Para empresários, é possível acelerar formação de profissionais




Sest/Senat possui 12 unidades no Estado e oferece mais de 200 cursos voltados para a área de transpo

Esta é a segunda e última matéria da reportagem especial sobre a escassez de motoristas. A primeira parte, publicada na quinta-feira passada, mostrou as dificuldades vivenciadas pelos motoristas, segundo os representantes das entidades de transportes e empresários do setor. A matéria desta quinta-feira apresenta as alternativas indicadas para solucionar o déficit de mão de obra qualificada para trabalhar atrás do volante nas estradas. Também traz o relato de três motoristas que explicam por que são apaixonados pela profissão e os problemas que, segundo eles, precisariam de solução mais urgente.

A boa notícia para os transportadores rodoviários de carga é que o problema de falta de motoristas tem solução. Mas, as alternativas, segundo os próprios empresários do setor, passam por atitudes que vão da mudança na filosofia dos empresários ao maior investimento do governo na educação. Para o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs), José Carlos Silvano, para impedir que a escassez de mão obra se transforme em mais um gargalo, é preciso investimento na abertura de escolas de formação de motoristas, que devem ter apoio público e privado. A qualificação deve contemplar um ensino diferenciado que inclua aulas de geografia, de mecânica, de leitura de mapas. “Mas, as aulas devem abordar fundamentalmente prática em direção”, destaca Silvano.

O diretor-presidente da Krüger Conventos, Elso Krüger, que no passado formou mais de 1,4 mil motoristas na Universidade Corporativa da empresa e teve que encerrar as atividades pelos custos inviáveis, hoje acredita que a saída é a criação de escolas através do Sistema Sest/Senat em parceira com o sindicato dos transportadores. Ele sugere que as instalações do Sambódromo, localizadas no Complexo do Porto Seco, poderiam ser usadas fora do período do carnaval como salas de aula. Para o gerente de frota da Eichenberg &Transeich, Jaílson Rosa, a preparação para o trânsito deveria começar na escola, através de um currículo que contenha disciplinas que ensinem ao cidadão as regras básicas de boa conduta na estrada e ao volante.

O investimento na educação também é indicado pelo coordenador técnico da NTC&Logística, Neuto Gonçalves dos Reis, que defende a realização de treinamento por “atacado” neste momento e com uso de simuladores, que reproduzam a realidade virtualmente, recurso que já é utilizado na formação de pilotos de avião e de maquinistas de locomotivas para otimizar e baratear os treinamentos. “A condução de carretas e bitrens, muitas vezes com produtos químicos, requer um treinamento maior e mais específico dos motoristas. Pois, imaginem entregar para uma pessoa despreparada um caminhão com 30 metros de comprimento e carregado com 74 toneladas?”, justifica.

O Setcergs também está tentando viabilizar um convênio para a formação de mão de obra especializada em parceria com o Exército brasileiro através do projeto Soldado Cidadão. O objetivo deste programa é preparar o militar profissionalmente para a inserção no mercado no final do serviço militar obrigatório. “Estamos em tratativas com o Exército para a formação de motoristas, especialmente de transportes pesados, de pranchas e blindados. Dentro do Exército é mais fácil e mais seguro, pois como os militares possuem locais para manobras, não precisariam sair para a rua”, destaca Silvano.

Sest/Senat oferece 200 cursos, mas falta um específico para condutores

O Sest/Senat (Serviço Social do Transporte/Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) mantém 12 unidades localizadas nas cidades-polo do Estado e oferece mais de 200 cursos na área dos transportes. Entre eles o de especialização de carreteiro, que conta com uma carreta-escola utilizada para a reciclagem de mão de obra em todo Estado; o de direção defensiva e econômica, e o de Movimentação de Produtos Perigosos. Mas, falta viabilizar um curso de capacitação de motoristas.

