Cansaço, rebite e álcool, o trio perigoso do trecho




O cansaço em razão do longo período de tempo ao volante sem paradas para descanso, mais o uso de rebite para prolongar o tempo de direção e o consumo de bebidas alcoólicas são apontados como os principais vilões da estrada e responsáveis pela ocorrência de acidentes

O crescente número de acidentes com vítimas fatais nas rodovias levou entidades e empresas do setor de transporte a lançarem campanhas de conscientização dos motoristas para combater o consumo de álcool ou de uma legislação cada vez mais severa e punitiva. E, embora seja difícil admitir abertamente, é inegável que motoristas de caminhão tomam bebidas alcoólicas durante a viagem. Nos restaurantes de beira de estrada é comum a existência de um balcão com oferta de um aperitivo à disposição de quem chega para fazer uma refeição. Ocorre também o acompanhamento de cerveja ou vinho, ainda que em quantidades moderadas.

A principal causa dos acidentes nas rodovias está relacionada ao excesso de tempo ao volante e cansaço, diz José Aldo Regazzon, da Cootranscau
A principal causa dos acidentes nas rodovias está relacionada ao excesso de tempo ao volante e cansaço, diz José Aldo Regazzon, da Cootranscau

Para o presidente da Cootranscau (Cooperativa dos Transportadores de Cargas de Uruguaiana), José Aldo Regazzon, (46 anos, 25 de estrada e três na cooperativa) a principal causa dos acidentes nas rodovias está relacionado ao excesso de tempo ao volante e ao cansaço. Isso acontece porque o motorista comissionado precisa trabalhar mais para aumentar o rendimento no final do mês. Ele destaca que a chamada “carga horária” existe, mas salienta que o motorista não é obrigado a cumprí-la ao pé da letra. “Cansou, pára e descansa”. Além do cansaço, aponta outros fatores de risco, incluindo o álcool, rebites, o excesso de neblina na época do inverno e as condições das estradas que, apesar das melhorias anunciadas, ainda não estão em boas condições de trafegabilidade.

Irton Charles lembra que a longa espera pela liberação da carga deixa o motorista estressado e com maior chance de se envolver em acidentes
Irton Charles lembra que a longa espera pela liberação da carga deixa o motorista estressado e com maior chance de se envolver em acidentes

Ao volante de um Scania 91, Irton Charles Aguirre Giordano, 39 anos e oito de profissão, trabalha no transporte internacional e não acredita em carga horária e nem no excesso de trabalho. Segundo ele, tudo depende dos donos das empresas, que a cada dia ficam mais atentos a essas questões de segurança, incluindo o excesso de trabalho e, consequentemente, o cansaço. Lembra que em muitos casos o motorista espera três dias pela liberação da carga na Aduana, e quando sai está estressado, nervoso e se irritando com mais facilidade, situação que resulta em ultrapassagens malfeitas, imprudência e aumento das possibilidades de acidentes.

Motorista aposentado e hoje dono de frota, Adilson Liz dá instruções para os motoristas de seus caminhões que parem e descansem quando se sentirem cansados
Motorista aposentado e hoje dono de frota, Adilson Liz dá instruções para os motoristas de seus caminhões que parem e descansem quando se sentirem cansados

Irton Aguirre admite que nunca viu, mas sabe de motoristas que vão dirigir bêbados, usando rebites ou mesmo muito cansados. Lembra também o perigo causado pelos carros de passeio que querem disputar espaço com os caminhões, as péssimas condições das estradas, baixos valores dos fretes e, enfim, de uma série de fatores que deixam o carreteiro constantemente tenso e preocupado. Por isso, pondera, é preciso muita responsabilidade por parte do carreteiro, evitando todos os excessos que possam pôr em risco a viagem. Seguindo esse raciocínio, o motorista aposentado e hoje dono da Liz Transportes, Adilson de Liz, 52 anos e 34 de direção, deu instruções para os motoristas dos cinco caminhões da sua frota para que sempre que se sentirem casados, parem e descansem. Lembra que a responsabilidade na entrega da carga no prazo tem limites e não dá para abusar. Essa preocupação inclui a revisão rigorosa dos veículos e orientações severas aos motoristas sobre o tempo de direção e contra o uso de qualquer substância química, referindo-se ao álcool ou rebites.

