Rodovia do Contorno: 10 anos depois, obras se arrastam




Foto: Gildo Loyola

As obras de duplicação da Rodovia do Contorno, que liga os municípios de Cariacica e Serra, começaram há quase dez anos e andam a passos lentos. Há vários pontos de intervenção.

No entanto A GAZETA percorreu a via e constatou, na tarde desta segunda-feira (11), que elas estavam sendo executadas em apenas dois trechos. Segundo informações de funcionários da empresa responsável pelo serviço, a terraplanagem estaria paralisada desde novembro do ano passado.

Enquanto isso, as marcas de frenagem na pista indicam que o local continua sendo palco de muitos acidentes. No ano passado, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou uma média de 48 acidentes por mês no primeiro semestre. Aliás, não é por acaso que a via foi batizada de “Rodovia da Morte”. As vítimas mais recentes foram dois pastores evangélicos e um motociclista. Eles morreram no último sábado, após um engavetamento envolvendo sete veículos.

Muitos motoristas reclamam da sinalização precária dos trechos em obras. São poucos os pontos que contam com sinalização horizontal – que é pintada na pista – e as placas são escassas.

Ontem, poucos trabalhadores estavam na rodovia. De acordo com dois deles, a paralisação da terraplanagem teria acontecido por motivos financeiros, informação que é negada empresa Delta Construção, responsável pela obra.

“Estamos parados desde novembro porque o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) não está repassando o dinheiro para que a Delta toque a obra”, diz um funcionário. Ele estava no local apenas para desentupir os bueiros.

Um outro trabalhador alegou ainda que há problemas com desapropriações. “As obras de terraplanagem estão prejudicadas por conta da falta de verba e por problemas com desapropriações no bairro Inhanguetá”, afirma.

Prazo

A obra teve início em 2000 e já teve mais de duas datas para sua conclusão. Desde então, o Tribunal de Contas da União (TCU) também interferiu no processo de licitação, por conta de problemas jurídicos.

Em 2008, as obras ganharam impulso com os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas o DNIT precisou esperar a liberação efetiva da verba, que aconteceu de forma lenta.

No ano passado, o superintendente regional do DNIT, Élio Bahia, afirmou que tudo estaria pronto em janeiro de 2010, mas a situação ainda é crítica no local.

Duplicação deve reduzir acidentes

A duplicação da Rodovia do Contorno é fundamental, não apenas para desafogar o trânsito de caminhões pesados na via, mas também para contribuir com a redução do número de acidentes que são registrados no trecho.

No entanto, para a Polícia Rodoviária Federal (PRF) ressalta que esse não é o número fator responsável por acidentes no local: a imprudência do motorista também contribui. Nos últimos seis meses, a PRF fez mais de cinco mil flagrantes de excesso de velocidade na no Contorno.

“É uma intervenção que não deveria causar acidentes. O motorista precisa ter atenção redobrada, e também não é interessante para a sociedade que uma obra desse porte dure tanto tempo”, ressalta o inspetor Edmar Camata, chefe do setor de Comunicação do Departamento Estadual da PRF.

Recomendação

A falta de sinalização no trecho em obras também chamou a atenção do Ministério Público Federal no Espírito Santo (MPF/ES), que chegou a enviar uma recomendação ao Dnit, em agosto do ano passado, para que a autarquia melhorasse tomasse as devidas providências. Na época, o MPF alegou que a deficiência ou a ausência de sinalização é causa relevante para a ocorrência de acidentes.

Na ocasião, a PRF afirmou que a sinalização não era a mais adequada para alertar os condutores dos riscos de acidentes nos locais que seriam duplicados, e que os trabalhos de recuperação da malha viária das BRs 101 e 262 também vem causando confusões a quem trafega pelas rodovias federais.

Empresa diz que obras continuam normalmente

A empresa responsável pelas obras na Rodovia do Contorno, a Delta Construção, informou, por meio de nota, que cerca de 60 homens trabalham atualmente no local, e que as obras prosseguem normalmente. A empresa também anunciou que um trecho de dez quilômetros já foi duplicado e será entregue em 30 dias, após a conclusão da sinalização, que tem sido feita nos finais de semana para evitar engarrafamentos durante os dias úteis. A Delta também acrescentou que “os operários trabalham na duplicação das pontes que cortam a estrada (serviço feito por baixo da rodovia) e na instalação de todos os elementos de drenagem como meio-fios, descidas dágua e sarjetas”, diz a nota. Já a assessoria de imprensa do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT), informou que está ciente do fato, mas que a posição oficial do órgão só será dada com a chegada do superintendente regional Élio Bahia, que está viajando.

