Rodas campeãs




A temperatura gira em torno de 45 graus centígrados, os corpos se movimentam num sacolejo que teima em não cessar, o barulho é ensurdecedor e todo o processo é envolto por uma nuvem espessa de poeira, que entra pelas narinas e se mistura à adrenalina, sempre a pique. O que pode parecer uma tortura para muitos, é, sem sombra de dúvida, a sina e o vício de outros, como o piloto petropolitano Guido Salvini, que, segundo sua própria definição, tem “óleo diesel correndo nas veias”. Guido foi contaminado pelo vírus dos Rallys há mais de dez anos e fez do amor pelas aventuras e corridas de caminhão um meio de vida. De 2001 para cá, ganhou sete títulos de campeão brasileiro, entre 11 competições disputadas. No Rally dos Sertões, um dos mais respeitados do mundo, ele saiu vitorioso em cinco dos dez torneios dos quais participou. De Petrópolis, onde se prepara para enfrentar no ano que vem o temido Rally Dakar, o piloto compartilha as emoções, os temores e os percalços da vida arriscada. E mostra por que nem cogita deixar a terra natal, onde costuma fazer trilhas e andar de bicicleta com os filhos.

Equilíbrio para superar montanhas

Foi com exatos 12 anos, ao aprender a dirigir a bordo de um ônibus desproporcional para o seu tamanho, que Guido Salvini percebeu: iria passar o resto de sua vida rodeado por máquinas potentes de grande porte. Descendente de italianos, o menino costumava ter aulas com o pai nos finais de semana, na garagem da transportadora da família, em Carangola.

A partir de 2001, quando começou a disputar Rallys e acumular um sem fim de troféus, Guido tornou-se membro do seleto grupo de profissionais do segmento patrocinado no Brasil e teve que aprender a lidar com as adversidades e as estradas acidentadas das corridas de caminhão.

– No primeiro ano que competi, tivemos alguns problemas e ficamos presos por dias no meio do mato. Foi a pior coisa pela qual passei. A equipe toda teve que dormir em cima do caminhão, para não virar comida de bichos no meio da noite – diverte-se.

O único luxo de Salvini é dispor de um aparelho de ar-condicionado, que ajuda a refrescar a cabine e manter os ânimos no lugar. Para ele, o maior obstáculo dos Rallys é controlar o lado emocional em meio a tantos fatores desafiadores.

– No Rally dos Sertões, que é a competição mais longa num só país, você precisa dominar fatores como as altas temperaturas e o ar, muito seco, por mais de cinco mil quilômetros, em cinco estados. Tem que ter muita determinação, dosar bem o cansaço e não desgastar o caminhão nesse período de dez dias – diz Salvini, revelando o segredo da prova de resistência.

As estradas esburacadas do interior do Brasil e os oponentes são enfrentados ferozmente por um caminhão completamente adaptado para acomodar o piloto e sua equipe, composta pelo navegador Flávio Bisi e pelo mecânico Fernando Ventania.

O Atego 2010, de sete toneladas da Mercedes-Benz, tem tração nas quatro rodas, 500 cavalos de potência e tanque de diesel de 500 litros, suficientes para rodar 500 quilômetros. Para se ter uma ideia do esforço para sustentar essa máquina, um caminhão comum consegue andar mil quilômetros com uma reserva de 300 litros de combustível. Tudo isso, sem agredir o meio ambiente, já que Salvini optou por um motor de alta tecnologia com redução de poluentes.

Apesar de viver longe de São Paulo, cenário da maior parte dos Rallys, e do trabalho para locomover essa máquina imponente, o piloto nem cogita deixar sua terra natal.

– Aqui estou tranquilo. Faço motocross nas trilhas da cidade e levo os meus dois filhos para andar de bicicleta no Parque de Itaipava – diz Salvini.

Fonte: Yahoo Notícias




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