Vida dura no Mato Grosso




L.C.M conduzia uma carga de 23 toneladas de estanho avaliada em mais de R$ 1 milhão; foi rendido e ficou 30h sem receber água e comida, debaixo do sol forte

A ação de quadrilhas de roubos de cargas cresce no país e tem nas rodovias de Mato Grosso um dos principais alvos. Os motoristas destes veículos, que hoje representam 70% da frota circulante no Estado, são os mais vulneráveis à ação dos criminosos. Eles são mantidos em cativeiros por até 30 horas, sem comer e beber, enquanto as cargas são roubadas. Temem que cada viagem pode significar a última, caso sejam o próximo alvo.

Em apenas 20 dias, foram 3 ocorrências, entre tentativas e roubos de cargas de estanho, avaliadas em mais de R$ 1 milhão cada, todas na baixada cuiabana. Somente este ano, entre janeiro e setembro, foram recuperados nas 5 rodovias federais que cortam o Estado 151 veículos com cargas roubadas, uma média de 16 ao mês.

De acordo com a Polícia, os crimes são ações de quadrilhas organizadas, que migraram gradativamente dos roubos de carretas levadas à Bolívia e do comércio de peças em desmanches para o roubo de cargas. Os grupos com núcleos em Mato Grosso atuam em pelo menos 3 estados.

É o caso de L.C.M, 30, que conduzia uma carga de 23 toneladas estanho avaliada em mais de R$ 1 milhão. Ele foi rendido na noite do dia 16, em um posto de combustível, por volta das 20h, quando se preparava para jantar. Só foi liberado do cativeiro 30 horas depois. Neste período, foi vigiado por criminosos armados e não recebeu nem água, nem comida. Foi obrigado a ficar debaixo do sol forte.

Em 10 anos como motorista foi a primeira vez que foi roubado e disse que ficou surpreso com a organização dos criminosos. Na abordagem, ainda no pátio do posto onde estava estacionada a carreta, o ladrão vestia bermuda e tinha nas mãos uma toalha, se passando facilmente por um caminhoneiro. Se aproximou de L. e mostrou o revólver enrolado na toalha. “Você perdeu. Entra no caminhão que é um assalto”.

Depois desta ordem e dentro do veículo, perguntou se o veículo era rastreado e chamou outros 2 homens pelo celular. O rastreador foi desligado e o motorista foi passado para o banco de trás, quando os criminosos assumiram a direção e deixaram o posto. L. foi deixado no meio do mato, em um local distante cerca de 3 km, de onde foi liberado depois.

O motorista soube pelos próprios criminosos que era seguido desde Porto Velho (RO), onde carregou o veículo. Os ladrões disseram para ele que o acompanharam em todo o trecho e enumeraram todas as paradas que fez, inclusive para refeição e abastecimento e até a velocidade que desenvolvia. A atitude deixou claro que o crime foi planejado e feito sob encomenda.

Depois de ser liberado do cativeiro, L. ainda ficou 5 dias “hospedado” na Delegacia Especializada em Roubos e Furtos de Veículos (Derfva) de Cuiabá, aguardando os trâmites burocráticos para a liberação do caminhão, que foi abandonado sem a carga e localizado no dia seguinte, ainda em Várzea Grande.

No mês de agosto o motorista D.T.L, 25, e outro colega em outra carreta foram rendidos na rodovia BR-364, no perímetro urbano de Jangada (80 km ao norte de Cuiabá), enquanto faziam um lanche, por volta das 8h30. Os 2 veículos da transportadora eram de secos e molhados que seriam levados de Cuiabá para supermercados em Lucas do Rio Verde (354 km ao norte de Cuiabá). Foram rendidos por 3 ladrões e ficaram em um cativeiro até às 22h30 do mesmo dia, em uma chácara localizada cerca de 5 minutos de onde foram rendidos.

O medo de ser executado era grande, pois por ser alto e forte, um dos marginais disse ao homem que ficou tomando conta dele e do colega que se “o grandão aprontar pode meter bala”. O criminoso que ficou vigiando a dupla de caminhoneiros no final do noite disse que tinha sido abandonado pelos cúmplices e chamou pelo celular um outro homem que veio buscá-lo. D. acredita que os ladrões acharam que a carga era de carne, já que os caminhões eram refrigerados. Mesmo assim, somente os veículos foram localizados.

