O perigo que ronda as estradas

Uberlândia é uma das rotas mais visadas pelos bandidos




Uberlândia é uma das rotas mais visadas pelos bandidos

Prejuízos com roubos leva caminhoneiros a deixar o próprio negócio

Geraldo de Sá e Tião do Fumo estão com quase 60 anos de idade. Há mais de três décadas ambos tiram da atividade de caminhoneiro o sustento de suas famílias.

Há cinco anos, os dois se depararam com uma realidade que é a de milhares de companheiros de estrada: o roubo de cargas seguido do sequestro-relâmpago e, muitas vezes, o furto do caminhão, que é, ao mesmo tempo, o transporte e ganha-pão dos trabalhadores.

Após o susto, os caminhoneiros passaram de donos do próprio negócio a empregados de transportadoras.

A experiência ruim de Geraldo de Sá aconteceu em 27 de agosto de 2005, quando ele voltava de Montes Claros (MG) para Uberlândia pela BR-365, com o caminhão carregado de cimento, uma mercadoria, que, segundo o caminhoneiro, não era interessante aos bandidos das estradas, pelo seu baixo custo.

Por volta de 22h30, seu veículo foi fechado por um carro, de onde desceram dois homens armados e encapuzados. O motorista foi obrigado a estacionar e passar a direção aos dois ladrões, que ainda dispararam 30 vezes contra a cabine do veículo.

O caminhoneiro permaneceu refém durante 10 horas, até que os dois assaltantes o deixaram na margem da BR-040, próximo à cidade de João Pinheiro, no Noroeste do Estado.

“Eu só tinha o caminhão para levantar o sustento da minha família e pagar a escola e a faculdade de meus três filhos. Durante 15 anos fui o meu próprio patrão. Só consegui voltar a trabalhar dois meses depois do roubo com a ajuda de amigos que me arrumaram emprego em uma transportadora”, disse Geraldo de Sá. de suas famílias.

Mais de 70 pessoas foram detidas por roubo de cargas

Delegado Janisson Balvedi diz que a maior incidência é de roubos de menor quantidade de produtos, transportados por empresas do tipo express
Delegado Janisson Balvedi diz que a maior incidência é de roubos de menor quantidade de produtos, transportados por empresas do tipo express

A Polícia Civil de Uberlândia já desarticulou ou identificou 25 quadrilhas e prendeu 73 pessoas nos últimos 20 meses por roubo e desvio de carga.

A Delegacia Especializada de Repressão ao Furto, Roubo e Desvio de Cargas registrou neste ano 16 ocorrências, metade do número registrado em todo o ano passado.

A maior incidência é de roubos de menor quantidade de produtos, transportados pelas empresas do tipo express. Remédios e eletrodomésticos lideram a lista das cargas mais valiosas.

Segundo o delegado Janisson Balvedi, os crimes acontecem durante a noite, nas proximidades da divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. E Uberlândia, como entroncamento logístico das rodovias 050, 365 e 452, é alvo preferencial dos bandidos.

Quadrilhas agem igual

As ações dos ladrões de cargas obedecem a um padrão já identificado pela polícia. “Os quadrilheiros geralmente são experts em desativar rastreadores e contam com a colaboração dos motoristas”, disse o delegado de Repressão ao Furto, Roubo e Desvio de Cargas, Janisson Balvedi.

Relatos de vítimas aos policiais mostram que, geralmente, os motoristas são levados para um cativeiro localizado em um matagal, até que o caminhão e a carga sejam desviados ao destino final.

Por causa de benefícios concedidos aos bandidos – liberdade condicional, regressão ou cumprimento de pena –, as quadrilhas renascem periodicamente. “Há uma rotatividade no roubo de cargas, pois, quando se desarticula uma quadrilha, outra assume o seu lugar. A maioria dos grupos possui ramificações em outros estados, onde parte de seus membros cumpre ou cumpriu pena. Em média, o criminoso cumpre cinco anos e quatro meses e volta à liberdade”, disse Balvedi.

Seguro de caminhões em Uberlândia sai 20% mais caro

O presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Triângulo Mineiro, Ari de Sousa, não queria falar sobre o problema de roubo de cargas. Desconfiado, disse que “caminhoneiro, quando fala desses roubos, tem medo até da própria sombra”.

Na avaliação dele, “as seguradoras dos caminhões e das cargas é que arcam com os prejuízos”. “Mas, há ainda os caminhoneiros que trabalham por conta própria ou o empresário que não faz o seguro que saem prejudicados com a ação dos bandidos”, disse.

Segundo ele, o contrato do seguro de um caminhão registrado em Uberlândia sai cerca de 20% mais caro do que se o veículo fosse de Uberaba, por exemplo. “A rota que passa por Uberlândia, rumo a São Paulo e o Sul do País é a mais visada pelos bandidos”, afirmou Souza.

A transportadora de Antônio Bittar Sobrinho tem 33 anos de existência. O proprietário adota a mesma cautela do presidente do sindicato quando relembra do roubo dos caminhões de sua empresa. “Oscarros da matriz e da filial de Paulínia (SP) já foram roubados. Principalmente nas estradas que cortam o Estado paulista. Mas decidimos adotar medidas de segurança, como rastrear e monitorar o movimento de 100% da frota. Sempre que esses assaltos acontecem, os criminosos usam de violência e ameaçam os caminhoneiros com arma de fogo”, disse o empresário.

R$ 4 bi levados em 5 anos

As ações das quadrilhas nas estradas brasileiras lembram o pânico e os saques cometidos pelos piratas dos mares. A Associação Nacional do Transporte de Carga e Logística (NTC & Logística) revela, em estudo, que esses piratas modernos levaram, entre 2002 e 2007, o equivalente aR$ 4 bilhões em mercadorias nos crimes praticados nas rodovias de todo o País.

A região mais visada pelos criminosos é o Sudeste, que teve prejuízo de R$ 1,94 bilhão, segundo o levantamento da NTC. Além do rombo financeiro, o Sudeste sofre com 79% dos 11.699 roubos registrados no País em 2007.

A maior parte dos assaltos em terras mineiras acontece nas regiões próximas a São Paulo, Estado brasileiro que mais consome. Na mira dos criminosos estão cargas valiosas, como os eletrodomésticos (máquina de lavar, freezer e micro-ondas) e a produção do café paulista.

A NTC não divulga os roubos de carga em Minas Gerais, mas estima-se que o Estado concentre 15% das ocorrências da região Sudeste. Isso representaria 1,4 mil assaltos durante o ano de 2007.

Números em Uberlândia

Brasil (em R$ milhões)

Fonte: Correio de Uberlândia





Um comentário em “O perigo que ronda as estradas

  • 10/09/2009 em 10:36
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    Uma saída que os caminhoneiros utilizam para garantir a própria segurança nas estradas é o de seguir viagem em comboios.
    Vários caminhões seguem em fila pela estrada.
    Se comunicam entre si via rádio.
    Se acontecer alguma coisa com um os outros ficam sabendo e imediatamente seguem para proteger o companheiro.
    Com rádio fica fácil de se chamar as autoridades se eventualmente houver alguma ameaça.

    Alexandre Olsson
    http://conversaforax.wordpress.com

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