Um genuíno "made in Brazil" no exército

A Fábrica Nacional de Motores (FNM) foi criada em plena segunda guerra mundial (1942), com a finalidade de produzir motores de aviões, o que fez com certo sucesso até meados dos anos 50, que com a modernidade se tornaram obsoletos. Ela então teve que se diversificar produzindo tratores, geladeiras, automóveis e caminhões.

O modelo escolhido foi o caminhão italiano Isotta Franschini, denominado no Brasil de  FNM R-80, posteriormente  D 7.300, mas na realidade era um derivado do modelo italiano  I.F.D80, com motor diesel de 100Hp. Dele foram produzidos 200 exemplares, com um índice de nacionalização de 30%.

Caminhão Isotta Franschini IF D-80 Italiano, que originou o FNM no Brasil.




Caminhão Isotta Franschini IF D-80 Italiano, que originou o FNM no Brasil.

Com a falência, na Itália, da Isotta Fraschini, em 1949, um novo contrato é feito com  Alfa Romeo, que dá continuidade à produção dos caminhões, com novo motor e nova cabine totalmente brasileira, mudando assim todo o seu aspecto, iniciando  a produção do modelo D 9.500 de 130 H.P. e 8,5 toneladas de carga.

Caminhões FNM  R-80 desfilando na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, em 30 de dezembro de 1949, quando do lançamento das primeiras 50 unidades. Notar o design totalmente diferente  dos conhecidos FNM posteriores.
Caminhões FNM R-80 desfilando na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, em 30 de dezembro de 1949, quando do lançamento das primeiras 50 unidades. Notar o design totalmente diferente dos conhecidos FNM posteriores.
Detalhe da cabina e chassis do FNM D-11000, tanto para a versão civil como para a militar, as diferenças são mínimas.
Detalhe da cabina e chassis do FNM D-11000, tanto para a versão civil como para a militar, as diferenças são mínimas.
Linha de produção da FNM, nos anos 50/60. Notar a grande quantidade de cabinas na linha de montagem.
Linha de produção da FNM, nos anos 50/60. Notar a grande quantidade de cabinas na linha de montagem.

A seguir iniciou-se a produção do  FNM D-11000, com nacionalização de cerca de 90%.  Considerado o mais resistente caminhão brasileiro, rapidamente ganhou fama e foi largamente comercializado na versão civil, sendo um importante meio de ajuda à integração e desenvolvimento do país.

Assim ele chamou a atenção do  Exército Brasileiro, por possuir diversas inovações em relação aos modelos americanos em uso, razão que o levou a seradquirido em grandes quantidades, visto que até os dias de hoje algumas unidades, principalmente de Intendência e Logística ainda o empregam com sucesso, em suas últimas versões, muito embora ainda existam diversos em operação nas mãos de civis.

O  FNM era equipado com um motor Diesel de 150 HP, Alfa Romeo, seis cilindros, de injeção a quatro tempos, relação de compressão de 17:1, 11.050 cilindradas e rotação máxima de 2000 por minuto, uma novidade para a época pois a maioria usava motor a gasolina. O bloco do motor era fundido em liga leve de alumínio, com camisas removíveis, facilitando em muito a manutenção e reparos até no caso de retífica do motor. Possuía quatro marchas normais e quatro multiplicadas á frente e marcha a ré normal e multiplicada. Duas árvores de transmissão, dianteira entre a embreagem e caixa de mudança, e a traseira entre a caixa de mudanças e o diferencial.

Vista lateral esquerda do motor Alfa Romeo AR 1610 Diesel que equipava a versão do FNM D-11000.
Vista lateral esquerda do motor Alfa Romeo AR 1610 Diesel que equipava a versão do FNM D-11000.

