Aquele tempo já se foi




“Cadê as frases de pára-choque, amigo?”, perguntei, abestalhado como sempre, ao Caetano. Não o velho compositor baiano do “tudo é divino, tudo é maravilhoso”, falo do Caetano da estrada, caboclo do Cariri, bravo caminhoneiro das encostas da Serra do Araripe.

“Sumiram, Jesus acabou com essa pouca vergonha”, disse o comandante da boléia, enquanto deslizava suavemente para o toca-discos mais um sucesso de Benito de Paula, aquela, clássico dos clássicos: “O amor que eu tenho guardado no peito/Me faz ser alegre, sofrido e carente/AAAHHH!! Como eu amei…”

Foi em uma estirada de Juazeiro do Norte a São Paulo, quase 3 mil km, que reparei no sumiço quase completo da filosofia carreteira. Além de Caetano, o fotógrafo Tiago Santana, testemunha ocular do meio-do-mundo, completava a trindade da boléia.

Jesus, aqui resguardado todo respeito e devoção cristã, acabou com a filosofia de pára-choque de caminhão. Quase não se vê mais na estrada aquelas frases clássicas, sábias, decifradoras da vida. Jesus invadiu todos os pára-choques, lameiras, painéis, carrocerias.

“E olhe que caminhoneiro é uma raça muito da sem-vergonha”, diverte-se Caetano, o rei da buraqueira. “Mas o Homem forte e poderoso”.

“Só Jesus salva”.

“O senhor é o meu pastor, nada me faltará”.

Quando não tem Jesus, vai o escudo de time. Haja Flamengo – com Ronaldinho –, haja Corinthians, São Paulo e uma baleia do Peixe vez ou outra encalhada na lameira. Quando entramos em Minas, uma eternidade de asfalto, as estrelas do Cruzeiro e a pabulagem do Atlético.

Os mais amorosos ainda pintam lá um coração com o nome dela, a amada, como na lírica do Rei Roberto. O mais lindo que avistamos foi um “eu te amo, Izildinha, desalmada”. No que Caetano, sábio de rodagem, não contém o chiste: “Ser caminhoneiro tudo bem, ninguém escolhe o destino; mas ser caminhoneiro e corno também já é demais da conta!”

Manda a pérola e aperta a trilha sonora conveniente, grande DJ de boléia: Bartô Galeno. Alta fidelidade, o fino do chifre, põe bem alto aquela diz mais ou menos assim: “No toca fita do meu carro/ Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro lhe esquecer.”

Uma pausa para a melhor lingüiça de porco do Brasil, com pão e cerveja, na taverna de Jacy de Góes, lá em Itaguara, posto de gasolina, BR 381, Km 546, ainda no infinito das Gerais. Bartô Galeno nas alturas atrai as damas da noite. “Vamos fazer amorzinho gostoso, chuchu!”, diz uma das princesas. Caetano, cavalheiro, agradece, liga o motor e partimos mais uma vez.

Mas como eu ia dizendo aqui na boléia, a louvação a Jesus substituiu a sabedoria popular sobre rodas. Que não ficava nada a dever aos aforismos de Nietzsche, como diz o amigo Paulo Mota, provando que é possível filosofar em pára-choquês. Uma das sentenças mais conhecidas do povo encontra a sua correspondência na cartilha do pensador alemão. Enquanto o pára-choque registra “o que não mata engorda” , o bigode de vassoura nos sai com a sua “o que não mata, me fortalece”.

E sabe aquela redinha que enfeitava a boléia, logo atrás dos pára-brisas? Também está sumindo. Só vimos uma na estrada, num velho caminhão caindo aos pedaços. Em alta estão os grandes adesivos, sempre colados às cabines. Com tudo quanto é motivo pop, ai incluído também o Jesus Super Star em preto e branco.

Guiados por satélite, por causa dos assaltos, os caminhoneiros também não podem dar as grandes escapadas, como acontecia antigamente. Modernidade é isso ai. “Big Brother” na estrada. Agora as transportadoras e donos das cargas sempre sabem onde eles estão, eterna vigilância rodoviária.

As novidades, no entanto, não impedem que a graça continue. O atualíssimo “Jesus Salva”, por exemplo, já ganhou uma continuidade filosófica, em pequenos adesivos e na voz dos próprios caminhoneiros: “Jesus salva!… passa para Moisés, que chuta e é goool!!!”

Mulher

Para matar a saudade das moças, alguns clássicos do pára-choque amoroso: “20 Buscar 100 demora 60 aqui e vamos embora.” “Muitos pneus cheios, mas um coração vazio”.“Beijo de mulher casada tem gosto de pólvora”.“Deus abençoe as mulheres bonitas, e as feias se sobrar tempo”.“Feliz foi Adão, que não tinha sogra nem caminhão”.

Fonte: Coluna Modos de Macho, do Jornalista Xico de Sá. BR Press

Inscreva-se




Deixe sua opinião sobre o assunto!