Carros e caminhões: vamos melhorar esta convivência




Caminhões e automóveis, uma convivência que gera acalorados debates. O Brasil é muito dependente do transporte rodoviário, fruto de políticas governamentais do passado. “Governar é abrir estradas” foi o lema do governo nas décadas de 50 e 60, e os estrategistas do desenvolvimento abandonaram outros meios de transporte pesado, como hidrovias e ferrovias. Resultado: o País ficou dependente do transporte por caminhões.

Nossas estradas logo mostraram-se subdimensionadas e em mau estado de conservação, com falhas de projeto e de construção que não foram reparadas. A frota de carros e caminhões não pára de crescer, e com ela crescem também os problemas entre esses veículos tão diversos.

Excesso de carga é um dos principais problemas do transporte em caminhões. Apesar das vantagens de se levar maior volume de uma só vez, é uma faca de dois gumes: causa problemas nas estradas, pela lentidão dos caminhões nas subidas, e traz perigo pela dificuldade de controlar o peso nas descidas e freadas. O caminhão se desgasta mais, a pavimentação das estradas se deteriora com o excesso de peso — e a viagem acaba ficando mais lenta por todos estes aspectos.

Outro problema é o mau estado de conservação dos caminhões. Os de propriedade de transportadoras em geral têm manutenção mais rigorosa e motoristas melhor preparados. Já os de particulares raramente seguem padrões de segurança adequados. Em veículos tão pesados, o menor descuido pode ter graves conseqüências numa emergência ou em situação de maior exigência dos freios, suspensão, direção e pneus.

Não há como negar: assim como existem bons e maus motoristas de automóvel, há bons e maus caminhoneiros. Se por um lado alguns caminhoneiros e motoristas de ônibus são acusados de usar o tamanho do veículo para intimidar, por outro alguns motoristas usam a velocidade e a agilidade de seus carros como contra-ataque — e ambos convidam a acidentes. Deve-se entender que os caminhões não conseguem ser ágeis e rápidos como os carros. E os caminhoneiros devem compreender que o tamanho de seus veículos traz, isso sim, a necessidade de maior treinamento do motorista.

As técnicas de condução de um caminhão pesado são bem diferentes das de um carro. As frenagens, por exemplo, têm de ser feitas em duas etapas: primeiro a carreta com a carga, depois o cavalo mecânico (cabine). Há ainda o freio-motor, que num carro pode ser dispensado, mas num caminhão assume grande importância para não sobrecarregar os freios das rodas. Se fosse feita a frenagem apenas do cavalo mecânico, a carreta o atropelaria pela maior inércia.

Já se apenas a carreta fosse freada, o caminhão poderia perder o controle e formar um “L” na pista — também acidente na certa. Outras diferenças são a necessidade de muitas mudanças de marcha e do uso de reduzidas para descidas e subidas, o amplo raio necessário para contornar curvas e fazer conversões, além da visibilidade limitada em regiões próximas. Resumindo: dirigir um caminhão não é nada fácil. E dirigir bem, menos ainda.

Dicas para a boa convivência Nessa relação complicada, o melhor para quem está ao volante de um carro é não fazer disso uma guerra, até mesmo porque as armas “inimigas” seriam bem mais pesadas que as suas — literalmente. Então, o melhor é agir da forma mais segura e coerente possível.

Antes de mais nada, vale a pena entender a difícil situação do caminhoneiro. Em regra é um motorista mal remunerado, pressionado pelos prazos de entrega e pelos custos cada vez menos cobertos pelo frete. Muitos passam semanas longe de casa, dormem nas cabines ou mal chegam a descansar, sem falar no contínuo temor dos assaltos e roubos de carga. Se você não tem culpa de nada disso, ao menos pode tentar compreender para que todos saiam ganhando.

Muitas das dificuldades, porém, são de ordem técnica. Veículos pesados têm, naturalmente, reações mais lentas tanto para acelerar como para frear. Por isso, manter distância é fundamental. Como caminhões não permitem visão traseira próxima, faça-se notar. Procure usar o farol baixo mesmo de dia e posicione-se de modo que o motorista possa ver seu carro pelos retrovisores laterais sempre que possível. Evite a tentação de ultrapassá-lo quando, na cidade, abrem uma curva — aquela “brecha” pode estar fora da visão do motorista e logo será fechada.

Sinalizar seus movimentos também é básico para a segurança de todos. Luz de direção nas mudanças de faixa ou conversões, um piscar de farol alto ao ultrapassar para mostrar sua presença (à noite, prefira a luz de direção, que incomoda menos) e luzes de freio funcionando bem são fundamentais para evitar acidentes.

Para evitar colisões frontais, seja com veículos leves ou pesados, só ultrapasse com total visibilidade e certeza da ultrapassagem segura. Muitos caminhoneiros e motoristas de ônibus sinalizam para o condutor que vem atrás, com luz de direção, para que ele ultrapasse no momento mais seguro. Não confie cegamente nessa ajuda: por melhor que seja a intenção, confie apenas em seu campo visual da pista contrária. Para isso, mantenha distância suficiente para ver de longe os veículos do outro sentido, mas não tanto que aumente muito o espaço total a ser percorrido na ultrapassagem.

Fique atento a caminhões com caçamba aberta, carga exposta ou mal acondicionada. Mantenha maior distância para ter tempo de reagir caso algo venha a cair do caminhão. Lembre-se também que os pneus de ônibus e caminhões têm sulcos mais largos, que podem lançar pedras grandes o bastante para quebrar o pára-brisa de um carro próximo ou, no mínimo, causar um susto.

Caminhões e ônibus são veículos longos e, numa eventual emergência, não têm a mobilidade de um carro. Não pressione: gerar tensão não é bom para ninguém na estrada. Procure ajudar ao caminhoneiro que muda de faixa à sua frente para não perder um embalo, que seu carro recupera em segundos. Dirija de forma compatível com a estrada, as condições do tempo, do veículo à sua frente e até conforme o comportamento dos outros motoristas. E fique longe de possíveis problemas.

Por fim, se necessário, avise a Polícia Rodoviária ou a concessionária da rodovia caso veja algo potencialmente perigoso na estrada, seja você um motorista de carro ou um caminhoneiro. Isso é dever de todo bom motorista.

Resumindo, a regra que todos devemos seguir no trânsito é uma só: respeitar para ser respeitado. Quando nossa realidade mudar, tudo ficará melhor em nossas estradas, com o respeito mútuo e a segurança que todos merecemos.

A questão do “rebite”

Com todas estas dicas, a convivência entre carros e caminhões pode ficar bem melhor. Mas resta resolver um grave problema: a sobrecarga de trabalho dos motoristas. Como ganham por viagem — e muito mal, por sinal –, quanto mais rápida for a viagem e quanto mais viagens fizer, mais o motorista recebe de frete. Portanto, o caminhoneiro tende a correr demais, dormir pouco, dirigir cansado e usar os chamados “rebites” (medicamentos para inibir o sono, que alteram sua percepção e tempo de reação). E muitas vezes dorme ao volante.

Em nome da segurança, ninguém deve dirigir cansado, com sono ou sob efeito de drogas — muito menos um motorista profissional e de um veículo difícil de conduzir. Levar uma vida dura não justifica pôr ninguém em risco. Nas transportadoras esses problemas são menores, pois os prazos são um pouco mais realistas e as viagens têm intervalos maiores.

Fonte: Best Cars




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