Fim de ano – Estrada dividida




O aumento do movimento nas rodovias no período do Natal e Ano Novo é mais um problema para os carreteiros, que são obrigados a ter mais atenção para evitar acidentes e até ajudar os motoristas de carros de passeio, já que muitos deles não estão acostumados a dirigir em rodovias

Se para alguns final de ano significa sol, praia, festas e descanso ao lado da família, para outros é uma época de mais trabalho e estresse. É o caso dos carreteiros que, acostumados com a estrada, sabem que no período de fim e início de ano as rodovias ficam mais perigosas. O motivo é ter de dividir o mesmo espaço com motoristas menos experientes e em muitos casos sem conhecimento suficiente para entender as limitações e comportamento de um veículo pesado. O inspetor Edson Varanda, chefe de comunicação social da 6ª Superintendência da Polícia Federal, alerta para uma maior probabilidade de acontecer acidentes de trânsito no período de férias, já que há um maior número de veículos em circulação nas rodovias. “A fiscalização e o policiamento nessas épocas são intensificadas para proporcionar maior segurança para os motoristas que trafegam pelas rodovias brasileiras”, explica.

Edson Varanda alerta para a maior probabilidade de haver acidentes durante o período de férias

Os carreteiros afirmam que o desgaste físico é maior neste período, pois se sentem na obrigação de redobrar a atenção e dirigir com mais cautela e responsabilidade, além de serem mais pacientes com os motoristas que parecem descompromissados com a segurança e apressados em chegar ao seu destino. Garantem que até mesmo o desgaste do caminhão é maior.

É o que acontece com o autônomo Graciano Nadir Pereira, de São Borja/RS, motorista com mais de 30 anos de experiência. Ele afirma que entre os meses de dezembro e janeiro redobra os cuidados na estrada. “É como se dirigisse por dois. É cansativo e tenso, porém, é uma forma de realizar o meu trabalho sem causar ou participar de acidentes”, explica. Acredita que os motoristas de carro de passeio desconhecem as dimensões e as limitações do caminhão, por isso não entendem o fato de o carreteiro reduzir a velocidade em certas situações óbvias, como em uma subida de serra, por exemplo. “Confesso que tenho medo de trabalhar nessa época do ano, a pressa dos motoristas para chegar logo à praia faz com que cometam muitas imprudências”, opina.

Para o Graciano Nadir Pereira, os motoristas de carros de passeio desconhecem as dimensões e limitações dos caminhões

Há apenas três anos na estrada, o jovem Fernando Reck, que faz a rota Brasil e Argentina, também não gosta de trabalhar no final do ano. Diz que o índice de acidentes aumenta justamente pela falta de experiência e de respeito entre os motoristas. “A grande questão é que cada um está na estrada com um objetivo. Nós, com a responsabilidade de entregar a carga no horário e os ocupantes do carro de passeio com a pressa de chegar logo e aproveitar as férias”. De acordo com Reck, o que mais o incomoda são as ultrapassagens e a pressão para deixar o caminho livre. “Se pudesse tirava férias nesse período, mas, infelizmente o máximo que vou conseguir é passar o Natal junto da família”, conclui.

O índice de acidentes aumenta devido a falta de experiência e de respeito, acredita Fernando Reck

Para Luiz Antonio Menezes, de Foz do Iguaçu/PR, 51 anos de idade e 31 de profissão, que viaja na rota Brasil, Argentina e Chile, o final de ano é muito complicado para os motoristas de caminhão, a começar por não haver condições de passar o Natal ao lado da família. “Apesar de estar há muito tempo na estrada, ainda não me acostumei com essa situação. Gostaria de poder levar minha esposa e filhos comigo, mas, não posso porque a aduana do Chile não permite”. Outro problema apontado por Luiz é a dificuldade de dividir a estrada com veículos de passeio, já que os condutores não estão acostumados a dirigir na estrada e assim provocam situações perigosas, principalmente nas ultrapassagens. “Em uma subida de serra, por exemplo, um caminhão carregado com 25 toneladas não desenvolve a mesma velocidade que um carro e a falta de paciência faz com que o motorista entre na nossa frente e se arrisque dificultando a nossa dirigibilidade, pois somos obrigados a parar”.

As dificuldades começam pela falta de condições de passar o Natal com a família, constata Luiz Antonio Menezes

Outro ponto citado pelo carreteiro é a impaciência nessa época do ano. Ele cita o exemplo de que muitas vezes se sente pressionado a desviar para o acostamento para facilitar a passagem dos ‘apressadinhos’. “Recentemente, fiz um curso de reciclagem e foi dito que é extremamente proibido utilizar o acostamento para fazer ultrapassagem, e que se for pego corro o risco de ser multado”, lembra.

O aposentado Dagoberto Álvaro, de Uruguaiana/RS, diz que no final do ano sempre é assim, o movimento de carro de passeio aumenta e a atenção e o estresse do carreteiro são dobrados. Critica os motoristas que por conta da pressa de chegar logo ao destino – e não perder nenhum dia de férias – se arriscam em manobras, como ultrapassagens perigosas e às vezes fazem um verdadeiro ziguezague na pista. “As pessoas não entendem que o tempo de frenagem de um caminhão carregado é muito longo e um impacto com um veículo de passeio pode resultar em acidente grave”.

