Venda de caminhões em alta gera apagão de pneus




Fabrício Pastre e semirreboques prontos no pátio da empresa, mas sem pneus: importação está muito cara

A Indústria Metalúrgica Pastre, de Quatro Barras (região metropolitana de Curitiba), tem em seu pátio cerca de cinquenta semirreboques, bitrens e outros implementos rodoviários que estariam prontos para rodar se não fosse por um detalhe: não há pneus para equipá-los. A situação é semelhante poucos quilômetros adiante, também às margens da BR-116, na fábrica da Boreal, especializada em baús frigorificados. Em Rio Branco do Sul, outro município da Grande Curitiba, cada implemento fabricado pela Metalesp tem esperado cerca de uma semana pela chegada dos pneus.

As três empresas dizem que o problema está no descasamento entre a oferta e a demanda. Segundo elas, as fabricantes de pneus para transporte de carga não estariam conseguindo acompanhar a forte recuperação das vendas de caminhões – que, consequentemente, impulsiona o mercado de implementos. De janeiro a julho, as montadoras brasileiras produziram 107 mil caminhões, quase 70% a mais que em igual período do ano passado. Nessa mesma comparação, as vendas de implementos subiram 52%, para 91 mil unidades.

A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) afirma que o fornecimento de pneus para montadoras cresceu 58% de janeiro a maio e que “não há nada que sinalize falta de pneus no setor como um todo”. No entanto, pelo menos desde o início do segundo trimestre se acumulam evidências de que há escassez, e que ela não se restringe às fábricas de implementos ou ao mercado de reposição: até as montadoras de caminhões, que têm prioridade na escala de entregas de pneus, enfrentam dificuldades. Os chamados caminhões “trucados”, por exemplo, frequentemente chegam às revendedoras sem pneus no terceiro eixo.

“O modelo pesado de três eixos têm vindo da fábrica com pneus apenas nos dois primeiros eixos. Os quatro pneus do terceiro, nós temos que buscar no mercado”, conta Mário Canaan, gerente de vendas da Servopa Caminhões e Ônibus, concessionária da Volkswagen. “A montadora nos reembolsa, mas perde-se um tempo nesse processo, para cotar os pneus, que têm de ser da mesma marca dos já instalados, e levar o caminhão até o fornecedor para fazer a instalação.”

O mesmo ocorre na Konrad Caminhões, onde os “trucks” da Ford chegam com sete ou nove pneus, em vez dos onze habituais (dez mais o estepe). “O fornecimento está melhorando aos poucos, mas a situação ainda não se normalizou”, conta o gerente comercial da Konrad, Clóvis Pires.

A fabricante de caminhões e ônibus Volvo, que tem fábrica na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), diz não estar sofrendo falta de pneus, mas admite “problemas eventuais, que não comprometem nem a produção nem a entrega de caminhões”.

Atendimento parcial

A situação é mais difícil para os fabricantes de implementos porque, além de estarem atrás das montadoras em termos de prioridade de entrega, geralmente precisam de mais pneus – um semirreboque costuma ter ao menos 16. Segundo Rafael Wolf Campos, diretor da Boreal e presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir), o déficit de pneus atinge 20% da produção do segmento. É esse o porcentual que fica nos pátios, impedido de rodar.

“Nós somos atendidos pelas fábricas, mas parcialmente ou com atrasos. Às vezes tenho um pedido de 300 pneus, mas chegam apenas 150. Cada semana é de um jeito, às vezes o corte do pedido é de 50%, às vezes menor”, conta João Manuel de Carvalho Cardoso, gerente de vendas da Metalesp. Ao recorrer aos revendedores, outro problema: alguns aproveitam para inflacionar os preços em até 30%, diz Cardoso. “E aí temos que renegociar valores com os clientes, porque o custo do implemento acaba ficando maior.”

Fonte: Gazeta do povo

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