Mulheres que fazem a diferença




Batom, lápis, bolsa, estojo de maquiagem, rimel, cosméticos em geral. Coisas de mulher. Bola de futebol, camisas de times, boné, peão, bolinha de gude, caminhão. Coisas de homem. A primeira lista exibe itens que fazem parte do dia-a-dia das mulheres. Isso não gera dúvida. Da mesma forma que a segunda, contempla características do cotidiano do homem. Exceto pela última palavra da listagem masculina. Há vários anos, o caminhão está deixando de ser um item exclusivo do universo do homem. E há personagens que merecem destaque por suas atuações no setor.

O predomínio do homem no mercado de Transportes Rodoviários de Carga (TRC) está enraizado na cultura mundial. Em virtude de caminhões e ônibus serem mais “pesadões” do que os automóveis e intimamente ligados a um tipo de trabalho mais sofrido e jorrador do emprego constante da força, o seu uso sempre foi mais dirigido ao individuo masculino.

Outro fator que praticamente eternizou a participação em massa do homem foram as criações das primeiras transportadoras por avôs, que passaram os negócios aos filhos e depois aos filhos dos filhos. E quem sempre assumia a presidência ou a direção das empresas eram os homens. Era difícil ver mulher assumindo cargos diretivos, executivos, em linhas de produção, em cargos de alto nível em montadoras de veículos comerciais. O preconceito reinou como quis por décadas.

Não que ele deixou de existir, pelo contrário, mas a presença feminina no setor de transportes começou a crescer e a conquistar cargos e espaços preciosos.

Com uma mina reluzente pela frente, as mulheres que sempre sonharam em dirigir caminhão ou ônibus, ou mesmo fazer carreira no setor, passaram a buscar com mais afinco oportunidades num segmento extremamente machista.

A mudança

Indo na contramão de tendências já ultrapassadas, algumas mulheres em sua história particular vêm colhendo frutos preciosos e diamantes da mina reluzente, como nunca se viu antes. Apesar dos mais conservadores terem os pelos arrepiados quando ouvem qualquer tipo de informação sobre a “invasão” iminente da mulher, elas chegaram com força máxima e querem aparecer cada vez mais.

O Dia Internacional da Mulher em relação ao segmento de veículos comerciais coleciona histórias vividas em boléias, chão de fábrica, pistas de corrida ou simplesmente na mudança de vida, seja motivada pela necessidade ou pela paixão.

Espaço reduzido

O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp), um dos principais do País foi fundado em 1936. Seus membros lutaram ao longo dos anos por grandes decisões, por leis mais favoráveis, debates e ações em prol dos associados.

Apesar de todas essas conquistas, o Setcesp ainda não elegeu uma mulher como presidente. E não parece que há sinais de mudança num curto espaço de tempo. Porém, em algumas diretorias a presença da mulher já começou a ser rotina.

Paula Fonseca Sousa Lima, de 29 anos, se tornou em 2007 a primeira diretora de Especialidade de Transporte de Produtos Perigosos do sindicato. Seu mandato vai até dezembro e ela já colheu bons frutos.

“Se trata de uma área muito técnica e de diversas legislações específicas. O trabalho de auxílio aos associados é complexo e exige muita concentração. Já conseguimos melhorar o relacionamento com alguns órgãos públicos. Fico feliz que as cadeiras do sindicato estejam sendo ocupadas por mulheres. Nós e os homens complementamos o setor e podemos construir um futuro mais forte”, afirma a diretora da Argos Transportes, de Barueri (SP).

Ana Célia Panzan, 38 anos, é atualmente diretora da Transportadora Ana Sirena e da PPW, empresa de portas para baú de caminhões. Foi a primeira mulher a ser presidente da Comissão de Frota (COMFROTA), do sindicato. Mais uma barreira que ruiu.

“Comecei há 15 anos no setor e era tudo muito difícil. Os homens acham que não sabemos nada. Existem as cantadas. Mas, a profissionalização está chegando cada vez mais forte”, acredita.

Ana Célia relembra de um caso desagradável que vivenciou. “Às vezes, eu agendava uma reunião num cliente e quando o diretor via que era uma mulher mandava um assistente. Outra vez numa negociação ficaram falando como eu tinha que fazer. Não é assim. É bom a gente mostrar que pode comandar um negócio não ligado a moda ou beleza”, afirma.

Em contrapartida, a diretora faz questão de comentar suas conquistas. “Sou diretora da PPW e o sócio americano queria vender um novo produto, a porta roll-up. Encontramos dificuldades pela cultura do brasileiro. Não desisti e pulei de uma participação de 2% para 16%. Fiquei conhecida mundialmente na matriz como a “Mulher das portas do Brasil”. Depois disso, a empresa começou a contratar mulheres pelo mundo para serem vendedoras e tocarem negócios. Nos tornamos o maior representa da empresa fora dos Estados Unidos”, relembra.