O ziguezague na pista e a pressa de chegar ao destino são motivos de críticas aos motoristas de carros de passeio por parte de Dagoberto Álvaro

Para Dagoberto, dirigir na estrada exige mais do condutor do que no perímetro urbano, por isso é importante respeitar os limites. No seu caso, garante que como medida de segurança trafega sempre na pista da direita para facilitar a ultrapassagem, porque na estrada tem motoristas profissionais e amadores que acabaram de tirar a Carteira de Habilitação.

Cláudio dos Santos Sigal, 37 anos de idade e 12 de profissão, de Uruguaiana/RS, também acredita que é muito importante dirigir com cautela nesse período de férias, porque o estresse aumenta significativamente. “O carreteiro tem responsabilidade ainda maior, pois, como tem mais conhecimento e melhor visibilidade dirige por dois”, opina. Diz que facilita a ultrapassagem sempre que possível, mesmo assim admite que muitas vezes fica com medo quando recebe o farol alto, pois não consegue saber se é um motorista querendo apenas a passagem ou um policial.

O carreteiro tem maior responsabilidade, pois conhece melhor as estradas e tem maior visibilidade da pista, diz Cláudio dos Santos Sigal

“A falta de experiência e a idéia errada de que dirigir na cidade e estrada são a mesma coisa atrapalham e tornam perigoso trabalhar em períodos das férias e feriados”, desabafa Márcio Roberto Schott, de Giruá/RS. Assim como seus colegas, reclama das ultrapassagens e de alguns condutores que, por medo, viajam a 40km por hora, atrasando a entrega das cargas e atrapalhando o tráfego em subida ou descida de serra.

Além de todas as dificuldades, Márcio chama atenção para um outro problema, o do aumento do consumo de óleo diesel e o desgaste das lonas de freio. “Em período de grande movimento exigimos demais do caminhão para acompanhar o ritmo de motoristas poucos experientes”. Outro ponto negativo no período das férias é o fato de estar longe de casa e dos familiares, afinal, ele transporta carne, batata-frita e outros alimentos muito consumidos nessa época do ano. “Trabalho para a alegria dos outros, por isso acredito que os condutores de veículo de passeio deveriam respeitar mais a nossa profissão”.

O aumento do consumo de diesel e o desgaste das lonas de freio fazem parte do maior gasto do caminhão no período de férias, aponta Márcio Roberto Schott

Essa é a opinião também de Flávio Renato Aires, que acumula 28 anos de profissão. Ele acredita que os motoristas de carros de passeio deveriam encarar a estrada com mais tranquilidade e responsabilidade, afinal, estão em férias, ao contrário do carreteiro que está com a cabeça cheia de prazos para entregar a mercadoria e ainda se encontra longe de casa em épocas de festas tão familiares. “Muitas vezes a pressa pode resultar em acidente grave e disputar espaço com o caminhão pode ser perigoso e até fatal, por isso é necessário dirigir com cuidado”, alerta.

Os motoristas deveriam encarar a estrada com mais tranquilidade, afinal, estão em férias, ao contrário do carreteiro, opina Flávio Renato Aires

Flávio destaca também que o caminhão tem dificuldade de frear em uma situação inesperada e ilustra que um veículo de 23 toneladas a 80 km/hora se desloca cerca de 500 metros até parar. “Por isso seria importante que as pessoas conhecessem mais como funciona um veículo pesado”, diz. Outro ponto importante é que a visibilidade do carro de passeio é menor que a do caminhão e assim os motoristas não têm idéia do que pode encontrar na frente, caso optem em realizar uma manobra perigosa.

Por todos esses fatores, Antonio Gazola, de Sarandi/PR, de 35 anos, acredita que é muito importante ter prudência e dirigir com muito mais cautela. “Como somos profissionais temos o dever de ajudar a promover a segurança no trânsito. Não adianta querer ser imprudente também. Nessa época do ano o ideal é relaxar, ter paciência e atenção redobrada”, sugere.

Por serem profissionais, os carreteiros têm o dever de ajudar a promover a segurança no trânsito, destaca Antônio Gazola

Antonio explica que todo carreteiro tem uma arma de guerra nas mãos, portanto deve ter responsabilidade na hora de usar. Afinal, em caso de um acidente, a culpa geralmente recai no profissional do volante e as consequências podem ser graves, como sujar o nome e perder o caminhão, a carga e, consequentemente, bons fretes. “O bicho é feio, então o jeito é enfrentar com consciência. É época de estar com a família e curtir as festas de fim de ano”.

O inspetor Varanda sugere que todo condutor que trafega pelas estradas esteja sempre atento ao trânsito para prevenir eventuais acidentes. Ressalta que os motoristas profissionais devem ter paciência, respeitar os limites de velocidade, manter distância segura dos veículos que estão à frente e fazer ultrapassagens apenas em locais permitidos.

Fonte: Revista O Carreteiro

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