O martírio dos caminhoneiros




A revista Caminhoneiro entrou em contato com algumas unidades do Serviço Social de Transporte/Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat) espalhadas pelo País que possuem equipes que trabalham dando assistência direta aos caminhoneiros.

Segundo José Valdecir Capille, gerente Sest/Senat Guarulhos – Posto Sakamoto II, SP, “nessa unidade atendemos profissionais de todos os tipos de vínculo com o transporte, tanto autônomos, agregados como funcionários registrados. Os problemas mais comuns são os relacionados à pressão arterial alta, colesterol, estresse e coluna”, diz.

Para José Capille, ultimamente e graças às diversas campanhas que realizamos, notamos que os profissionais do volante estão mais preocupados com a sua saúde. Estão mais conscientes, fazem exames regulares nas unidades do Sest/Senat, bem como com seus médicos particulares.

A maioria dos caminhoneiros utiliza algum tipo de medicamento, variando desde simples analgésicos a remédios controlados, devidamente orientados por seus médicos.

Já o Centro Assistencial e Profissional Integrado do Trabalhador em Transporte (Capit), de Foz do Iguaçu, iniciou suas atividades no dia 4 de abril de 2010. Dentre os serviços prestados pelo Sest/Senat Foz do Iguaçu/PR, encontra-se o de fisioterapia. “É um projeto piloto que inclusive iniciou-se apenas em algumas unidades”, diz o Dr. Fisioterapeuta Giovanni Martello.

Ele explica que o atendimento na área de fisioterapia iniciou-se tímido, porém à medida que os trabalhadores foram conhecendo o serviço, o fluxo aumentou deliberadamente ao ponto de completar a agenda de dois meses adiantados.

A média de atendimento é de sete pacientes/dia, sendo que o horário de atendimento é das 08:00 às 12:00. Já foram atendidos, em alguns dias, 10 pacientes neste mesmo horário. Os perfis dos pacientes são tanto autônomos (caminhoneiros, escolares, taxistas), quanto agregados e contratados.

Os problemas que apresentam são basicamente músculos-esqueléticos, sendo a principal patologia a Lombalgia Postural (que é um problema de dores na região lombar ou toraco-lombar associado a grandes encurtamentos musculares, principalmente por permanecerem muito tempo sentados e serem sedentários).

“Um grande problema que enfrentamos é a falta de conscientização em relação à saúde. Todos os pacientes não tinham qualquer tipo de informação sobre posicionamento, postura adequada no trabalho, em casa e, principalmente, sobre atividades físicas”, fala Martello.

Dos trabalhadores do transporte atendidos, nenhum deles fazia uso de medicamentos específicos para o problema atual, porém 30% fazem uso de algum outro tipo de medicamento.

Segundo o fisioterapeuta, para que haja uma melhora na saúde física dos caminhoneiros, é necessária primeiramente uma conscientização da importância da manutenção da postura ideal para a sua respectiva função. É preciso, também, estimulá-los para que realizem alongamentos diários específicos para os grupos musculares mais solicitados durante o trabalho. Por último, não menos importante, a realização de uma atividade física que possa fazer com certa frequência.

Outra unidade do Sest/Senat muita ativa nos atendimentos desses profissionais é a de Curitiba/PR. Ela atende entre 150 e 200 caminhoneiros/mês. Desse total, 70% motoristas autônomos e 30% funcionários de empresas. Dr. Walcimir Rolandi Vieira, médico do trabalho e clínico Geral da Unidade de Curitiba, explica que os problemas de saúde que eles mais apresentam são hiperlipidemia (consiste em concentrações elevadas de gorduras no sangue), obesidade e lombalgias.

De acordo com o Dr. Vieira, os caminhoneiros estão mais preocupados com o seu estado físico. Esse é o resultado de campanhas, mutirões, blitz da saúde, comandos médicos e palestras.

Rever Conceitos

Segundo Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina Ocupacional da Abramet, (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) apesar de o caminhoneiro brasileiro estar mais consciente em relação aos cuidados com a sua saúde, o homem é avesso a restrição aos seus hábitos, controle médico, dietas, exames preventivos e tudo que se possa planejar em termos de prevenção no sentido de mantê-lo saudável e em consequência com boa qualidade de vida. Mas com todas as dificuldades para mudanças de comportamento temos a obrigação de conscientizá-lo da real necessidade, principalmente quando o vemos submetido a fatores de risco que não temos dúvida que o levarão às doenças. “E observem doenças crônicas, evolutivas e incapacitantes. A coisa é grave, precisamos de cuidados, deixar de olhar para isso é permitir o surgimento de problemas”, alerta Dr. Rodrigues.

Dentro de uma cabine, onde trabalha se alimenta e dorme, sem as condições de higiene necessárias em relação ao sono, a confecção do seu alimento, na eliminação dos despojos, na higiene corporal, sem o lazer, isolado e confinado em ambiente tão restrito e hostil para tal, e mais submetido às doenças endêmicas e tropicais por onde circula.

“As doenças primárias ou pré-existentes como hipertensão arterial, diabetes, distúrbios de colesterol, triglicérides, doenças respiratórias e cardiocirculatórias e muitas outras estão presentes no universo dos nossos motoristas”, diz Rodrigues. O acesso ao controle ambulatorial torna-se difícil em função de estar sempre em trânsito e não ter com isso disponibilidade para um agendamento, um controle ambulatorial.

As atitudes incorretas que comprometem a saúde como uso de álcool, tabaco, alimentação inadequada, privação do sono, rebite, excesso de horas trabalhadas e outros, são fatores importantes que comprometem e levam ao desequilíbrio orgânico e, conseqüentemente, às doenças.

Não bastasse tudo isso, outros componentes ocupacionais participam do dia a dia desse trabalhador concorrendo para as doenças ocupacionais como as perdas auditivas, zumbido nos ouvidos, dores musculares difusas e localizadas, degeneração da coluna vertebral, varizes de membros inferiores, tendinites, artrites, doenças respiratórias e outras.

Para o Dr. Dirceu parte desses problemas vem pela falta de liberdade diante das opressões, bem como essas características de condições subumanas de vida e de trabalho, ainda de absoluto desrespeito à dignidade de uma pessoa, pela imposição de chefias, gerências, tanto do remetente como do destinatário. “É pressão de todos os lados, é o martírio do nosso motorista rodoviário, caminhoneiro”, lamenta.

É a saúde física, mental e social comprometida. Lembramos que saúde é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o bem-estar físico, mental e social o que não vemos nessa atividade.

De acordo com o Dr. Dirceu Rodrigues os nossos caminhoneiros não gozam de plena saúde e não sabemos como resistem a tanto sacrifício. Múltiplos fatores de risco caracterizados principalmente pelo ruído, vibração, variações térmicas, gases, vapores, fuligem, trabalho repetitivo, exposição a microorganismos, produtos químicos, acidentes, estresse psicológico e social, tudo formando uma malha fina envolvendo o homem. “Necessitamos de critérios ou protocolos para ultrapassarmos essa malha fina, buscando permanentemente a melhor qualidade de vida no trabalho. A saúde é o elemento essencial na direção veicular”, diz o doutor.

Fonte: Revista Caminhoneiro

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