Entre o medo e sorte




Diante do iminente risco de serem abordados por assaltantes, carreteiros conhecem bem o perigo que correm nas estradas e tomam todas as precauções possíveis para evitar que caminhão, carga, ou até mesmo suas vidas sejam levadas por ladrões.

A atuação de quadrilhas organizadas no roubo de cargas, no Brasil, tem causado enormes prejuízos financeiros, além dos riscos impostos aos motoristas, que em muitos casos são assassinados pelos criminosos. Apesar da extensão dessa atividade – já que é muito mais fácil atacar um carreteiro indefeso do que outro tipo de assalto que enfrente maior resistência -, faltam estatísticas definitivas que possam orientar as autoridades policiais, transportadores ou companhias de seguro no combate a esse tipo de crime. Uma estimativa extra-oficial divulgada pelo assessor de Segurança da NTC & Logística, coronel Paulo Roberto de Souza, mostra a ocorrência de 420 casos de roubos de cargas em 2008, que geraram prejuízo de R$ 51 milhões. No primeiro semestre de 2009 teriam sido registrados 185 casos, com R$ 22 milhões em prejuízos. Vale salientar que esses dados não são oficiais e também não incluem o roubo do veículo e nem o que aconteceu ao motorista.

Renato Charão agradece a Deus por nunca ter sido assaltado ou sofrido qualquer tipo de violência nas estradas

Nas estradas, os carreteiros tomam cuidados extras para a sua segurança, a do caminhão e da carga que conduzem, preferindo sempre viajar em grupos, parar em lugares conhecidos e “cuidarem uns dos outros”. De um modo geral, todos conhecem casos de assaltos e de violência nas rodovias.

O carreteiro Renato Charão, 57 anos e 36 de estrada, natural de Santa Maria/RS, agradece a Deus por nunca ter sido assaltado ou sofrido qualquer tipo de violência. Mesmo assim, não se descuida. Ele dirige uma carreta em todo o território nacional sem seguro e sem rastreador, tido por ele como caros demais para um caminhão velho. Todavia, toma alguns cuidados básicos em termos de segurança: não viaja à noite, não dá caronas e as paradas para abastecimento ou pernoite acontecem somente em lugares conhecidos. Sempre que possível prefere rodar com outros colegas que sigam para o mesmo destino. Charão conta que há poucos dias o amigo Élvio Diniz foi assaltado em Campinas/SP e os ladrões quebraram o vidro da janela da cabina enquanto o amigo dormia e, sob a ameaça de armas, levaram um Volvo FH praticamente zero quilômetro. O motorista foi abandonado num matagal à margem da rodovia, sem ferimentos. Caminhão e carga não foram localizados pela Polícia. Charão acredita que os bandidos utilizaram outro caminhão para quebrarem o vidro da janela e entrarem na boleia, já que a cabina é muito alta para ser alcançada do solo. Por essas e outras é que ele tem muito medo ao dirigir nas estradas brasileiras. “É preciso tomar muito cuidado”, adverte.

Há cerca de um ano, o empresário Rodrigo Cadinamos Ribeiro teve um caminhão roubado na saída do túnel de Santa Fé, na Argentina

Para quem está no trecho, histórias de assaltos ou de algum tipo de violência nas estradas são comuns. Nem que seja violência policial, queixa comum de motoristas que viajam pelo território argentino. Em Uruguaiana/RS, Rodrigo Cadinanos Ribeiro, 34 anos e há cinco no setor de transportes, já amarga a perda de um caminhão Ford Cargo ano 2000, com carreta, transportando implementos agrícolas e que foi roubado na saída do túnel de Santa Fé, na Argentina, no dia 27 de dezembro do ano passado. Até hoje ele continua pagando as mensalidades do caminhão e dos pneus novos comprados a prazo. Segundo alegação do motorista, ele teria sido assaltado por quatro homens armados na saída do túnel e não comunicou o fato antes por falta de dinheiro. “Mas, nada pode ser dito ou mesmo sugerido por absoluta falta de provas”, ressalta o empresário Rodrigo Ribeiro.

