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ago 03 2012

Caminhoneiros admitem uso de droga e criticam lei que obriga pausa

Na estrada há 23 anos, Valdecir Florencio, 47, diz já ter visto de tudo um pouco e se acostumou a uma rotina que intercala oito, nove, até dez horas dirigindo direto com duas a três horas de sono

Ao menos três vezes por semana Valdecir Florencio, 47, carrega o seu caminhão com bananas na cidade de Registro, na fronteira de São Paulo com o Paraná, e parte em busca de compradores. O destino mais comum é o Ceasa do Rio de Janeiro, a cerca de 650 km. Na estrada há 23 anos, ele diz já ter visto de tudo um pouco e se acostumou a uma rotina que intercala oito, nove, até dez horas dirigindo direto com duas a três horas de sono.

Carga entregue, ele tira o atraso do travesseiro e retorna para casa. Para ele e outros caminhoneiros que descarregavam no Ceasa nesta quarta-feira as alterações trazidas pela Lei 12.619, que exige, entre outros pontos, descanso obrigatório de 11h por dia e 30 minutos de pausa a cada quatro horas trabalhadas, significam exatamente 50% a menos de dinheiro no bolso no fim do mês.

“Parando a cada quatro horas uma viagem de um dia dura dois e você não chega a tempo de fazer a outra carga”, diz Florencio, calculando uma redução de três para um frete por semana. “Se isso acontecer largo o caminhão e fico em casa. Já basta o horário de São Paulo, em que a gente não pode cruzar a cidade entre 17h e 22h.”

A favor da greve caso o governo não volte atrás, Florencio começou a dirigir por causa do pai, também caminhoneiro, mas diz que a profissão foi muito desvalorizada. “Meu pai fazia uma carga por semana e ganhava mais do que eu. Às vezes a gente mal vence o mês”, diz. Descontando gastos com a manutenção do caminhão, pneus e diesel, ele estima que sobram cerca de R$ 4 mil, gastos no sustento dos filhos de nove e 17 anos.

“A mais velha vai entrar na faculdade agora. Se essa lei pega como vou pagar? Como vou dizer para a minha filha que ela não pode estudar?”, questiona.

Perto do caminhão de Florencio, José Benedito Gonçalves, 47, esperava pela sua vez de estacionar e descarregar a carga de arames que trouxe de Holambra (SP), a cerca de 550 km do Rio. Como saiu na terça à noite, não pegou a paralisação, que terminou na madrugada desta quarta-feira com a suspensão da fiscalização por um mês.

Para ele, que chega dirigir até 12h “conforme a necessidade”, a medida não vai funcionar. “Esse negócio de parar não vai dar em nada. Quem é a favor é o colega assalariado, que não depende de frete, não pensa nos outros”, diz Gonçalves, que completa 27 anos de profissão esse ano. “Tem cargas que não podem esperar.”

Quando precisa o caminhoneiro diz tomar “um rebitinho para adiantar o serviço”, ou rebite, forma como são chamadas as anfetaminas usadas por muitos caminhoneiros para se manter acordados. “Quem fala que toca duas noites só na raça e não toma nada mente”, afirma Gonçalves.

Florencio, por sua vez, conta que já tomou rebite para chegar em casa a tempo de comer a ceia de Natal com a família ou em momentos de muita pressa, mas que hoje prefere viajar sem nada. “Já perdi amigos por isso. Você toma um rebite, toma um café, deita meia hora e quando levanta enxerga até formiga na estrada”, diz.

Além do rebite, o caminhoneiro de Registro afirma que a cocaína também está tomando conta das estradas. “Hoje o uso de cocaína virou uma rotina para muitos colegas. Tenho amigo que se não tiver cocaína, não tiver rebite, não viaja até a esquina”, conta.

Para Gonçalves a droga, e não o rebite, é a responsável pelo grande número de acidentes com veículos de carga nas estradas. “A molecada tá cheirando direto, é o que está dando a maior parte dos problemas”, afirma. Os dois contam que é muito fácil encontrar a droga em postos de gasolina, mas preferem não comentar mais por medo de retaliações.

Do outro lado da polêmica, o caminhoneiro Sidnei Santos Silva, 35, se diz a favor das pausas propostas pela nova lei e vê com maus olhos as atitudes dos colegas que usam drogas para encarar a estrada. “Eles querem fazer dinheiro, mas não pensam na segurança, na saúde deles. Rebite, café com cachaça, energético…uma hora o corpo cobra a conta e aí como que fica?”, questiona.

Contratado de uma empresa de alimentos, Silva faz fretes apenas dentro da cidade do Rio de Janeiro e nos arredores. Florencio admite que já se envolveu em um acidente por causa do sono há cerca de 20 anos, mas ainda assim é contra a nova regra. Com dores no antebraço e cabelos brancos antecipados, ele planeja se aposentar em breve e seguir se dedicando as bananas, dessa vez apenas como produtor. “Estou envelhecendo, não vejo meus filhos crescerem. Quero comprar um caminhão novo, colocar alguém para dirigir para mim, e cuidar da plantação no meu sítio. Mas até lá a gente tem que trabalhar.”