Para Selso Motte e Angelo Maas, álcool, rebite e cansaço são os principais fatores de risco nas estradas e orientam os motoristas para obedecerem a legislação de trânsito
Para Selso Motte e Angelo Maas, álcool, rebite e cansaço são os principais fatores de risco nas estradas e orientam os motoristas para obedecerem a legislação de trânsito

Os três principais fatores de risco nas estradas são o álcool, rebites e o cansaço, conforme avaliação de Selso Motte Bairos, sócio-proprietário da Fast – Transportes e Comércio Ltda., de Uruguaiana. A empresa, formada com mais quatro sócios, Paulo Ricardo Marin, Adriano Rossatto, Gilmar Martins e Ângelo Maas, tem 34 caminhões, a maioria atuando no transporte internacional de cargas. De um modo geral, todos os motoristas são orientados para trabalhar dentro das normas legais de trânsito, obedecendo a limites de velocidade, de peso e de tempo de direção.

João Martins aponta o excesso de trabalho como a principal causa dos acidentes. Diz que com o cansaço surge a irritação, impaciência, imprudência e os acidentes
João Martins aponta o excesso de trabalho como a principal causa dos acidentes. Diz que com o cansaço surge a irritação, impaciência, imprudência e os acidentes

Ângelo Maas reconhece que a maioria dos carreteiros utiliza bebidas alcoólicas durante as refeições, citando o exemplo dos restaurantes que oferecem os aperitivos gratuitamente, logo à porta do estabelecimento, em mesas repletas de garrafas com as misturas mais exóticas. E o carreteiro, antes mesmo de começar a refeição, já está tomando bebida alcoólica. Depois, o vinho, a cerveja e a preguiça tão gostosa do “depois do almoço”. É quando o motorista deveria caminhar um pouco, dar a volta em redor do caminhão examinando pneus, amarras, lanternas. E só depois de alguns minutos e dessa caminhada, reiniciar a viagem. Nem sempre isso acontece, é claro. E a preguiça e o cansaço, aliado ao álcool, surge quando o motorista está no trecho.

Cléber Mainardi condena o uso de rebites e defende que é o motorista que manda no caminhão carregado. É ele que sabe a hora de descansar ou continuar a viagem
Cléber Mainardi condena o uso de rebites e defende que é o motorista que manda no caminhão carregado. É ele que sabe a hora de descansar ou continuar a viagem

As condições do clima e das estradas, quase sempre danificadas pelo excesso de peso das cargas, também são apontadas pelo sócio Selso Motte Bairos como fatores de perigo. Acredita que só através de uma legislação severa, com multas pesadas e da conscientização do setor para todos esses perigos, poderá haver mais segurança nas estradas.

O carreteiro João Martins, 53 anos e 35 de boléia, dono de um Volvo 2005 e mais dois caminhões que estão nas linhas internacionais, acredita que o alto número de acidentes nas rodovias tem várias causas. Todavia, o excesso de trabalho parece ser a principal, afirma. Segundo ele, existem horários para serem cumpridos e é preciso “tocar” se não quiser ficar no prejuízo. E, com o cansaço surge a irritação, a impaciência, a imprudência e os acidentes. “A carga horária provoca a loucura, o motorista fica nervoso, come e ultrapassa mal e acaba fazendo bobagens”, ressalta. João Martins conta que numa das últimas viagens parou por apenas 15 minutos num trajeto de 670 quilômetros, tudo para chegar a tempo de passar a fronteira no mesmo dia. Caso não conseguisse, perderia um dia de trabalho e como tempo é dinheiro, preferiu dirigir, mesmo cansado. “Muitas vezes por um atraso de algumas horas fica-se parado por quatro dias”. Mesmo assim é preciso coerência e bom senso, aconselha.

