Os brutos também voam




Já se imaginou acelerando um superesportivo na reta de Interlagos a mais de 240 km/h? Fantástico, não? Agora pense que, ao invés de um carro projetado para cortar o vento com aerodinâmica privilegiada e atingir grandes velocidades, você está na boleia de um Fórmula Truck de 1.350 cv, torque de 571 mkgf e mais de 4,7 toneladas, e tendo que frear para mergulhar no ‘S” do Senna. Assustador? Com certeza!

Os brutos de competição são completamente diferentes dos projetados pelas montadoras para carregar toneladas de mercadorias. “É difícil definir uma porcentagem de semelhança. Todo o caminhão recebe peças especiais para transformar força em desempenho. O que posso dizer é que a aparência é o que há de mais parecido”, explica Márcio Moreno, engenheiro e chefe de equipe da Scania Corinthians Motosport, campeã da temporada 2010 da Truck com o piloto Roberval Andrade.

A transformação começa desmontando totalmente o Scania modelo G470, preservando apenas o chassi. Diminui-se a distância entre os eixos de 4,2 metros para 3,4 metros e do comprimento total do cavalo de 6,5 metros para 5,4 metros. O eixo dianteiro é substituído por um de ônibus (mais baixo) e o motor deslocado. “Todas as alterações respeitam o regulamento técnico da categoria e buscam baixar o máximo possível o centro de gravidade do caminhão, tornando-o o mais rápido possível”, explica Moreno.

Apesar da estrutura em aço da boleia ser a mesma dos dinossauros de rua, o interior é totalmente refeito. Sai o luxo, entra a segurança. Todos os revestimentos são retirados. Isolamento acústico e painel de instrumentos vão para o lixo! O santantônio (estrutura de aço que impede a deformação da cabine em caso de capotagem) garante a integridade do piloto, assim como o banco tipo concha e o cinto de segurança de cinco pontos. O painel ganha apenas conta-giros e relógios de temperatura de água, óleo e pressão do turbo. Até o velocímetro vai embora.

O bloco original 11.7 de 420 cv ganha vitalidade com a substituição de peças, como virabrequim, bielas, válvulas e pistões. O cabeçote recebe tratamento especial. Já a injeção de combustível é original de fábrica. A entrada de ar do turbo passa da lateral para uma posição central. “Com essas alterações, conseguimos a elevação da cilindrada para 12.7, da potência máxima para 1.350 cv e das rotações, que passam de 2.100 rpm para 3.700 rpm”, detalha o especialista. “Um Truck pode ultrapassar a barreira dos 240 km/h”, completa.

Com todas essas modificações, o Truck fica mais magro. Passa de aproximadamente sete toneladas para somente 4,7 toneladas. “Enquanto desmontamos e montamos, o caminhão está sobre uma balança para não infringirmos o regulamento”, lembra Moreno.

E para que todo esse vigor descomunal consiga diminuir a velocidade e fazer as curvas, o freio é fundamental. O sistema de tambor e pastilha dá lugar a disco nas quatro rodas, oferecendo maior capacidade de frenagem e refrigeração. “Os caminhões da Fórmula Truck, que têm apenas 56% do peso de um cavalo mecânico, mas que andam numa velocidade 162% mais alta, têm um esforço nos freios 3,8 vezes maior que um caminhão comercial”, explica Igor Barcello Sipos, coordenador de desenvolvimento da engenharia de motorsport da Frum, indústria que cuida dos freios do Scania do campeão Roberval Andrade.

Responsáveis por fazer o bruto parar, já que são os únicos em contato com o asfalto, os pneus são Bridgestone R227 iguais aos de rua. No entanto, são lixados para adquirirem características próximas aos dos slicks utilizados pelos carros de corrida.

O talento de Roberval Andrade e as inúmeras modificações mecânicas fizeram a escuderia Scania Corinthians Motorsport levantar o caneco da Fórmula Truck 2010.

‘Não troco um Fórmula Truck”

Ninguém melhor que Roberval Andrade, campeão da Fórmula Truck 2010, para descrever a sensação de acelerar o bruto de ignorantes 571 mkgf de torque e 1.350 cv de potência.
“A sensação é muito boa. Não troco o Truck por carro nenhum, com exceção, claro, de um Fórmula 1″, afirma o piloto número 100 da escuderia Scania Corinthians Motorsport.

E pelo que diz, o caminhão tem um ‘que” de extraterrestre. “Nas acelerações, o caminhão te joga contra o banco tamanha é sua força”, diz Roberval. “O caminhão passa dos 230 km/h. Em Interlagos, por exemplo, atingimos os 249 km/h na reta oposta”, revela orgulhoso o campeão com mais de dez anos de automobilismo.

Nas curvas, Roberval revela a boa aderência do bólido. Porém, é nas frenagens que o caminhão de corridas parece maravilhá-lo. “No final da reta dos boxes de Interlagos, freamos depois da placa dos 200 metros”, revela. “A 200 km/h, precisamos de cerca de 100 metros para parar completamente”, completa.

Fonte: Diário do Grande ABC

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