O projeto até já está configurado, afirma o diretor da unidade do Sest/Senat de Porto Alegre, Carlos Becker Berwanger. “Há dois anos a entidade vem formatando e desenvolvendo o programa para a criação de um curso técnico de formação de condutores com duração de um ano e meio, totalizando 1,2 mil horas-aulas, 50% teóricas e 50% práticas”, explica. No entanto, a ideia ainda não foi concretizada por falta de definição de quem vai mantê-la economicamente. Como o Senat não é uma escola, mas sim de uma instituição do sistema “S”, ela não teria como receber verbas públicas através do Ministério da Educação.

O custeio pode ser feito, segundo Berwanger, pelas entidades de classe, empresas de transporte, companhias de seguro, empresas de reastreamento, fabricantes de pneus. “Se cada montadora doar um caminhão para a formação prática dos motoristas, todos saem ganhando: o aluno que contará com um recurso fundamental para as aulas práticas e a montadora que divulga e consolida sua marca”, destaca.

O presidente do Setcergs, José Carlos Silvano, defende o apoio público. “A formação de mão de obra é uma questão social e, por isso, deve contar com apoio público. Falta acessarmos os canais certos como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) ou a FGTAS, pois com o investimento em cursos de formação além de garantirmos profissionais mais qualificados, também estaremos contribuindo para a redução do desemprego e do número de acidentes nas estradas”, afirma.

Se a nova realidade for configurada, com oferta de cursos de formação, afirma Berwanger, as entidades terão um papel fundamental na conscientização dos empresários a respeito da importância da capacitação dos seus funcionários e colaboradores. Assim, como na intensificação de campanhas publicitárias que mostrem o lado positivo da profissão de motorista.

Empresas e entidades buscam parcerias para projetos de ensino

As organizações também têm de assumir o papel de treinar mais, capacitar, valorizar e abrir oportunidade para motoristas. “Mas a atitude tem que ser de forma global, não isolada. Tem transportadora que até a cabine leito do caminhão está excluindo para colocar mais carga. O motorista é o ponto-chave dentro do transporte”, garante o gerente de frota da Eichenberg&Transeich, Jaílson Rosa.

Consciente da responsabilidade dos empresários na formação de mão de obra, o diretor-presidente da Transportadora Scapini, Valmor Scapini, está tentando viabilizar uma parceria entre a Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), da qual é presidente, a montadora Volvo e a Unidade Integrada Vale do Taquari de Ensino Superior (Univates) para o desenvolvimento de um projeto de formação de motoristas e mecânicos da área automotiva. “Para a iniciativa dar certo, os empresários devem se conscientizar de que não adianta só reclamar, é preciso agir”, enfatiza Scapini.

A Associação Brasileira de Transportadores Internacionais (ABTI) também está em tratativas com a Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte (Fabet), localizada em Concórdia (SC). “Queremos replicar o modelo de ensino de Uruguaiana nas associadas da ABTI”, afirma o vice-presidente da associação, Francisco Cardoso. Ele também defende a melhoria das estradas e a intensificação do trabalho de inteligência contra o roubo de cargas, principalmente contra os receptadores. “Reduzidos estes problemas, a atividade de motorista deixará de ser tão fatigante e amedrontante. Consequentemente atrairá mais profissionais”, afirma Cardoso.

Tão importante quanto estas questões é a aprovação de um estatuto dos motoristas para regular o mercado, segundo o coordenador técnico da NTC&Logística, Neuto Gonçalves dos Reis. “Hoje estamos debatendo o Projeto de Lei 271/08, do senador Paulo Paim, que seria bom não só para o empregado, mas para o autônomo, que está fora de controle. O regramento vai gerar encarecimento do transporte. Mas, com o tempo, vai contribuir para a redução das distorções e dos exageros que são praticados por alguns e que prejudicam o todo”, garante Reis.

