Além dos danos materiais




Os danos materiais e pessoais causados pelos acidentes que acontecem nas estradas brasileiras são difíceis de avaliar, sobretudo pelo grande número de fatores envolvidos que vão muito além das perdas sofridas pelos proprietários dos veículos, da carga ou, eventualmente, de vidas humanas. Esses custos começam a ser contabilizados a partir do momento em que policiais e ambulâncias são chamados para atender ao sinistro, remoção dos veículos, transbordo de carga e – claro – o prejuízo material com o bruto e da falta que ele fará no faturamento da empresa. Não é de se estranhar, portanto, que pequenos transportadores “quebrem” depois de um acidente grave, já que as perdas são superiores às que teriam sofrido com o roubo de carga ou do próprio caminhão.

O vice-presidente da Fetransul (Federação das Empresas de Logística e Transporte de Carga no Estado do Rio Grande so Sul) e presidente do Cetal (Sindicato das Empresas de Transporte e Logística), Elísio Roberto Schmitz Júnior, 30 anos e 15 no setor, acredita que o transportador não tem como se prevenir de acidentes, restando apenas aumentar o controle e o treinamento dos motoristas que contrata, além de rezar para que nada aconteça nas estradas, pois dependendo do acidente e dos danos é muito difícil superar o impacto do prejuízo sofrido. Lembra que se um caminhão no valor de R$ 400 mil for roubado, esse será o prejuízo. Todavia, se houver um segundo caminhão envolvido, já serão R$ 800 mil. E, se houver vítimas fatais as perdas serão imensuráveis, afirma.

Segundo Schmitz Júnior, a maior parte da frota brasileira de caminhões trafega sem seguro em razão dos altos custos, cobertos apenas pelo seguro obrigatório, o DPVAT. Lembra que apenas a carga é segurada, mas no transporte internacional, carga e caminhão precisam estar segurados por exigência legal. O seguro para o motorista não é obrigatório. “Estão menos preocupados com os danos pessoais”, salienta. Por isso, defende a criação de um seguro único, válido para todos os países do Mercosul, com cobertura para o veículo, motorista e terceiros, em substituição do DPVAT. Lembra que os veículos estrangeiros que entram no Brasil estão cobertos por seguro, já os brasileiros precisam fazer um seguro especial para o período em que estiverem em território estrangeiro, a conhecida “Carta Verde”, isso porque as nossas apólices não cobrem sinistros fora do País. Essa é uma despesa a mais para o transportador, que poderia ser evitada – salienta – além de dar mais segurança ao próprio motorista em caso de acidente.

O certo é que muita gente continua tendo sérios prejuízos decorrentes de acidentes de trânsito. Em Uruguaiana/RS, o dono de uma pequena empresa de transportes com atuação no mercado internacional está encerrando as atividades. No pátio, alguns poucos caminhões totalmente sucateados. Ele teria sofrido uma série de “revezes” nos últimos tempos, inclusive com a morte trágica de um filho. Mas, não quer falar sobre o assunto. Salienta que isso, no momento, até seria prejudicial. “Afinal, de que adianta contar que um motorista bêbado que capotou um caminhão no Chile, ou falar outras verdades?”, pergunta. Afirma que vai vender o que sobrou da empresa e dividir o dinheiro com os filhos e se aposentar.

Enquanto isso, o autônomo Domingos Cendra Noronha, natural de São Jerônimo/RS, 51 anos, 25 na área de transportes e há nove anos dirigindo caminhão, aguarda que uma seguradora argentina pague a indenização pelos estragos no seu Mercedes 86, trucado, causados por um grave acidente na Argentina em que uma pessoa morreu e outra ficou gravemente ferida. Depois de quatro meses sem trabalhar, enquanto procurava deixar o caminhão em condições, ele ficou endividado. Com a ajuda de amigos e da direção do Sindicato dos Transportadores Autônomos, de Uruguaiana/RS, conseguiu “fazer uma meia-sola” no caminhão e voltar à ativa. E o seguro, apesar do envio de toda a documentação solicitada, e dos orçamentos, até agora não foi pago. Seria preciso a ajuda de um advogado, mas Domingos confessa que não tem como pagar.

Ele conta que na madrugada do dia 21 de fevereiro, ao regressar de uma viagem ao Chile, quando estava nas proximidades de São Jaime/AR, e a 160 quilômetros da fronteira com o Brasil, foi atingido na lateral dianteira por uma caminhonete Ranger. Em razão da alta velocidade, o veículo passou rasgando pela carroçaria do caminhão. O motorista da caminhonete morreu na hora e o passageiro ficou gravemente ferido. Noronha fraturou dois dedos da mão direita e trincou o osso do pulso esquerdo com o impacto. Mas na hora não percebeu. Lembra que estava trafegando a uns 90 km/h enquanto o outro veículo estaria a uns 150 km/h pela violência da batida e pelo estrago causado. Hoje, ainda sem esquecer o terror de ver o corpo do condutor estraçalhado após o acidente, e o do passageiro ferido, enquanto aguardava por socorro, Domingos agora luta pela sua sobrevivência através do trabalho. Acredita que ainda vai demorar um pouco para se equilibrar, mas vai pagando as contas aos poucos. Lamenta, também, que precise pagar quase R$ 500,00 reais por mês para a cooperativa à qual pertence, para ter o direito de carregar. Um dinheiro que faz falta e que – segundo ele – poderia ser utilizado em coisas mais imediatas, caso a cooperativa tivesse concordado em protelar essas mensalidades, com a possibilidade de pagar mais adiante, quando ele estivesse financeiramente melhor.

