que pagar para trabalhar”. Ele tem três filhos, sempre trabalhou com transporte e sente que a profissão está desvalorizada, “se for para tirar todos os gastos e despesas com manutenção sobra muito pouco pra gente. Apesar de o país depender muito do transporte rodoviário ninguém dá valor”.
Pedro Rieger, caminhoneiro desde sempre, afirma que existem outros problemas importantes a serem resolvidos, “nós trabalhamos sem qualquer segurança, enfrentamos estradas precárias em troca de um frete com valor mínimo, acho difícil conseguir trabalhar menos horas, sem que isto afete a renda”. Ele comenta que tem o hábito de trabalhar todos os dias até as 21 horas, rodando uma média de 600 ou 700 quilômetros todos os dias.
Outro caminhoneiro, Márcio Vissoto, sentencia: “não vai funcionar. Depois de passar muitas horas parado esperando por liberação o caminhão tem que rodar e é hipocrisia falar que o uso de medicamentos para ficar acordado diminuiu, muitos usam, principalmente os mais jovens que são mais afoitos, sem ‘rebite’ não aguenta”.
Sindicato

O Sindicam (Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens da Região Oeste e Sudoeste do Paraná) tem acompanhado as discussões, não é contrário à limitação, mas questiona os moldes nos quais a cobrança se dará, “a regulamentação de uma lei como esta precisa ser feita por alguém que entende a realidade enfrentada pelo caminhoneiro, caso contrário será inviável”, afirmou Jeová Pereira, presidente da entidade.

Eles indagam como seria a fiscalização, “no nosso ponto de vista o país ainda não está preparado para uma mudança como esta, fazer lei e não fiscalizar não adianta, acaba sendo uma enganação. Hoje a realidade é que os caminhões não têm nem onde parar, não existe área de escape nas rodovias e os postos de combustíveis não tem obrigação de oferecer parada”, lembrou.

Ele salienta que outras mudanças precisariam acompanhar a nova regra, “a cobrança poderia ser gradativa para os caminhoneiros se habituarem com tempo, o impacto econômico de uma mudança brusca como esta seria muito grande, aqueles que têm o veículo financiado não conseguiriam arcar com as dívidas”.

Números

Segundo dados divulgados pela Agência Brasil um em cada quatro veículos envolvidos em acidentes de trânsito no ano passado, em estradas federais, era caminhão. O número é considerado alto porque o percentual é sete vezes maior que a frota de veículos deste tipo. Entre os acidentes 60% foi causado pelo sono ao volante. Estes acidentes também são mais graves: o número de óbitos é sete vezes maior do que em colisões graves envolvendo dois carros.

Fonte: CGN Notícias




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