Experiência adquirida com muita calma




Quinze dos 44 anos recém-completados de Nelson Machado Pinto foram vividos dentro da cegonha. E esse era mesmo o sonho dele. Desde os 12 anos viajava de caminhão para todos os cantos com um vizinho e ali se apaixonou pela profissão. Hoje, funcionário da Sada Norte, ele se considera um “doutor do volante” e atribui a experiência adquirida à tranquilidade e consciência que tem ao lidar com o trânsito.

Casado e pai de duas meninas, Maria Tereza, de 14 anos, e Isabel Cristina, de 16, Nelson conta que quando criança viajava muito para o Sul do país, conhecendo Porto Alegre, o Paraná inteiro, entre outros lugares. “Na época, entregava o Fiat 147, os primeiros que foram fabricados”, lembra. Quando começou a guiar sozinho, já estavam no mercado os carros Uno e Tipo, e ele fazia a entrega por todo o país. Quando menino, ele conta que só não foi para Belém, no Pará. “Meu vizinho não queria que eu fosse para lá porque tinha malária”, recorda.

O cegonheiro ainda não tem o próprio caminhão, trabalha como empregado. Nas estradas, ele diz que vê muita gente inexperiente e concorda que os anos de volante contam quando o assunto é zelar pela própria vida e pela dos outros, principalmente quando se está no comando de um gigante como a cegonha. “Tenho mais de 20 anos de volante, me considero experiente. Acidente grave eu nunca tive, graças a Deus. Acho que só uma encostadinha quando estava manobrando. Vejo muita gente por aí que não tem experiência e também não aceita conselhos”, diz. Para conseguir trabalhar em paz, sem acidentes, ele afirma que aposta na calma. “Nas estradas, quando vem um na sua frente, se não tiver paciência, não tiver calma, estressa demais. As pessoas andam muito estressadas e isso é um perigo.” A dica para os amigos caminhoneiros, segundo ele, é dormir bem, inclusive depois do almoço. “Assim eu fico mais ligado. Se me deu sono, paro e durmo, não adianta ficar insistindo. Depois do almoço gosto de dar uma cochilada de uns 20 minutos e é importante para mim, não tenho problema de sono ao volante”, contou.

Adriene Angélica Palhares Pinto, de 43anos, com quem Nelson é casado há 18 anos, confia no marido e sabe que, quando ele sai para trabalhar, vai voltar bem. “Peço muito a Deus para abençoar, proteger, mas não gosto de sofrer por antecedência. Tenho sempre a certeza de que ele vai chegar. Ele é muito consciente ao volante, um ótimo motorista, tranquilo e seguro naquilo que faz. Nunca o vi agir com irresponsabilidade, nem no caminhão nem no carro. O patrão dele o adora, aliás, em todas as firmas que ele já trabalhou as pessoas gostam muito dele”, disse.

Lazer precioso

Ao longo da vida, eles conseguiram construir uma casa em São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde nasceram e moram até hoje, e compraram um carro. Com orgulho, Adriene diz que, juntos, eles não abrem mão dos momentos de lazer. “Tudo que temos é nosso. Não deixamos de fazer nosso churrasco, tomar nossa cervejinha, nos reunir nos aniversários. Quando estamos juntos é sempre uma festa. Graças a Deus temos tudo com o suor dele e é o que precisamos para viver bem”, afirmou.

Fortaleza, Teresina, Recife, São Luiz. Lugares que ficam a quilômetros de distância de Bicas e para onde Nelson costuma levar os veículos da Fiat. É na hora em que ele pega a carga na Sada Transportes que fica sabendo qual será o destino da viagem. E, neste tempo todo, que pode durar entre 10 dias a até um mês, Adriene fica com as meninas e elas seguem a vida movidas pela saudade.

“Aqui em Bicas a maioria dos homens trabalha com caminhão e tenho muitas amigas que também ficam longe dos maridos. Acho que temos que aprender a conviver. Quando me casei, tinha a consciência de que ele era caminhoneiro e que viveria uma vida de solidão, mas eu estava disposta a isso. Há muitos momentos em que a gente precisa deles e eles não estão: quando um filho adoece, morre um ente querido.” Mas também há momentos bons, diz Adriene. “Sempre que ele está em casa é bom”.

Fonte: Revista Entre Vias




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