Sucessão?

A realidade das transportadoras não é diferente do sindicato. Não encontrar mulheres na presidência é comum. Nada de surpresa. A maioria das transportadoras também prefere homens, por conta da cultura já citada do fundador passar para o filho o comando sucessório. Contudo, essa realidade deve mudar na Transportadora Ajofer, de Santo André.

Ana Carolina Ferreira Jarrouge, 31 anos, percebe indiretamente que seu pai a está preparando para assumir o negócio no futuro. “Indiretamente eu sinto isso. Participo do Conjovem, a comissão de jovens do Setcesp que têm chances de assumirem a presidência de suas transportadoras familiares. Atuo bastante no sindicato. Já passei por todas as áreas da Ajofer, entre elas a oficina. Comecei carimbando cheques”.

Como cresceu em meio aos pneus e caminhões da transportadora, pois sua casa era no próprio terreno da empresa, Ana Carolina não teve problemas em lidar com o ar machista que impera no setor.

“Desde os 15 anos eu trabalho na Ajofer. Nunca vive situações de desrespeito. Acredito que a postura, o jeito de tratar os empregados, a forma de se vestir impõem respeito”.

Ana Carolina confessa que passou por mudanças enormes depois que passou a atuar no ramo. “Fiquei mais madura, aprendi a demitir e ser mais racional. Passei a lidar com números, gráficos, controlar custos”, diz

Se assumir mesmo o lugar do pai, a gerente Administrativa e Jurídica da transportadora, já sabe como será seu mandato. “A mulher tem outras características do que os homens. O nosso jeito de tratar as pessoas é diferente. O homem nem liga direito para o funcionário. Esquece às vezes que são seres humanos e que precisam de incentivos. Devemos oferecer subsídios aos empregados, mostrar onde estão errando e como podem melhorar, dar chances. Nisso, a mulher sai na frente”, revela.

A primeira dirigente do automobilismo

A santista Neusa Navarro Félix, 48 anos, entrou para a história do automobilismo mundial, pouco depois do falecimento do marido, Aurélio Batista Félix, no dia 5 de março de 2008. Félix, vítima de infarto, foi o criador da Fórmula Truck. “É o fim da Fórmula Truck”, pensou a maioria dos fãs da competição de caminhões.

“Eu não podia deixar tudo para trás, depois de tanta luta do Aurélio. Eu tinha que continuar”. Neusa arregaçou as mangas, passou a negociar com clientes e pilotos e conheceu um lado de guerreira ainda mais forte.

Passou a responder como a presidente da categoria e se tornou a primeira comandante de uma categoria de automobilismo no mundo. Sob sua responsabilidade uma equipe de 180 funcionários e 10 provas por ano de uma categoria que levanta milhões de reais.

Para surpresa de Neusa, seus três filhos quiseram trabalhar na empresa. “Danielle e Gabrielle vão comandar o show que o pai fazia. O Aurélio Júnior também vai participar ativamente da condução da competição. Senti a união da família”, diz emocionada.

A Fórmula Truck ainda reserva outras surpresas ao público feminino. De 26 pilotos, há apenas uma “intrusa”: Débora Rodrigues, há dez anos na categoria. Aliás, a atriz e apresentadora foi e continua sendo a única mulher da história a pilotar um caminhão de corrida.

“Tenho diesel nas veias. Sinto responsabilidade e orgulho por representar a classe. Sempre digo para aquelas que sonham: é muito bom correr de caminhão. Os problemas são a falta de patrocínio e o preconceito. Infelizmente ainda sofro. Não tenho nenhum patrocínio da linha feminina”, conta.

Débora faz questão de dar um toque feminino na direção. “Coloco sensibilidade no acerto do caminhão ou na astúcia de uma decisão”, completa.

A piloto revela que ainda serve de exemplo. “Algumas mulheres me dizem que tinham vontade de dirigir o caminhão do pai ou marido, mas eles não deixavam. Depois que me viram correndo, acharam bonito e permitiram que elas realizassem o sonho. Até mulheres de diretores de certas empresas quiseram experimentar”.

Mulher nas fábricas

E quem disse que no chão de fábrica mulher não pode trabalhar? Esse tabu já foi quebrado há muito tempo nas linhas de automóveis, mas em caminhões e ônibus as oportunidades foram aumentando apenas a partir dos anos 1990.

Ana Claudia Cortez Stocco, de 30 anos, começou a carreira de estagiária na Mercedes-Benz, na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). E logo de cara foi para a linha de manutenção de motores e estreou a presença feminina naquele setor.