Planalto e Minuano investem na qualificação de funcionários

Krás Borges e Rodrigues se preocupam com a questão financeira

Apesar do ônus financeiro, para não ficar sem mão de obra e garantir a qualificação dos seus profissionais, empresas como a Planalto e a Expresso Minuano, oferecem aos motoristas a capacitação na própria empresa. O diretor do Grupo JMT, que controla a Planalto Transportes, a Planalto Encomendas, a Planalto Turismo, a NHT Linhas Aéreas e a Veísa Veículos, Reinaldo Herrmann, conta que na empresa o profissional permanece de 20 a 40 dias em aulas práticas e teóricas para, só depois, começar a dirigir.

O início é na atividade de manobrador ou na coleta e entrega. À medida que adquire experiência e se qualifica, o motorista pode passar a conduzir carretas e até ônibus de turismo. Em média, a empresa forma 50 motoristas por ano. Para não perder os funcionários para outros grupos, uma das grandes preocupações das empresas que capacitam, a Planalto oferece uma série de outros benefícios. “Além do plano de carreira, fornecemos aos motoristas assistência médica, cesta básica e uma remuneração acima da média do mercado”, destaca Herrmann.

A Expresso Minuano também oferece treinamento para seus motoristas numa sistemática semelhante à da Planalto. O motorista geralmente começa a trabalhar com a coleta e entrega e depois passa a conduzir caminhões maiores dentro da cidade. Somente depois dessa preparação, é que o profissional passa a dirigir carretas, mas as primeiras viagens são feitas com acompanhamento de um motorista mais experiente, que atua como instrutor. O supervisor de RH e Coordenador de Qualidade da Minuano de Porto Alegre, Isaias Goethel Rodrigues, explica que antes de direcionar e investir na qualificação do motorista, a empresa avalia se o profissional tem o perfil para trabalhar na estrada.

Rodrigues é bastante exigente com a capacidade prática e com a saúde dos motoristas. Além disso, na empresa cada profissional utiliza exclusivamente um veículo, estratégia que também contribui para a fidelização dos motoristas. “O condutor gosta de usar sempre o mesmo caminhão, arrumar do seu jeito, com sua cara”, destaca Rodrigues.

Mas, o que pesa na busca de profissionais, na opinião do trainee Adrian Krás Borges, é a questão financeira. Por isso, explica, a empresa realiza anualmente pesquisas para saber o valor dos salários oferecido no mercado para se adequar e se diferenciar. “Também sempre procuramos oferecer um atrativo a mais como cursos e premiações para quem atingir as metas de média de consumo de diesel por quilometragem rodada, que podem chegar a valores entre R$ 400,00 a R$ 500,00 por mês”, conta Borges.

Paixão pela estrada identifica caminhoneiros

Maria Lídia leva feminilidade para rodovias e trata o veículo como se fosse sua casa

Maria Lídia Daves da Silva é a prova de que a função de motorista não é exclusividade masculina. Apaixonada pela profissão, Maria Lídia começou a carreira em 1987, numa época em que praticamente não existiam mulheres motoristas – situação que não é tão diferente ainda hoje. O sonho de dirigir caminhões surgiu quando era menina. Ela conta que o pai criava gado e sempre que tinha que fazer compras ou entregas ela o acompanhava. No trajeto, feito de carroça, passava próximo da rodovia e ao ver os caminhões um pensamento vinha ao seu imaginário: “um dia vou dirigir um destes”.

Não demorou muito e o sonho se tornou realidade. Maria Lídia casou-se com caminhoneiro, aprendeu a dirigir e aos 20 anos já estava no volante. Hoje dirige uma carreta Scania 380 com 17 metros e viaja pelo menos cinco vezes por mês para São Paulo e Rio de Janeiro. Ela revela que já tentou mudar de profissão, mas sentiu tanta saudade, que desistiu da ideia. “Na estrada eu me sinto livre. E na minha empresa sou muito bem tratada. Meus colegas me respeitam, o ambiente é gostoso”, afirma. Mas, nas estradas, sente muito preconceito dos motoristas. “Há homens que não aceitam ver uma mulher no volante. Acham que o nosso papel é o de dona de casa”, conta.