“Na próxima vez, não venho de carro”

Se para os capixabas é difícil, os turistas devem ter ainda mais atenção ao passar pela Rodovia do Contorno. Que o diga o militar Paulo Henrique Cegato, que viaja com a família – entre eles o filho Pedro Cegato, 7 anos. “É uma confusão muito grande”, diz. Eles saíram de Rondonópolis, no Mato Grosso do Sul, em direção a Natal, no Rio Grande do Norte. “A sinalização (na Rodovia do Contorno) é muito precária, não há muitas placas, e a marcação na pista quase não existe. Além disso é impossível identificar os trechos onde a via está duplicada”, diz. Ele afirma que foi o pior trecho que encontrou na viagem. “Na próxima vez, não vamos vir mais de carro”, comenta.

Carroceria ficou destruída em acidente

A carroceria destruída e um prejuízo de mais de R$ 2 mil, esse foi o saldo de um acidente ocorrido com o caminhoneiro Luiz Carlos Miranda, 52, em novembro, na Rodovia do Contorno. “A culpa foi da bagunça que é o trânsito aqui. É difícil encontrar quem ainda não tenha se envolvido em acidente”, diz. Ele é obrigado a cruzar o Contorno todos os dias para ir até à empresa em que trabalha. “Os maiores riscos são à noite e quando chove, essa obra já devia estar pronta há muito tempo. Essa demora é um absurdo”. Ele lamenta a situação: “O Contorno é uma rodovia tão importante, que foi feita para reduzir o fluxo de caminhões na cidade”.

“Perdi a conta de quantas mortes já vi”

“Já perdi a conta de quantas mortes eu presenciei aqui”. O desabafo revoltado é do aposentado Guilherme de Souza, de 65 anos, que há 30 anos mora no bairro Nova Rosa da Penha, em Cariacica, vizinho à Rodovia do Contorno. “A obra é muito lenta e, enquanto isso, a gente é obrigado a conviver com toda essa insegurança, já que quase não há sinalização”, diz. “Na hora de atravessar, se a gente da uma bobeira, já era”, confessa o aposentado que precisa passar pelo local todos os dias. Ele também reclama da sinalização. “Aqui já tem o problema de passar muito caminhão. Se não há sinalização, imagina o risco. E quem paga são os moradores”, conclui.

Entenda as mudanças

Início. A obra do Contorno começou em 2000. A entrega, prevista inicialmente para 2007, foi adiada para o final de 2009. A última previsão havia sido janeiro de 2010, mas até agora não foi finalizada

Licitação. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) abriu licitação das obras no dia 24 de agosto de 2007. Em dezembro, o Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a suspender a licitação, mas voltou atrás no dia seguinte

PAC.A obra que chegou a ser anunciada como prioridade, em 2007 passou a fazer parte do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC)

Atraso. Em julho de 2008, o DNIT ainda esperava o restante da verba da União para concluir a duplicação e a reforma dos 26 quilômetros

Repasse. O ritmo dos repasses foi lento. Em abril de 2009, a obra só havia recebido 22,6%, um total de R$ 16,4 milhões, dos recursos prometidos pela União

Projeto. Além de pista dupla em cada sentido, de Carapina, na Serra, até a fábrica da Coca-Cola, em Cariacica, estava previsto inicialmente a construção de sete passarelas para pedestres e 20 quilômetros de ciclovias, mas as ciclovias ficaram de lado e até hoje nenhuma passarela foi construída, o que foi motivo de vários protestos das comunidades do entorno
Sinalização.O Ministério Público Federal (MPF/ES) enviou ao DNIT uma recomendação para que a autarquia providenciasse a devida sinalização nos pontos problemáticos do Contorno, possível causa de acidentes

Primeiro trecho. Segundo a empresa responsável pela obra, Delta Construção, os dez primeiros quilômetros já foram duplicados, e serão entregues nos próximos 30 dias, após a conclusão da sinalização.

Fonte: A Gazeta Online




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