Para sempre caminhoneiro

Gaúcho passou quatro anos dirigindo ônibus, mas não resistiu e voltou para a estrada




Ademar Paulleti é desses sujeitos de riso fácil, é quase um piadista; levar a vida com bom humor, para ele, é tarefa fácil. E foi assim que o encontramos, batendo papo e contanto histórias. “Meu sonho sempre foi ser caminhoneiro, quando criança via meus tios e primos dirigindo os caminhões e ficava encantado.”

Em 1980, o desejo de Ademar começou a se concretizar a bordo de um Mercedes-Benz 1113, de 1973. “Puxava frango vivo dentro da cidade e nas redondezas para as avícolas da região. Fiquei bem uns cinco anos com ele, caminhão bom, hoje, vejo que sinto saudades dele. ”Embora o 1113 não fosse de Ademar, como nenhum dos outros caminhões que dirigiu, o caminhoneiro, nascido no município de Antônio Prado e residente em Caxias do Sul, ambas no Rio Grande do Sul, sabe cada detalhe de todos que dirigiu. “Em 1989 dirigi outro 1113, este de 1980, e por incrível que pareça era melhor do que o primeiro. Ele tinha motor de 1.518, turbina de 1.620, diferencial de 839 e freio a ar. Nunca me deu um problema, acho que sinto mais saudades desse.”

Entre o primeiro 1113 e o segundo existe um intervalo de quatro anos, quando Ademar foi motorista de ônibus urbano. Do trabalho ele não reclamava; quem criticava eram os usuários. “Criticar nada, eu era xingado mesmo. Os passageiros gritavam ‘tirou a carta na farmácia?’ ou ‘fez aula pelo correio?’. Existe uma diferença muito grande de transportar carga e gente. Os frangos ao menos não reclamavam se eu dava uma freada brusca. Mas tem uma história que não esqueço: Uma vez tive que frear repentinamente, e uma senhora que estava passando a catraca, com a brecada, veio parar perto de mim e disse: ‘O senhor pensa que está carregando porcos?’. Não resisti e respondi direto: ‘Bom, a porta está aberta e é capaz de alguns entrarem’. Todo mundo começou a rir, a passageira ficou sem graça e foi sentar em algum lugar”, conta, às gargalhadas.

De volta aos caminhões, Ademar guiou diversos Mercedes: 1620, 1418, 1218. Hoje cruza o Brasil com um Volkswagen Constellation 250 de 2006, que pertence ao patrão, mas seu regime de trabalho é como se fosse autônomo. “Recebo 15% bruto de tudo que carrego. Não tenho salário nem diária, se não tiver carga não recebo nada, é por isso que pretendo trabalhar registrado, pelo menos tenho um salário garantido mesmo sem carregar nada. Para você ter uma ideia, gastei, nos últimos três meses, R$ 5.000 só de comida, e é tudo da comissão, não sobra para fazer outra coisa.”

Ademar se adaptou bem ao Constellation e vê ameaça à Mercedes, Volvo e Scania. “As montadoras pararam no tempo, VW e Ford estão com caminhões melhores. Há 20 anos, o 1113 era o melhor, hoje não é mais, o que faz o pessoal ainda comprar este caminhão é o nome que ele construiu. Ao menos para mim, o conforto, a capacidade de carga e até o freio do Constellation estão melhores que as outras montadoras.”

O gaúcho atesta que as estradas federais do Nordeste estão melhores do que tempos atrás e acredita que o pedágio nas rodovias privatizadas tem um lado bom e outro ruim. “Castello Branco, Anchieta, Washington Luiz estão muito caras. Porém a Fernão Dias tem uma taxa mais leve, mas em todas, além da qualidade do asfalto, existe o guincho, a segurança, trocam o pneu do caminhão, se precisar. Prestam um serviço legal para nós, pena que têm algumas que cobram muito caro.”

Por ter sofrido dois assaltos, em que lhe levaram dinheiro e documentos na cidade de Caxias, em 2001, e na Vila Maria, em São Paulo, há cinco anos, Ademar toma todo cuidado possível na hora de pedir informação ou parar na hora de descansar. “Só faço pergunta para frentistas em postos de gasolina. Quando paro para descansar procuro ficar em lugares com muitos caminhões estacionados, pelo menos sei que a comida é boa e barata, fora a segurança.” Falando em comida, o caminhoneiro, que é pai de Bruno e Diego, diz que manda bem na cozinha, faz de tudo, inclusive está montando uma no Constellation para reduzir as despesas. “Meu filho Bruno viaja comigo quase sempre e nós combinamos que eu preparo a comida e ele lava a louça. Nas viagens a gente fica batendo papo, ouvindo música, discutindo sobre futebol. É uma companhia para mim, então, esse negócio de solidão, saudade, não me afeta tanto. Nós ficamos rodando o país inteiro sem ter pressa de voltar.”

Fonte: TranspoShop

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