Entenda

Perto do caminhão de Florencio, José Benedito Gonçalves, 47, esperava pela sua vez de estacionar e descarregar a carga de arames que trouxe de Holambra (SP), a cerca de 550 km do Rio. Como saiu na terça à noite, não pegou a paralisação, que terminou na madrugada desta quarta-feira com a suspensão da fiscalização por um mês

A greve dos caminhoneiros autônomos foi iniciada no dia 25 de julho. Organizada pelo Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), a paralisação protesta contra a lei 12.619/2012, que limita a jornada de trabalho dos motoristas e, e contra o uso de cartão-frete, entre outros pontos.

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) é contra a greve, e, assim como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes (CNTT) afirma que há interesses patronais por trás da paralisação, e que a greve tem participação de empresas de transporte – o que caracteriza locaute (ou greve patronal), o que é proibido por lei. “A paralisação em curso de caminhoneiros no território brasileiro é uma ação promovida pelos empresários do setor que querem suspender os efeitos da Lei 12.619/2012″, diz trecho de ofício enviado pela CNTT a órgãos governamentais e de fiscalização.

Devido às paralisações, o custo de alguns alimentos chegou a subir 150% no Rio de Janeiro. Uma pessoa morreu durante um bloqueio no interior do Paraná. A vítima teria arremessado um cone de sinalização no meio da rodovia, com o objetivo de tentar parar o ônibus, que, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), estava em alta velocidade. O veículo atingiu o manifestante, que morreu no local.

Reivindicações

Do outro lado da polêmica, o caminhoneiro Sidnei Santos Silva, 35, se diz a favor das pausas propostas pela nova lei e vê com maus olhos as atitudes dos colegas que usam drogas para encarar a estrada

- Pela nova legislação do setor, os motoristas devem fazer uma jornada de trabalho de oito horas diárias, com no máximo duas horas extras, além de pausa de 30 minutos a cada quatro horas trabalhadas
- O Movimento União Brasil Caminhoneiro quer o adiamento por um ano da vigência dessa lei alegando que as exigências impostas são “inviáveis por falta de infraestrutura nas estradas”
- A nova regra também determina descanso sem interrupção de 11h a cada dois dias trabalhados
- Porém, os caminhoneiros argumentam que as rodovias brasileiras não têm infraestrutura adequada para cumprir a norma
- Outra reclamação envolve a entrada de mais de 600 mil veículos no setor, “levando à concorrência desleal que jogou o frete rodoviário a valores que não cobrem as despesas”, dizem os manifestantes
- O cartão-frete é alvo de outra reivindicação por impedir o recebimento de dinheiro ou de cheque

Fonte: Economia TERRA

4 comentários

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  1. Lucas Roberto

    a lei foi feita pra ajudar, mas nem o governo ta fazendo sua parte. agora os motorista tão criticando. pqp

    1. Michel

      pois é Lucas. Foi feita para ajudar, mas alguns ainda não perceberam isso.

  2. Betoferradura

    Concordo em parte, a lei foi feita pra ajudar quem é regido pela CLT, porque nós autônomos, vamos quebrar, e tem mais NÃO há infra estrutura onde quer que seja para a execução dos horários(gostaria que me respondessem onde vou parar minha carreta em segurança para cumprir a lei, vou ter que botar ela nas costas ou guardar num lugar onde não bate sol?) e tem mais o kamarada ficar 11 horas parado descansando(?) tem que ser um pião muito preguiçoso, um dorminhoco, um desocupado. Aquela historia de caminhoneiro aventureiro na estrada só existiu no seriado PEDRO E BINO, pois a realidade é que meu caminhão é o meu NEGOCIO, é de onde sai minha RENDA, fica uma pergunta, um médico trabalha em quantos empregos para poder ter uma renda melhor?(há casos onde um médico trabalha mais de 18:00 por dia ininterruptamente) E por que nós MOTORISTAS EMPREENDEDOR AUTÔNOMO temos que limitar o horário de trabalho do nosso negócio?? Um dono de padaria vai abrir as 6:00 e ter fechar as 16:00 por que seu horário está se excedendo? Em relação as drogas, isso existe em qualquer lugar, qualquer bichinho de orelha sabe os pontos de venda, é questão de segurança pública, o estado vai lá e prende os criminosos, infelizmente a impunidade manda nessa terra de Santa Cruz, Brasil.

  3. gardson alves

    As estatisticas dizem que o transito brasileiro mata mais que a guerra no vietinã, se os governantes se preocupasse em duplicar as rodovias mais criticas do nosso pais como a 116, rio bahia, da divisa alegre ate feira de santana, a 316 no mato grosso onde há um enorme movimente de bitrens com transporte de graos, entre outras 262 enfim, pensassem mais em infra estrutura diminuiria muitos os acidentes em nossas rodovias, os nossos governantes estao preocupados mais é nos cofres publicos, essa nova lei com certeza vai almentar a arrecadaçao, imposto de renda entre outros, sera a enorme quantidade de veiculos nas ruas e estradas ja nao é suficiente? arrecadaçao de multas ipva entre outros, nao somos responsaveis pelos altos indices de acidentes acontecidos ultimamente. comece a nova lei pelas autos escolas, ensinar verdadeiramente como se conduzir um veiculo em locais urbanos e rodovias federais e estaduais, e truques para se passar nos exames, tem tantas coisas para se diminuir os acidentes, poque nos responsabilizam tanto??????

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