Profissão carreteiro – Despesas nas alturas




Carreteiros autônomos reconhecem que o faturamento não é tão baixo o quanto parece, o problema, segundo apontam, são as altas despesas com pedágio, óleo diesel e manutenção do caminhão, tidos como os maiores responsáveis pela redução dos seus ganhos

O autônomo, assim como os demais carreteiros, sofre com a rotina diária na estrada que inclui – entre outras coisas – a ausência de casa, a falta de segurança e, principalmente, a corrida contra o tempo na busca por fretes para garantir um melhor faturamento no final do mês. No seu caso, específico, trata-se de um profissional que é responsável pela manutenção de seu caminhão, assim como todas as demais despesas, como pedágio, documentação e combustível. Atualmente, muitos têm consciência de que trabalham apenas para sobreviver enquanto não falta quem admite que paga para trabalhar.

Com uma prestação do caminhão de R$ 2.400 por mês, José Zildo da Silva costuma levar mais de um frete por viagem

Em qualquer um dos casos, a realidade do dia-a-dia é a intensa corrida atrás de fretes para que se possa ao menos pagar em dia todas as despesas profissionais e pessoais, isso quando não têm de quitar mensalmente altas parcelas de financiamento do caminhão. Muitas vezes, os autônomos pegam mais de uma carga para a mesma viagem, como complemento para aumentar o ganho. O ruim disso, segundo afirmam, é o possível atraso das entregas.

Para não ficar devendo para ninguém, João Moreira Araújo Filho conta com a ajuda da sua esposa para reforçar o caixa da família

Experiente no assunto, José Zildo da Silva, 44 anos e 26 de estrada, de Carapicuíba/SP, costuma pegar complemento para somar o faturamento mensal e acredita que esta é a forma de não fechar o mês no vermelho, com tantos gastos que a profissão exige. “Eu pago R$ 2.400 de prestação do meu caminhão e, às vezes, acabo atrasando a entrega porque tenho que parar para completar a carga, para conseguir fechar o mês com saldo positivo e, claro, sobreviver”, conta. Sua opinião é igual a de outros motoristas, que consideram o óleo diesel como o maior gasto do autônomo. Cita o exemplo de quando consegue faturar R$ 6 mil, sobram líquidos apenas R$ 2.800,00.

José de Jesus Rocha, que está há 34 anos na profissão, largará a estrada logo que terminar de pagar o financiamento de seu caminhão

Outro motorista que possui uma alternativa de sobrevivência é João Moreira Araújo Filho, 43 anos, de Castilho/SP. Transportador de carga geral, ele paga R$ 1.400 por mês de financiamento do caminhão e admite que sua esposa contribui no orçamento mensal da casa. “Está difícil se manter na estrada. Tenho pouco tempo na profissão e já percebo que não é fácil enfrentar essa luta”, conclui.

Com tantos custos, como troca de peças, pedágio e combustível, João Inácio Ferreira diz que suas despesas chegam a ser 70% do faturamento

Há casos isolados de carreteiro que pretende se aposentar do volante e seguir direto para um novo meio de vida para aumentar a renda. É a situação vivida pelo autônomo José de Jesus Rocha, 53 anos, de Santo Estevão/BA. Saturado de tanto “pagar para trabalhar”, afirma que depois de 34 anos na atividade largará a estrada assim que terminar de pagar seu caminhão, cuja mensalidade gira em torno de R$ 3.800 mil/mês. Atualmente, Rocha transporta para o Nordeste tudo que aparece e, para ajudar no orçamento do mês, possui uma casa de autopeças próximo à cidade onde mora, no Estado da Bahia. De acordo com ele, só consegue pagar a prestação mais o seguro do caminhão graças ao extra que retira de sua loja. “No mês passado, fiz um frete de R$ 3 mil e sobrou apenas R$ 800”, admite.

Elias Zer Padovessi já chegou a faturar 15 mil brutos em um mês, mas após pagar todas as despesas lhe sobraram apenas R$ 4 mil

O paranaense João Inácio Ferreira, de 59 anos de idade e 14 de estrada, da cidade de Ubiratã, diz que com o que ganha e com tantos custos, como troca de peças, molas, pedágios e óleo diesel, dá para sobreviver na marra. “O frete precisa melhorar para compensar tantos pagamentos”, explica. Ferreira transporta cargas em geral entre Curitiba e São Paulo, e lembra que suas despesas somam 70% de seu faturamento, citando que quando fatura R$ 5 mil resta apenas R$ 1,5 mil para suas responsabilidades em casa. Além disso, ainda tem de arcar com o financiamento de seu caminhão.

Mesmo com todos os custos operacionais, o gaúcho Amarildo Lipert garante que consegue sobreviver da profissão de carreteiro

Outro que discute o pouco lucro da profissão é o motorista Elias Zer Padovessi, 49 anos e 30 de profissão, de São Paulo. De acordo com ele, já chegou a faturar R$ 15 mil num único mês, com fretes para o Nordeste. Lembra que após pagar todas as despesas operacionais sobrar a ele cerca de R$ 4 mil. Entre os gastos estão pagamentos de pedágios, óleo diesel e a prestação do veículo – uma parcela de R$ 2.700 por/mês. “Os gastos são demais, mas ainda está dando para sobreviver”, se conforma.

Quando o caminhão é mais velho, o custo de manutenção também é maior, lembra Adauto José da Silva, que fatura líquido entre 3,5 e 4 mil reais por mês

Autônomo Amarildo Lipert, de Morrinhos do Sul/RS, 44 anos, também reclama do preço alto do óleo diesel. Por outro, o gaúcho diz faturar bem, mesmo com o lucro menor que 50% do bruto. Com 25 anos de experiência, carrega carga geral entre São Paulo e Porto Alegre. “Apesar de todas as despesas, ainda consigo sobreviver com tudo isso”, disse.

Opinião semelhante tem o pernambucano Adauto José Silva, 68, do município de Bezerros, que acredita que nesses 18 anos na atividade seus maiores custos são o combustível e o pedágio. “Eles estão acabando com o autônomo”, afirma. Ressalta que a manutenção do veículo também não fica muito atrás, quando o caminhão é usado ou muito velho. Em média, o carreteiro fatura mais de R$ 6 mil sobrando livre entre R$ 3,500 e R$ 4.000. José da Silva costuma fazer o trajeto entre Belo Horizonte, Mato Grosso do Sul e São Paulo transportando diversos tipos de carga.

Fonte: Revista O Carreteiro

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