Mesmo com o trabalho pesado, ela faz questão de dizer que é bem feminina, gosta muito de se cuidar e de cuidar do seu caminhão. “Sou muito vaidosa com ele também. Eu o trato como se fosse a minha casa, meu companheiro, as vezes até converso com ele, faço questão de mantê-lo limpo, bonito e bem cuidado”, revela aos risos. Quanto aos perigos da profissão, Maria Lídia afirma que não sente medo, pois acredita muito em Deus. E conta que segue uma conduta defensiva e cautelosa para evitar problemas e acidentes.

Lima reclama de colegas que utilizam estimulantes durante a noite

O jovem talento, como é chamado na Eichenberg&Trenseich, Américo Splitt de Lima, hoje com 28 anos, é apaixonado por caminhão desde criança. O amor pela profissão começou quando ainda menino acompanhava o pai, ex-motorista de carreta e que atualmente trabalha como instrutor também na Eichenberg, em suas viagens.

O garoto, que iniciou sua carreira como motorista de veículos de pequeno porte, agora já dirige carretas em viagens nacionais e internacionais. A idade não foi empecilho para que a empresa desse a ele uma oportunidade. Lima conta que considera as viagens de caminhão uma aventura e um desafio. O recado para quem deseja seguir a profissão é o mesmo que dá para seu irmão de 19 anos: que não tenha medo e que siga a profissão, que é muito gratificante.

Em relação às estradas, Lima reclama que muitos motoristas que rodam à noite usam estimulantes e acabam dirigindo perigosamente, o que coloca todos em risco. “Acho que deveria haver mais fiscalização e mais instrução por parte das empresas para que os motoristas não se comportem desta forma, sejam mais responsáveis.” Lima também critica o estado das estradas brasileiras que, em grande parte, está em péssimas condições.

Abreu julga importante o respeito no trânsito e pede mais educação às pessoas

O motorista Dílcio Costa de Abreu começou a se familiarizar com os caminhões quando, ainda menor de idade, arranjou um emprego de ajudante de carregamento de caminhões de leite. Ao completar 18 anos, se tornou motorista dos caminhões. Ao trocar de empresa passou a trabalhar como motorista de empilhadeira e, com o tempo, aprendeu a dirigir todos os tipos de caminhões.

Em 1992, ingressou na empresa Planalto, onde está há 18 anos e atua na coleta e entrega com caminhões de porte médio e grande. Abreu conta que adora a profissão pelo fato de estar sempre na estrada e em função de lidar com o público. Aos 53 anos de idade, o motorista afirma que o tratamento e a valorização que a Planalto dá aos funcionários também são motivos que o fazem apreciar ainda mais a profissão. “Gosto muito da empresa onde trabalho, senão não estaria aqui há 18 anos. Todos os anos nós temos cursos de direção defensiva e outros conteúdos que nos ajudam no trânsito. Pois a maioria dos incidentes acontece por imprudência”, justifica Abreu.

Para a profissão melhorar ainda mais, em sua opinião, seria importante que os condutores tivessem mais respeito uns pelos outros ao andar no trânsito. “Gostaria que as pessoas fossem mais educadas”, afirma Abreu.

Fonte: Jornal do Comércio

Inscreva-se




Um comentário em “Para empresários, é possível acelerar formação de profissionais

  • 31/10/2011 em 11:03
    Permalink

    já a muito tempo sou habilitado com a“ E“mais não consigo emprego na aria,fico triste em saber que o transporte do brasil esteja a assim, espero que o governo federal junto com os empresario, tomem uma medida rapida,porque sem carreteiro e caminhoneiro o brasil fica para traz, perdendo até para parguai.

    Resposta

Deixe sua opinião sobre o assunto!