“Foi um orgulho para mim vencer o obstáculo do machismo. Aos 18 anos já ficava embaixo do caminhão, corrigindo defeitos do bloco”, relembra. Ana teve que vencer o preconceito dentro de casa. “Eu tinha dois irmãos e meu pai passou a falar que agora eram três filhos. Foi difícil, mas hoje ele tem orgulho de dizer que trabalho com caminhões”.

Ana foi também pioneira na área de planejamento de processo de Produção de Caminhões da empresa, cargo que ocupa atualmente, cheia de satisfação pelas conquistas que já alcançou.

Marina Sordi, 39 anos, supervisora da área Recebimento, Transportes & Embalagens, também entrou para a história na mesma planta. “Entrei em 1993 como trainee na produção de cabine. Contudo, por iniciativa própria resolvi trabalhar na linha como soldadora por dois meses para conhecer todo o processo. Fui a primeira na área. Nem por isso fui desrespeitada. Nunca ouvi nada a este respeito”, afirma.

Atualmente, a supervisora comanda 163 profissionais, sendo 10 mulheres. “Há um ano dei a primeira oportunidade na logística central de uma mulher trabalhar com a empilhadeira e dirigindo caminhão. Este ano, já são quatro. Acho que o resultado de uma equipe mista é melhor. Dá mais resultados”, afirma.

Na direção de cargas e vidas

Quem ainda não viu uma mulher na direção de um caminhão ou de um ônibus nas grandes capitais, está prestes a ver. Essa tendência cresce a cada dia. Diversas empresas estão oferecendo vagas antes apenas destinadas a homens por comprovarem a maior capacidade feminina de cuidar dos veículos. Menos acidentes, inclusive.

Depois de começar a carreira no transporte escolar, Elisane Azevedo Lima resolveu, por necessidade, dar um passo maior na vida. “Resolvi abraçar uma oportunidade de motorista de ônibus do Consórcio São Bernardo de Transportes (SBC Trans). Foi a melhor coisa que fiz. Já conquistei diversos benefícios materiais. Mas, ainda quero cursar uma faculdade”, afirma.

Elisane sente o preconceito nas ruas. “O pessoal se assusta quando me vê no volante. Acho normal. Alguns me mandam pilotar fogão. Não adianta discutir, tenho que mostrar o meu trabalho. A empresa nos treina para não reagir”, diz.

Porém, a profissional muda o tom da conversa quando lembra das duas piores histórias que viveu. “Um dia um homem subiu no coletivo e me viu. Disse que ia descer porque era uma mulher na direção. Quando eu trabalhava com microônibus no transporte escolar, uma mãe disse que não confiava em mim. Respondi que se estava lá tinha o apoio da empresa”.

Lenilsa Coelho de Carvalho, 30 anos, se candidatou a uma vaga de motorista, na mesma época, mas por paixão. “Um dia estava no ônibus da SBC Trans e disse à minha irmã: Será que um dia vou dirigir um desses?”, relembra. Não só conseguiu o emprego como levou a mesma irmã junto. “Antes eu dirigia Kombi como feirante e vendia alimentos. Hoje, transporto vidas. Sei da responsabilidade. É preciso respeito para ter respeito”.

Há 10 anos, a Braspress, uma das maiores transportadoras do Brasil, inovou no segmento e contratou 10 motoristas mulheres. Foi algo surpreendente naquela época e depois abriu portas em outras empresas. Neide Araújo dos Santos, 50 anos, e sete na direção de um caminhão da empresa, já tirou de letra todos os preconceitos.

“Eu havia me separado e queria viver novos ares. Nunca havia sonhado em trabalhar com caminhão. Mesmo porque sempre tive uma vida presa em casa. Com a profissão, conquistei duas coisas que não imaginava que teria: liberdade e auto-estima. Mudei como mulher. Hoje, saio para dançar, passear. Ou seja, vivo”, diz a exigente motorista que prefere dirigir veículo com direção hidráulica e de motor eletrônico.

Na verdade, na empresa ela nem é conhecida como Neide. “Sou a aerocaminhão. Porque usava coques como as aeromoças. Eu me produzo mesmo, coloco perfume, passo batom e lápis. Os homens falam que sou a modelo da Braspress”, sorri.

Quem também não esquece do lado feminino é Sandra Maria Silva Paes, motorista da mesma empresa. “Antes eu era costureira e ganhava R$ 580 por mês. Atualmente, o piso é de R$ 1.044. Foi uma ótima oportunidade”, afirma.

Sandra transformava pedaços de panos em lingeries. Mas, hoje, tem certeza que um caminhão pode transformar vidas. Pode transformar mulheres.

Fonte: WebMotors

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