Outros 2 motoristas foram rendidos no dia 7 de Setembro, quando transportavam 17 toneladas de estanho. Foram rendidos próximo ao Posto PRF-120, na rodovia BR-070, por 2 homens armados e obrigados a dirigirem o veículo até um posto de combustível em Várzea Grande. Lá foram obrigados a entrar em um veículo menor. Mas logo depois foram levados novamente até a carreta, para colocá-la em funcionamento, já que os criminosos não conseguiam dirigi-la. Em seguida foram levados a uma cascalheira, no bairro João Baracat, onde ficaram até às 10h20. Foram libertados quando o vigilante da quadrilha recebeu um telefonema dizendo que os homens que estavam com o caminhão foram presos.

A prisão de 2 suspeitos aconteceu em um posto de combustível, depois que testemunhas disseram que uma carreta parada no local estava com as portas abertas e 2 homens suspeitos mexiam na cabine. Policiais militares de Várzea Grande chegaram ao local e flagraram a dupla, fugindo em um táxi. Levados ao Centro Integrado de Segurança e Cidadania (Cisc), ambos foram liberados pelo delegado plantonista. A carga dos 2 caminhões foi recuperada.

Comando de fora

O delegado Silas Tadeu Caldeiras, titular da Derfva, acredita na existência de uma quadrilha com comando fora de Mato Grosso que arregimenta criminosos para os roubos no Estado. Aponta que o modo de agir, principalmente em relação às cargas de minério, é o mesmo. Silas lembra que dos 3 crimes recentes, uma carga foi recuperada em Várzea Grande, com a prisão de 2 receptadores. Outro roubo foi abortado pela ação da Polícia Militar e uma semana depois outra carga foi roubada. “Isto mostra que existe um receptador que fomenta os crimes. É nele que devemos focar as investigações para chegar à quadrilha”.

Entre os fatores que atraem a ação das quadrilhas para postos nas rodovias que cercam a baixada cuiabana, está a proximidade com chácaras abandonadas usadas como cativeiros e o grande número de postos de combustíveis e paradas de caminhoneiros. O grande número de estradas vicinais e rodovias para várias regiões, facilitando o deslocamento, é fator positivo, aponta o delegado. Segundo ele, a Especializada tem feito um monitoramento em vários trechos, principalmente nos cerca de 15 km da Rodovia Imigrantes, trecho que liga a BR-364 em Cuiabá até as BRs 070 e 163, nas saídas para Jangada e Cáceres.

A falta de policiamento nas rodovias, tanto federais como estaduais no Estado, é apontada pelos motoristas como um dos maiores problemas. LCM diz que viaja com carga do sudeste ao norte do país e que os colegas de profissão apontam a ausência de policiamento um dos principais motivos que tornam as estradas de Mato Grosso as mais procuradas pelos ladrões.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) possui um efetivo de 500 policiais rodoviários para atuar em 5 mil quilômetros de malha viária, distribuídos em 18 postos, em 5 rodovias. Já a recém-criada Polícia de Trânsito Urbano e Rodoviária da Polícia Militar, possui 40 homens para atuar em 20 mil quilômetros de estradas espalhadas pelos 141 municípios.

Para o tenente-coronel Wilson Batista, a previsão é de chegar a 500 policiais com o ingresso dos novos PMs aprovados em concurso, com meta de 5 mil homens até 2014. Por enquanto a atuação se restringe a postos fixos nas rodovias de acesso a Chapada dos Guimarães, Santo Antônio do Leverger e Acorizal. Algumas operações volantes são realizadas.

De acordo com o Núcleo de Operações Especiais da PRF (Nucom), a maior incidência de roubos de cargas se concentra entre Cuiabá e Rondonópolis (212 km ao sul da Capital), onde há o maior fluxo de caminhões que trafegam entre norte e sudeste pelas BRs 163, 364 e 070.

A organização dos criminosos dificulta a prisão, mesmo com a fiscalização, assegura o inspetor Reinam Araújo Ramos, chefe do Nucom. Lembra que, recentemente, um criminoso só foi descoberto porque durante a inspeção de rotina levantou suspeitas por não saber do que se tratava a carga transportada. Com isso foi detido no posto e descoberto o roubo. Lembra que uma medida de segurança adotada por algumas empresas é a identificação do motorista transportador com a nota fiscal da carga, que em caso de abordagem facilita o trabalho da PRF.

Fonte: Gazeta Digital

Inscreva-se




Um comentário em “Vida dura no Mato Grosso

  • 27/09/2010 em 10:16
    Permalink

    acabo de ler umlivro muito bomsobre o mesmo assunto,chamado carga pesada do jornalista ivan sant’anna,dá uma olhada lá,lendo esse post,me pareceu estar lendo o livro

    Resposta

Deixe sua opinião sobre o assunto!