Casal de estradeiros cria filho na boleia




Foto 1: Roberto, Gabriel, Cristiane, o sogro Adelar, Leonardo e Solange: vida estradeira, longe de casa, sem deixar os filhos pra trás Foto 2: Antes eram duas carretas , com origem e destino comuns: agora são três

A vida estradeira é vista como elemento de afastamento da família. O marido fica fora por dias, o ano inteiro. À mulher cabe a responsabilidade de criar os filhos, num jeito de viver um tanto solitário. Não para Roberto Gasparin e Cristiane Bosing.

Eles formam o que se pode chamar de casal rebelde no enfrentamento dessa quase-sentença de solidão de parte a parte. Nascidos em Itaipulândia, no extremo Oeste paranaense, o então adolescente Roberto foi para a estrada tocar caminhões dos outros e “não deu bola aos apelos do pai Isauro para seguir com os estudos”. Com pouco estava viajando acompanhado da namorada Cristiane, outra teimosa, cuja idade não passava de 15 anos.

Quando as coisas melhoraram, Roberto comprou o Scania 1985/86, 112 faixa cinza, todo financiado e em 2001 caiu na rota internacional, com viagens constantes para Mendoza, Argentina. Cristiane aprendeu a tocar e o casal logo concordou que o crescimento da família dependia da aquisição de mais um caminhão. Seria “cada qual com o seu”, diz Roberto. Ele ficou com o Scania 113 H, 1995, 6×2 e passou o 4×2 para a ‘sócia’.

Duas carretas, ligadas entre si, para as quais teriam de haver planejamento e captação de carga mais complicados, com origem, destino e até paradas comuns. Difícil, mas praticável. O que não se pode dizer da gravidez de Cristiane, em 2007. Não houve jeito. Ela teve de parar uns tempos, prazo importante para repensar o jeito de trabalhar em dupla.

Logo estava de volta ao volante. Ao invés de ajustar-se ao usual da dona-de-casa e da mãe de família, em dez meses Cristiane carregou o pequeno Gabriel para a estrada e não tinha como amamentar e dirigir carreta ao mesmo tempo. Contratou uma ‘babá embarcada’, durante um ano. Enquanto isso, o serviço se concentrou numa puxada de bate e volta entre Santos (SP) e Contagem (MG). A farinha de trigo vinha do porto para a Bunge e, no retorno, levava cimento ou tijolos refratários da Magnesita.

E assim continua, o que acabou reforçando a opinião do casal de que “falta muito para os embarcadores se adequarem às necessidades dos caminhoneiros no Brasil”. Sua observação refere-se ao impedimento da entrada de acompanhantes na área de movimentação de carga das indústrias. “Por isso não podemos descarregar as duas carretas na mesma hora”, conta. “Alguém tem de ficar com o Gabriel”.

Pai e mãe se revezam nos cuidados ao Gabriel, que virou estradeiro ao ano e meio de vida. Cristiane, no entanto, sabe que seu filho terá de ir para a pré-escola em pouco tempo. Percebe-se o seu desgosto diante desse futuro inevitável. Para não largar a estrada, teria de deixar o filho com os sogros. A ideia não lhe agrada por entender que “os avós estragam os netos”, interpretando o excesso de zelo no seu melhor sentido. Além do mais, pretende “ter mais filhos”, um reenquadramento de ‘vida móvel para fixa’.

Enquanto corre o prazo, o casal Gasparin amplia a frota, sem afrouxar os laços familiares. No princípio do ano adquiriu um Scania novo, modelo 420 6×2, da Battistella, de Cascavel (PR) e o engatou num bitrém da Randon. Agora são três carretas e um único destino. Roberto assumiu o volante do zero km e passou o outro 6×2 para o sogro Adelar Bosing, de menos de 50 anos de idade. Este, por sua vez, caiu no trecho pensando como o genro. Após novo casamento com a Solange, está criando mais um lourinho, o filho Leonardo, dentro da cabine de Scania. O guri está com um ano e também virou estradeiro, ou melhor, filho da estrada.

Fonte: Revista Carga Pesada

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