A família do carreteiro Gilberto Teixeira Medeiros, de 43 anos, natural de Uruguaiana/RS e falecido no dia 20 de julho de 2010, oito dias depois de ter caído numa ponte com o Cargo que dirigia, na localidade de Zarate, província de Buenos Aires, Argentina, ainda aguarda o pagamento do seguro. Ele trabalhava para a Transrebeca e voltava para o Brasil pela manhã, depois de ter pernoitado no alojamento da empresa, quando aconteceu.

Foi um acidente inexplicável, segundo conta o irmão dele, o comerciante Vilmar Teixeira Medeiros. Sua esposa, Vânia Terezinha Medeiros, viajou com outros familiares para Zarate, e acompanharam parte do período em que Gilberto esteve hospitalizado. Lembra que as instalações do hospital eram muito precárias e com visível falta de higiene. E, embora Gilberto tenha recebido toda a assistência por parte da empresa, houve problemas com o seguro pessoal, fato que teria dificultado sua transferência para outro hospital, e talvez de ter recebido atendimento médico melhor.

Vilmar e Vânia contam que tiveram uma ajuda do Sindimercosul referente aos documentos necessários para a liberação do corpo. As despesas do traslado ficaram por conta da seguradora. A viúva de Gilberto Medeiros, Izolete Palma Medeiros, já está recebendo a pensão da Previdência, quase a metade do valor da renda do marido, que além do salário também ganhava comissão sobre a carga transportada. Ou seja, além da morte do esposo também teve uma brusca redução no orçamento da familia, compensada, todavia, com o próprio trabalho. Ainda aguarda o pagamento do seguro, estimado em R$ 60 mil, a ser dividido com os dois filhos, um adulto e outro de 16 anos de idade. Sobre os prejuízos sofridos pela empresa Transrebeca com o acidente, Vilmar e Vânia nada sabem, mas lembram que como os caminhões que trafegam no transporte internacional precisam estar segurados, as perdas devem ter sido mínimas.

Em outro caso de acidente, causado pela imperícia do motorista que dirigia uma carreta na BR-116, em frente ao Posto Represa, em Curitiba/PR, os irmãos Sérgio e Pablo Assis Becker Zinelli – donos do caminhão – estão amargando um prejuízo que pode chegar aos R$ 40 mil. Sérgio, de 23 anos, conta que na noite do dia 11 de outubro o seu motorista seguia de São Paulo e, como chovia muito, decidiu parar num posto de combustível para pernoitar. Ao fazer o retorno de forma indevida, acabou se envolvendo numa colisão com outros dois caminhões. Ninguém ficou ferido. O motorista, que os irmãos preferem não citar o nome, abandonou o caminhão e voltou para casa, sem dar maiores explicações. Eles conseguiram se acertar financeiramente com os donos dos outros veículos e financiaram o conserto de seu caminhão. “Mesmo assim, o prejuízo foi grande. E tudo pela falta de bons profissionais, um problema que se acentua”, lamenta Sérgio.

Para o carreteiro Antônio da Silva Andrade, o Meloso, hoje com 67 anos e mais de 30 de profissão – natural de São Borja/RS – as consequências do acidente que sofreu em abril de 2004, próximo ao posto fiscal na divisa do Paraná e São Paulo, não abalaram muito. Isso apesar da fratura no ombro direito que lhe deu direito à aposentadoria por incapacidade física para continuar dirigindo caminhão. Ele conta que era noite e chovia muito. Ao frear a carreta baú que dirigia “deu o L” e foi de encontro ao barranco, destruindo a cabine do cavalo-mecânico. Enquanto era socorrido, outro caminhão que passava pelo local também “fechou um L” e acabou capotando. Tudo nas mesmas circunstâncias lembra. Separado, vivendo sozinho e com uma aposentadoria de aproximadamente R$ 2 mil, ele está feliz. Só tem a obrigação de ajudar a pagar a faculdade de uma filha e economiza para a compra de um carro. Mas, para isso, precisa recuperar a CNH, cassada pela Previdência no momento da aposentadoria por invalidez. Lamenta os prejuízos sofridos pelos donos da empresa para a qual trabalhava e com os quais têm amizade até hoje. Foi um acidente, ninguém teve culpa, recorda. E garante que para ele, graças a Deus, a vida continua linda.

Fonte: Revista O Carreteiro




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