Versátil, eficiente e econômico, dotado de um chassi de extraordinária robustez, suportando pesadas sobrecargas em estradas de grande precariedade e principalmente de terra, possuía sete travessas de aço que reforçavam ainda mais a estrutura do chassi, com diversos modelos, caminhão comum, cavalo mecânico e apenas o chassi, para adaptação como basculante, e ainda na versão chassi longo,  que recebia um terceiro eixo. Seu peso era da ordem de 5.900kg, podendo transportar uma carga útil de 8.100kg e rebocar mais 18.000kg. Sua suspensão era de feixe de molas semi-elípticas, sendo a traseira com dois estágios de flexibilidade, mediante feixe de molas principal e auxiliar. O consumo de combustível para cada 100km rodados era de 28 litros como caminhão normal e 40 litros quando com reboque, e seu consumo de lubrificante era de 0,400kg para cada 100km.

Vista do FNM D-11000 na versão civil, com cabina simples.
Vista do FNM D-11000 na versão civil, com cabina simples.
Caminhão FNM D-11000 do 1º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, de Valença, RJ, antes de ser leiloado em 1995.
Caminhão FNM D-11000 do 1º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, de Valença, RJ, antes de ser leiloado em 1995.

Uma inovação importante era o fato de possuir leito suspenso no interior da cabine, dando um conforto maior ao motorista e ajudante, uma vez que existiam cabines com apenas dois assentos e cabines com duas camas, que podiam ser transformadas em um confortável banco para quatro pessoas, amplas e com excelente visão.

Outra inovação era no item segurança, pois possuía circuitos de freios dianteiros e traseiros totalmente independentes, freios pneumáticos Whestinghouse, de ação instantânea, que numa eventualidade de “estourar” um circuito, o motorista poderia prosseguir viagem até a próxima oficina.

Este caminhão chegou  a ser operado pelo Exército Brasileiro não só dentro do território nacional, mas alguns foram enviados para a região de Gaza, no Oriente Médio para servir como transporte em auxílio às tropas brasileiras que estavam a serviço da ONU na região, tentando evitar conflitos entre Árabes e Judeus.

Lá tiveram muitas limitações  pois atolava com freqüência na areia fofa do deserto, visto  que não ser o caminhão ideal para aquele terreno, mas mesmo com suas limitações cumpriu seu papel. As tropas brasileiras usaram caminhões ingleses BREDFORD que melhor se locomoviam naquelas condições.

Caminhão FNM D-11000, cabina dupla, em operação de Paz no Oriente Médio operado pelo Exército Brasileiro nos anos 60.
Caminhão FNM D-11000, cabina dupla, em operação de Paz no Oriente Médio operado pelo Exército Brasileiro nos anos 60.

Sem dúvida foi um marco importante não só como o primeiro caminhão totalmente “Made in Brasil”, produzido em série e empregado tanto no meio civil como no militar, operando sob severas e árduas condições, como também mostrou  a importância deste tipo de veículo, que foi produzido no país por diversas outras empresas e marcas, consolidando uma importante indústria voltada para a área de caminhões.

Caminhões FNM D-11000 usados pelo 4º Depósito de Suprimentos do EB na cidade de Juiz de Fora, MG.
Caminhões FNM D-11000 usados pelo 4º Depósito de Suprimentos do EB na cidade de Juiz de Fora, MG.
Foto de 1986, notar as duas versões, carroceria em madeira e  baú frigorífico.
Foto de 1986, notar as duas versões, carroceria em madeira e baú frigorífico.

Vale ressaltar que a Marinha e a Aeronáutica também operaram caminhões FNM em diversas versões.

A FNM foi adquirida em 1976 pela Fiat e encerrou suas atividades no Brasil em 1985, muito embora a produção de caminhões tenha chegado ao fim em 1983.

Fonte: UFJF Defesa

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Um comentário em “Um genuíno "made in Brazil" no exército

  • 08/10/2009 em 15:22
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    Não podemos esquecer uma coisa.
    Na epoca da construção da Siderurgica Nacional em Volta Redonda, o transporte das enormes peças metalicas que fazem parte da caldeira e do forno, eram feitos pelos Feneme.
    O slogan da epoca era algo assim:
    “O Feneme transporta a siderurgica.”
    Dizem os antigos, que naquela epoca, via-se muito Fenemes com peças absurdamente enormes em suas carrocerias, ou reboques.
    Cidades do interior paravam pra ver os caminhoes passarem.

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