Megacarreta leva sete meses para ir de porto ao interior




Na época da colonização do Brasil, as mercadorias vindas da Europa levavam meses para chegar ao destino, transportadas no lombo de mulas por caminhos íngremes abertos na Serra do Mar.

Hoje, mesmo com estradas pavimentadas e veículos velozes, pode-se levar um bom tempo para despachar e entregar uma encomenda. É o caso de três equipamentos, embarcados no Porto de Tarragona, na Espanha, que chegaram ao Brasil em junho de 2010. Não bastassem os quatro meses para a liberação, os desembaraços alfandegários, o documento de nacionalização, as taxas, os carimbos e tantos outros detalhes burocráticos, o peso das máquinas nos levou de volta a tempos coloniais.

Do Porto de São Sebastião, no litoral norte paulista, a Paulínia, a cerca de 300 km de distância, no interior do Estado, serão sete meses para transportar o imenso carregamento. No fim de outubro, a carga finalmente foi colocada na estrada para subir a serra. A previsão é chegar ao portão da Refinaria do Planalto, a Replan, nesta terça-feira.

O transporte dos três módulos chamados Catalist Continue Regenerator (CCR) é complexo. O conjunto dos equipamentos, que na refinaria serão montados um sobre o outro, como em uma torre, pesam 660 toneladas. Foram necessárias três carretas de 40m de comprimento cada para levar as peças, que medem 8m de largura por 8m de altura e comprimento entre 27m e 30m. Dependendo do ponto da estrada, uma carreta segue enquanto as demais aguardam a vez.

“Para evitar transtorno ao tráfego, a circulação das três estruturas foi permitida somente a partir da meia-noite e até por volta das 5h”, diz Renato Zuppardo, gerente de projetos da empresa transportadora Megatranz. De dia, a circulação só ocorria dentro de propriedades rurais. A velocidade do comboio fica entre 10 km/h e 20 km/h.

Obstáculos

Na estrada, o comboio enfrentou atrasos já previstos pela empresa, como riscos de deslizamentos e enchentes p0r causa das chuvas no fim do ano. A equipe ainda parou os caminhões para comemorar Natal e ano-novo e não obstruir o fluxo de turistas rumo ao litoral. O comboio também parou no carnaval, na Páscoa, nos feriados de Tiradentes e de 1.º de Maio e no Dia da Mães.

Entre uma parada e outra, foi preciso transpor viadutos, desviar de pontes e abrir áreas de escape como ponto de apoio aos caminhões. Para fugir de obstáculos naturais das estradas as carretas passaram por dentro de uma fazenda no km 84 da Rodovia Carvalho Pinto. Foram abertas estradas na propriedade particular, com a autorização dos proprietários.

Em certos trechos, a única alternativa era a transposição de viadutos, como na Rodovia D. Pedro. Quatro guindastes foram usados, com capacidade para içar até 500 toneladas. A mesma alternativa foi adotada nos kms 15 e 47, quando as três peças também foram erguidas por cima do viaduto. “Por causa das dimensões das peças, não era possível transportá-las por baixo do viaduto”, explica Zuppardo.

Quando a transposição foi inviável, optou-se por levantar a viga principal de uma passarela na altura do km 67 da mesma estrada.

Reta final

Neste fim de semana, o comboio chegou a Campinas, a cerca de 20 km da Replan. Hoje, quando a circulação de carros e pedestres é menor, vias até a refinaria serão interditadas das 7h às 17h para a passagem das megacarretas.

A Companhia Paulista de Força e Luz vai desligar cabos elétricos e as companhias de TV a cabo e internet recolherão fios. Os serviços voltarão ao normal depois que os caminhões acessarem a Rodovia Zeferino Vaz.

No volante

O motorista Ailton Ellipronti, de 47 anos, está há mais de 20 anos na função e é considerado um experiente condutor de supercarretas. Morador da cidade de São Paulo, ele diz que está acostumado a ficar meses fora de casa trabalhando.

Segundo ele, serviço não falta por causa dos investimentos em setores como construção civil. “Rodei praticamente o Brasil todo, mas o trabalho não é só soltar o caminhão na estrada.”

A entrega na refinaria foi uma das mais demoradas que Ailton já fez por causa dos desvios. “Passamos por cima de viadutos e circulamos de madrugada, quando quase ninguém pega estrada.”

Fonte: Estadão




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