Vida na estrada: profissão de motorista dá a chance de conhecer novas culturas

Caminhao na estrada




Aos 23 anos, Tania Zinho tem um sonho diferente da maioria das garotas da idade dela: ser motorista de caminhão. A pergunta é quase inevitável: Por quê? A resposta é rápida e natural: “Sempre me interessei por caminhões. E, convenhamos, nunca vou achar um escritório que tenha todas as paisagens que vejo nessa profissão”, explica ela.

A chance de viajar e conhecer lugares diferentes é um dos fatores que atraem novos profissionais para o setor. E Tania está começando a viver este sonho aos poucos. Em abril de 2013 ela começou a percorrer as rodovias com o noivo, que já transporta cargas há nove anos. Agora está se preparando para trocar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) a fim de obter a permissão para conduzir veículos maiores, o que deve ocorrer até o final do ano.

Ela sabe que o trabalho é duro: ajuda a carregar e descarregar, passa dias e dias fora de casa, dorme em lugares diferentes e o caminhão não oferece as comodidades de uma casa. Mas tudo se torna parte de uma rotina marcada pela novidade: “Acredito que a possibilidade de viajar é uma das melhores coisas. Enquanto a maioria das pessoas passa o ano trabalhando para juntar um dinheiro e viajar no final do ano, a gente faz o contrário. Viaja para ganhar dinheiro”, diz Tania, que concedeu a entrevista enquanto carregava o caminhão em uma fazenda no município de Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, distante 1,6 mil km de Marechal Cândido Rondon, no oeste do Paraná, onde estão a casa e a família.

Os lugares que vai conhecendo nos trechos que percorre são registrados na memória e em fotografias. Tania cita o aprendizado com novas culturas, a beleza da fauna e da flora do Pantanal e um momento especial: a chance de ter conhecido o mar. “Essa foi uma das experiências mais legais. A princípio deu medo de ver toda aquela água. Mas depois foi uma sensação relaxante, maravilhosa, como se o mar carregasse toda coisa ruim da gente”, conta.

Mas há uma série de desafios que precisam ser enfrentados diariamente: a má qualidade da infraestrutura em algumas regiões do país. Fernando Fattore, morador de Vilhena, em Rondônia, trabalha na área desde 1996. Pai de três filhos, o que mais o preocupa são as condições das rodovias brasileiras. “Aqui no Norte o maior problema é o abandono do governo. Buracos, pista simples sem sinalização nem divisão de faixas”, conta ele.

Motorista de uma cegonha, aos 36 anos Ivone Ferreira também gosta da sensação de liberdade e da chance de conhecer outros lugares. Ela mora em Vitória (ES), mas nos últimos dois anos passa maior parte do tempo na estrada. E já faz parte do trabalho atravessar a fronteira para chegar a países do Mercosul. Ela conheceu capitais e interior da Argentina, do Chile, do Uruguai e do Paraguai. A única coisa que incomoda é o frio, mas persiste a vontade de sempre voltar, para conhecer um pouco mais dessas regiões. As melhores lembranças, no entanto, são de terras brasileiras: “O sul do país é muito lindo, me encanta a serra gaúcha”.

Orgulho

As histórias e experiências que a profissão permite são contadas com orgulho e bom humor pelo caminhoneiro Renê França Batista, que tem 34 anos de carreira. Morador de Uberaba (MG), ele tem certeza de uma coisa: a atividade é um dom. “A gente não escolhe, a gente é escolhido. Depois que entra nessa profissão, é difícil sair, porque não dá para ficar parado muito tempo no mesmo lugar”, diz. Depois de tanto tempo ele nem consegue contar quantas cidades já conheceu. Porém, exemplifica: “Eu nunca viajei a passeio, mas conheço todo o litoral. Fiz amigos, conheci lugares e culturas diferentes”.

Ele não ignora as dificuldades, mas reconhece que estas também proporcionaram aprendizados para a vida toda. “Nas viagens para transportar gado entre fazendas do Nordeste”, relata, “em épocas de seca, era difícil até comer bem. Arroz era só em domingo, na casa dos fazendeiros que nos recebiam. O resto era cuscuz, banana e tira-gosto. Mas pra caminhoneiro todo lugar está bom”. Uma pausa e prossegue: “Menos quando é muito frio. Em Curitiba, peguei 5ºC. Detesto frio”.

Ficar longe de casa nem sempre é fácil. No entanto, o caminhoneiro releva, porque a vida no asfalto também conquista o coração: “se eu fosse pensar em tantas coisas boas que eu vivi, tantos lugares, tantas pessoas, eu morreria de saudade”.

Fonte: Agência CNT de Notícias Texto de Natália Pianegonda




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