Na terceira margem da estrada

Patrícia e Karla são colegas de ponto em um posto de combustíveis




Patrícia e Karla são colegas de ponto em um posto de combustíveis

Fim de tarde de quinta-feira, para muitos o momento ideal para relaxar com os amigos em um barzinho ou clube, para Paula (nome fictício), 18 anos, “é hora de pegar no batente”. Com uma blusa de frio nas mãos, ela se despede do filho, de 4 anos, e segue para o ponto de ônibus. O menino fica com o irmão de Paula, de 19 anos. Cerca de 30 minutos depois, ao desembarcar em uma das rodovias da zona Norte de Uberlândia, próximo ao Distrito Industrial, por volta de 19h, ela reza para que a noite seja produtiva, ao mesmo tempo em que pede proteção divina.

Pelo Brasil afora, esta é uma cena rotineira para milhares de mulheres, adolescentes ou adultas, em aproximadamente 1,9 mil pontos de prostituição espalhados por mais de 60 mil quilômetros de estradas federais. Os dados fazem parte de um levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF) feito em 2007. Esta rede é alimentada, em sua maioria, por caminhoneiros que procuram companhia para passar a noite enquanto descansam e esperam a hora de seguir viagem.

A preocupação de Paula se justifica. Há três meses, nesta mesma rodovia, ela foi esfaqueada oito vezes e quase morreu. Porém, se tudo correr bem, ela voltará para casa às 2h da manhã, depois de sete programas, com aproximadamente R$ 200 no bolso. A rotina segue até o domingo seguinte, quando descansará e colocará a casa em ordem.

Durante três dias, a reportagem do CORREIO de Uberlândia, com o motorista Joaquim dos Santos e o repórter fotográfico Paulo Augusto, percorreu pontos de prostituição nas rodovias que cruzam a cidade e conversou com prostitutas. Elas aceitaram dar entrevistas, com a condição de usarem nomes fictícios e mediante pagamento.

Os valores variaram de R$ 10 a R$ 25 e foram equivalentes ao tempo da conversa. No entanto, há programas que, segundo elas, custam dez vezes mais, dependendo do que o cliente quiser e estiver disposto a pagar. “Eu tenho um cliente que no dia do meu aniversário me deu R$ 200. Quando ele vem, eu sei que não preciso voltar para a pista para mais programas porque vai me dar um bom dinheiro”, afirmou Paula.

A busca pelo sustento

A falta de perspectivas gerada pela suposta carência de oportunidades no mercado de trabalho é a justificativa mais comum entre as mulheres que viram na prostituição uma forma de garantir o sustento da família. “Eu trabalhei cinco anos como doméstica e saí com uma mão na frente e a outra atrás. Deixei currículos nas empresas, mas não consegui nada”, disse Patrícia, 31 anos, que há quatro anos atende caminhoneiros em um mesmo posto da zona Oeste da cidade. Com duas filhas, de 10 e 12 anos, ela alega ter despesas altas, inclusive com escola particular. “Não troco o que ganho hoje [em média, R$ 3 mil por mês] por um trabalho para ganhar salário mínimo”, disse.

Já a colega de profissão, Karla, de 25 anos, disse não pensar duas vezes. “Eu entrei nesta vida porque vi meu filho, de 4 anos, chorar com fome e não ter o que comer. Se fosse para ganhar salário mínimo, eu sairia daqui, sim”, afirmou. Ambas interromperam os estudos na 5ª série do ensino fundamental.

Prostitutas não são vítimas

De acordo com o sociólogo e professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Adalberto Paula Paranhos, no mundo capitalista, é comum a sociedade considerar como excluídos mulheres e homens que, sem oportunidades no mercado de trabalho, ingressam na prostituição.

No entanto, o professor discorda. “Não são vítimas da ‘exclusão social’. Pelo contrário, elas estão integradas de forma perversa na sociedade capitalista. Essas prostitutas provam o sabor amargo dos frutos do mundo em que vivemos. Elas recebem valores maiores que muitos trabalhadores, mas se expõem a problemas sérios, como a aids e a violência”, afirmou.

