Habilitado para ‘pilotar’carroça




Na década de 40, há mais de 70 anos, onde hoje é o município de José Bonifácio (SP), que na época se chamava Serradão, morava o produtor rural João da Silva Ramos. Plantar, colher, criar animais e tirar o leite da vaca eram alguns dos seus afazeres diários. Vícios ele não tinha.

Vez ou outra, ia até a cidade para fazer compras no mercado, vender leite e entregar carne de porco. Só então tirava o seu meio de transporte da garagem: a carroça. Já naquela época, ao contrário de muitos que saem a dirigir pelas ruas com pouca ou nenhuma habilidade, Seu João conduzia a sua carroça com cautela, segurança e, acreditem, devidamente habilitado!

A Diretoria do Serviço de Trânsito do Estado de São Paulo, da então República Dos Estados Unidos do Brasil, habilitou o produtor como carroceiro rural no dia 27 de julho de 1940. Sua carteira de habilitação, de nº 115.545, contém foto, além da assinatura de um escrivão e também de um delegado de polícia.

A cópia da carteira de habilitação para conduzir a carroça do seo João chegou à reportagem por intermédio do maringaense aposentado Arnaldo Vilhena Coelho, que é casado com Eníder de Lurdes Guapo Coelho – uma das netas do motorista habilitado de carroças.

Por sorte, no dia em que a reportagem visitou a casa de Arnaldo, outros dois netos do Seu João estavam em Maringá, a passeio. Albertina da Silva Ramos, na época uma criança, recorda-se do avô ‘pilotando’ a carroça.

“Não havia carros na redondeza. Passava um caminhão ou outro, mas muito raramente. A maioria das pessoas andava de carrocinha”, diz ela. A neta também se lembra que, além de usar o meio de transporte para carregar os produtos que vendia ou comprava, seo João fazia frete para vizinhos e ‘amigos mais chegados’.

Lindolfo da Silva Ramos, também neto de seo João, diz que a carroça tinha até placa, com números de identificação. “A licença valia como a atual carteira de habilitação de veículos. Quem conduzia carro de boi não precisava do documento, porque o percurso era mais moroso e lento”, diz Lindolfo.

“Meu avô e meu pai iam pescar no Rio Tietê, só que nem precisavam da carroça. Iam montados no cavalo porque não tinha tralha de pesca. Naquela época, a água do rio era tão limpa que conseguiam acertar com um tiro o peixe embaixo d´água”, conta.

A neta Albertina acredita que o seu zeloso avô era um dos poucos motoristas habilitados. “Meu pai mesmo não tinha essa carteira”, lembra-se. O carroceiro rural João da Silva Ramos nasceu em Jaú (SP), teve dez filhos e morreu em 1945. Se estivesse vivo, certamente, teria licença para dirigir e respeitaria as leis.

Fonte: O Diário




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