O Rodoanel de São Paulo e a rodovia dos Imigrantes, na Baixada Santista, são locais que exigem cuidados redobrados, diz Solemar de Souza Ferrão

Outro carreteiro que trafega sempre precavido contra eventuais assaltos ou qualquer tipo de violência nas estradas é Solemar de Souza Ferrão, 32 anos e 12 de profissão. Ele é natural de Rosário do Sul/RS e costuma viajar entre Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e países do Mercosul. Confessa que sempre toma cuidados redobrados ao passar pelo Rodoanel, em São Paulo. Também teme determinados trechos da Rodovia dos Imigrantes – entre São Paulo e a Baixada Santista -, sobretudo na saída para Santos. Por isso, “para não dar chance ao azar”, prefere sempre estacionar nos pátios das empresas ou, em último caso, nos postos conhecidos ou credenciados pela transportadora. Procura a companhia de carreteiros da região ou, pelo menos, dos que trabalham para grandes empresas que, supõe, não vão empregar maus elementos. Acredita que em termos de segurança, as estradas argentinas ainda são as mais tranqüilas. “A maior violência fica por conta de problemas com as polícias camineras”, acentua. Solemar nunca foi assaltado e reza todos os dias para que isso nunca aconteça.

Além dos cuidados básicos, Fabiano Pereira Ferreira segue as orientações de segurança transmitidas pela empresa em que trabalha

Fabiano Pereira Ferreira, 28 anos e nove de estrada, natural de Lages/SC, confessa que viaja tranquilo pelas estradas brasileiras, seguindo as orientações de segurança dadas pela empresa para a qual trabalha, além dos cuidados básicos que qualquer motorista deve ter. Trafega dentro da velocidade permitida, paradas só em locais determinados e com o acompanhamento do rastreador via satélite que denuncia qualquer irregularidade na viagem, até mesmo a abertura das portas. Como a maioria dos carreteiros no trecho, Fabiano também conhece colegas que foram assaltados sob a mira de armas ou mesmo pela “chinelagem” que estoura a caixa da cozinha para roubar comida ou o bujão de gás.

Apesar de garantir que não tem medo de ser assaltado, Fernando Félix prefere viajar junto de outros motoristas conhecidos

Na opinião do carreteiro Fernando Félix, 31 anos e 12 de profissão, as estradas sempre são perigosas em todos os sentidos. E o número de bandidos tem aumentado muito, principalmente nos arredores das grandes cidades. Natural de Joinville/SC, e viajando para Brasília, Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Espírito Santo, ele confessa que não tem medo de assalto. Segue as orientações de segurança da empresa, o caminhão tem rastreador e – sempre que possível – prefere trafegar com outros motoristas conhecidos e parando nos lugares indicados. Acredita que na estrada e nos postos de estacionamentos os carreteiros ficam atentos, “uns cuidando dos outros”, afinal, todos estão trabalhando, têm família e querem chegar bem ao final da viagem.

Não viajar à noite e evitar caronas são medidas adotadas por Sérgio Luiz Tavares para não ter surpresas desagradáveis com ladrões

Sérgio Luís Tavares tem 37 anos e 19 de volante. É natural de Curitiba/PR e transporta, principalmente, polietileno entre Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Goiânia. “Graças a Deus nunca fui assaltado e espero que isso nunca aconteça”, diz, tomado por muitas precauções no trecho. O caminhão tem rastreador, não viaja à noite, “carona nem pensar”, paradas só nos locais autorizados e a preferência é para viajar junto de dois ou três colegas.

O certo é que os motoristas de caminhão estão sujeitos a vários tipos de violências, não apenas a de ladrões de caminhões ou de cargas. São vítimas de assaltos em postos de abastecimentos, de ladrões que roubam a caixa de alimentos e até da violência, e do mau atendimento em pontos de cargas ou descargas, sem falar nas conhecidas multas indevidas ou “achaques dos policiais rodoviários”. Há pouco tempo, o carreteiro Mauro Edson Machado, de São Borja/RS, aguardava a sua vez para ingressar na ponte internacional sobre o rio Uruguai, na divisa do Brasil com a Argentina, em Uruguaiana/RS, quando foi assaltado por dois homens. O caminhão estava parado a cerca de 50 metros do posto da Polícia Rodoviária Federal. O moto­rista foi atingido por um tiro de revólver no peito ao tentar apanhar a carteira para entregar aos bandidos. Socorrido na Santa Casa, escapou com vida. Dois suspeitos foram pre­sos e soltos por “falta de provas”. Esse tipo de violência é tão comum nas estradas brasileiras que nem chega a ser contabilizada, assim como também não são devidamente contabilizados e investigados todos os casos de roubos de caminhões, cargas e desaparecimento de motoristas, conforme denúncias do setor.

Fonte: Revista O Carreteiro




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