Preservativos na bolsa

Sexo seguro é algo que as entrevistadas afirmaram não abrir mão. Patrícia e Karla levam nas bolsas preservativos suficientes para a noite de trabalho. Outras, como Paula, exigem que o cliente os tenha. “Se a pessoa não tem, a gente dá um jeito de comprar e se falar que não vai comprar, nem faço”, disse.

Elas reconhecem que há o risco de falhas com os preservativos e contágio por doenças como a aids ou ainda uma gravidez indesejável. “O preservativo já estourou comigo duas vezes”, afirmou Patrícia.

A Prefeitura não tem um levantamento do total de prostitutas em atividade em Uberlândia. A rede municipal de saúde oferece atendimento nas UAIs e postos de saúde. De acordo com a coordenadora do Ambulatório de DST/aids, Cláudia Spirandelli, são distribuídos por mês cerca de 40 preservativos às profissionais que procuram as unidades. “E a cada seis meses, elas fazem exame de sangue para controlar também as DSTs mais comuns como sífilis e condiloma (HPV)”, disse Spirandelli.

Violência não é empecilho

O medo vivido pelas prostitutas que fazem ponto em postos de combustíveis e rodovias à espera de clientes é grande. Além do risco de roubos, elas estão expostas a abusadores e homicidas. Há cerca de três meses, Paula se viu entre a vida e a morte depois de aceitar a oferta de fazer um programa às margens da estrada, no meio do mato. “O homem me deu várias facadas, no pescoço, atrás da orelha, na sobrancelha e nas mãos”, disse, mostrando as cicatrizes.

As prostitutas afirmam que quase sempre se veem obrigadas a levar vida dupla. Patrícia diz ao pai, irmãos e filhas que trabalha em uma lanchonete. “Só minha mãe sabe o que faço.” Karla afirma ter o sonho de deixar a prostituição. “Toda mulher pensa em se casar, ter sua casa, o seu marido. É difícil subir e descer de cabines de caminhão toda noite.”

Menos solidão nas boleias

Para quem passa boa parte da vida dentro da cabine de um caminhão na estrada, a solidão é companheira quase inseparável. O caminhoneiro Paulo, de 50 anos, mora em Igarapava (SP), mas há duas décadas transporta cargas da capital paulista para Rondonópolis (MT) e diz passar até 60 dias sem ver a família.

Com o veículo monitorado via satélite, o posto de combustível às margens de uma rodovia de Uberlândia é um dos pontos autorizados pela empresa para as pausas na viagem. “Nessa hora a gente arruma uma companhia, mas é perigoso porque tem muita mulher que finge fazer programa, mas é isca para ladrões roubarem a carga”, afirmou.

Prevenido, Paulo disse carregar na carteira o número do telefone de uma prostituta que o atende sempre que ele está em Uberlândia. Em um bar às margens da BR-050, a reportagem conversou com outros três amigos, de Belo Horizonte, do caminhoneiro.

Depois de algum tempo, Carlos, que aparentava cerca de 40 anos, e era o responsável pelo caminhão, disse ter feito programa com uma prostituta na noite anterior. “Estava há seis dias sem transar, não aguentei. Mas eu me cuido, tenho mulher em Belo Horizonte, e sexo fora do casamento, só com preservativos.”

Programas custeiam o vício

Em alguns casos, a prostituição pode estar relacionada ao uso e tráfico de drogas. O caso de Juliana é um dos exemplos. Aos 29 anos, ela disse ter oito filhos, mas não vê as crianças há pelo menos quatro meses. Ela nasceu em Araguari onde se casou aos 16 anos e teve gêmeos. Pouco tempo depois tornou-se viciada em crack e diz ter sido abandonada pelo marido.
Sozinha, veio para Uberlândia onde uma série de namoros resultou em outros seis filhos. Hoje passa dias e noites nas ruas, onde aceita fazer programas por qualquer valor. “Faço programa para matar meu vício.”

Fonte: Correio de Uberlândia




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