Parada por alguns minutos a cada duas ou três horas de viagem descansar e esticar as pernas é a receita de Silvo Storch, que já viajou por todo o Brasil e países do Mercosul
Parada por alguns minutos a cada duas ou três horas de viagem descansar e esticar as pernas é a receita de Silvo Storch, que já viajou por todo o Brasil e países do Mercosul

O motorista rebitado é o maior perigo nas estradas, conforme opinião do carreteiro Vilnei Goulart da Fontoura, de 40 anos de idade e 20 de boléia. Garante que nunca utilizou esse tipo de “droga”, mas garante que a maioria dos estradeiros utiliza. “É o único jeito de agüentar as viagens longas e com prazo certo para carregar ou descarregar”. Natural de Cachoeira do Sul/RS, e dono de um Scania 81, Vilnei viaja “para onde tiver carga”, incluindo Rio, São Paulo, Minas Gerais e “preferencialmente o transporte internacional por render um pouco mais no final do mês”. Lembra que o motorista cansado começa a errar as marchas e a ficar lento nos reflexos. Com isso, muitos apelam para o rebite, mesmo sabendo dos riscos para si e para outras pessoas que estão na rodovia, afirma. O ideal é dirigir com responsabilidade, parando sempre que sentir o corpo cansado, se alimentar direito, não usar bebidas alcoólicas e respeitar a sinalização, limites de peso de carga e, enfim, ficar sempre dentro da lei. “Mas, nesse sufoco que a gente vive, quem consegue fazer tudo direitinho, dentro do figurino?” questiona Vilnei Goulart da Fontoura.

Outro carreteiro a apontar o uso de rebites como um dos principais causadores de acidentes nas rodovias é o estradeiro Cléber Mainardi. Aos 36 anos de idade e 18 de profissão, para ele não existe esse negócio de horário. Depois do caminhão carregado, quem manda é o motorista, que sabe dos limites e de quando deve parar para descansar ou continuar a viagem. Acredita que muitos carreteiros usam o rebite para “aparecer”, e não por necessidade de cumprir a tal carga horária”. Cléber também critica os condutores de veículos pequenos, que sempre estão com pressa e não respeitam os caminhões. A maioria nem imagina as dificuldades em frear ou manobrar uma carreta na estrada, mesmo em velocidade moderada, ressalta.

Motorista cansado começa a errar marcha e a ficar lento nos reflexos, afirma Vilnei Goulart da Fontoura, que garante nunca ter usado rebite para agüentar as viagens
Motorista cansado começa a errar marcha e a ficar lento nos reflexos, afirma Vilnei Goulart da Fontoura, que garante nunca ter usado rebite para agüentar as viagens

Aos 47 anos de idade e 25 como motorista de caminhão, Silvo Storch Fenner – um gaúcho nascido em Cerro Largo e morando em Santo Ângelo – orgulha-se de já ter cruzado todas as fronteiras do Brasil e dos países do Mercosul. “Todas, não, faltam Porto Velho e Manaus”, corrige. Numa das paradas para o chimarrão, “que é sagrado”, estava em viagem de São Paulo para Santiago do Chile. E, como sempre faz, pára a cada duas ou três horas para descansar alguns minutos e espichar as pernas. Tudo está previsto e não vai atrasar a viagem, afirma. Ele lembra que tem visto muitas barbeiragens de motoristas de automóveis, que correm muito, fazem ultrapassagens perigosas e não respeitam ninguém. Silvo concorda que a maioria dos carreteiros toma bebida alcoólica no trecho, principalmente durante as refeições. Mas, no transporte internacional de cargas o pessoal cuida mais – evitando álcool e rebites. Ainda mais que na Argentina e Chile o controle das polícias rodoviárias é muito rigoroso, utilizando inclusive bafômetros. E se o motorista for pego vai pra cadeia, adverte.

72% DOS CARRETEIROS INGEREM BEBIDA ALCOÓLICA, REVELA PESQUISA

Pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto, aponta que os carreteiros estão abusando das bebidas alcoólicas. Segundo o levantamento, dos 1.014 motoristas de caminhão entrevistados, 735 (72%) assumiram que bebem. E pior: neste grupo, 380 (51%) bebem abusivamente, e 304 (31%) já sofreram algum tipo de acidente de trânsito.

Para a orientadora da pesquisa, a professora-doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP, Sandra Cristina Pillon, os números mostram que a saúde dos carreteiros é um problema público e merece atenção. “É um problema social”, diz a pesquisadora. Ela afirma que o País tem cerca de 1,2 milhão de carreteiros nas estradas, e o adoecimento dessa população traz más conseqüências, tanto do ponto de vista da saúde pública como do econômico, uma vez que muitas famílias dependem exclusivamente dos recursos financeiros do trabalho desse tipo de profissional.

Fonte: Revista Carga Pesada

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