Insegurança no pau-de-arara

A superlotação torna-se uma constante nas caminhonetes que substituem os ônibus




A superlotação torna-se uma constante nas caminhonetes que substituem os ônibus

Caminhões que fazem transporte de passageiros trafegam sob risco constante de acidentes na zona rural

Nas mãos de Deus e na responsabilidade do motorista. Sem fiscalização, o principal transporte coletivo no meio rural na maioria das cidades do Interior do Ceará e do Nordeste, o pau-de-arara, trafega pelas estradas sertanejas abarrotado de gente e de perigo. Considerado um meio de transporte irregular, mas necessário, o caminhão adaptado para conduzir passageiros, circula sem critérios de segurança. Na maioria deles, além da superlotação, todo tipo de carga, incluindo tambores de combustível, servem de encosto para quem só encontra espaço nos fundos da carroceria.

Flagrar essa arriscada realidade não é difícil. Basta aguardar um pouco nas entradas das cidades do Interior, no início das manhãs ou perto do meio-dia. Além das cargas inflamáveis e do excesso de mercadorias, alguns se arriscam nas pontas das carrocerias de madeira ou sobre elas. Qualquer descuido pode ser fatal, mas os próprios passageiros confessam gostarem do risco. “Levando o vento na cara é mais agradável, além do mais, é mais seguro do que andar de moto ou de topique”, comenta o agricultor Antônio Felício, 29 anos. Toda semana ele viaja de Banabuiú a Quixadá.

Contra abusos

Proprietários e motoristas desse tipo de veículo, tradicional e popular, alertam as autoridades para a necessidade de coibir os abusos. Reconhecem a inexistência de regras específicas para o serviço e agradecem a tolerância das autoridades. Entretanto, como ocorreu com os mototaxistas, hoje legalizados, esperam receber o mesmo amparo legal.

“Quem sabe dessa forma os passageiros aprendem que, para garantir a segurança deles, é necessário respeitar as regras básicas de trânsito”, pondera o chefe da Divisão de Engenharia de Tráfego de Choró, Milton Grangeiro Vieira.

Vieira destacou que, no último sábado, ele e outros 12 proprietários de paus-de-arara criaram a primeira associação da categoria no Sertão Central. Essa foi a maneira encontrada por eles para estabelecer normas de tráfego para as lotações, caminhonetes de cabine dupla adaptadas para o mesmo propósito. Embora desde a emancipação do município, não tenha ocorrido nenhum acidente, na circulação rotineira desses veículos, no trecho de Choró a Quixadá, ele acredita ser melhor prevenir estabelecendo regras para o transporte. Limitar o número de passageiros e manter a tampa da carroceria fechada são exemplos básicos.

Os “carros de horário”, como também são conhecidos esses tipos de veículos, de tamanhos variados, com hora certa para partir e nem tanto para chegar, se amontoam nos centros das cidades, como forte prova de hábito. O sobe e desce nas carrocerias é protagonizado por passageiros de todas as idades. Também por toda espécie de bicho. Literalmente enjaulados, suportam horas de estrada, comendo poeira ou levando chuva. A justificativa para a tolerância da inconfortável viagem está na falta de opção e nas péssimas condições das estradas carroçáveis. Essa é a opinião da agricultora aposentada, Antônia Moreira Martins. Outros discordam. Acham a viagem agradável em todos os sentidos, incluindo a facilidade de levar móveis e eletrodomésticos da loja para casa. O caminhão para na porta. Como geralmente todos moram na mesma localidade, os vizinhos não reclamam para não arrumar intriga. “Amanhã, quem sabe, será a minha vez de levar um fogão completo”, justifica Maria do Carmo Silva. Ela mora no município de Ibicuitinga. “Quando preciso vender o leite do gado a salvação é o pau-de-arara”, reconhece conformada.

Divergências à parte, num aspecto todos concordam: a maioria das estradas carroçáveis ou vicinais apresenta péssimas condições de tráfego. Compete aos municípios a manutenção, mas faltam recursos financeiros. Dessa vez, por conta do inverno rigoroso, a situação ficou ainda mais grave. São poucas as localidade onde os ônibus podem abrir as portas para embarque e desembarque.

Enquanto as estradas não são recuperadas e não surgem outras soluções, alheios ao perigo, os personagens desse drama cotidiano encontram alternativas na própria necessidade. Idosos, gestantes e enfermos recebem atenção especial, viajam na boléia. Quem não tem dinheiro para pagar a passagem, com preço fechado de ida e volta, segue de carona.

Atualmente, a Resolução N° 82, do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), de 19 de novembro de 1998, regulariza o serviço do pau-de-arara, através de seu Artigo 2º. Todavia o dispositivo estabelece: que o transporte de passageiros em veículos de carga só poderá ser autorizado entre localidades de origem e destino situadas em um mesmo município, municípios limítrofes, municípios de um mesmo Estado, quando não houver linha regular de ônibus ou as linhas existentes não forem suficientes para suprir as necessidades das comunidades.

O superintendente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), João Pupo, informa haver empenho do órgão em estimular a legalização dos veículos que fazem o transporte complementar de passageiros. Através de licitação, o Governo do Estado abriu mil vagas. Os romeiros do Padre Cícero, de Juazeiro do Norte, e de São Francisco, de Canindé, e de padroeiros de outros municípios onde há atividade religiosa, como  Quixadá (Nossa Senhora Rainha do Sertão), poderão muito bem cruzar as rodovias cearenses, por meio de vans ou também ônibus.

Para ele, os carros de horário representam uma solução informal para o transporte de pessoas. Órgãos executivos de trânsito, como o Detran, tem fiscalizado o transporte alternativo conforme determina o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Porém, veículo de passageiro só pode circular na via pública com autorização. Quem não tiver autorização para circular é considerado clandestino. “Com a licitação  realizada pelo Governo do Ceará, o transporte clandestino no Estado será coisa do passado”, acrescenta.

Segundo o superintendente, para que o transporte em caminhão pau-de-arara seja regularizado, cabe ao Congresso Nacional examinar projeto de lei nesse sentido.

Sobre a quantidade de paus-de-arara circulando no Estado, o Detran não tem levantamentos. Já os veículos com carga de até 3,5 mil quilos, com carroceria, as caminhonetes contavam 55.358 até julho de 2009.

Fonte: Diário do Nordeste




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