Chapas vivem à beira das estradas à espera de caminhoneiros com problema

Chapa do Caminhoneiro




Pés descalços, mãos sujas, homens resistentes à chuva, e ao sol, esses são os conhecidos “chapas”, trabalhadores que ficam à beira das estradas em busca de um caminhoneiro que possa precisar dos seus serviços, seja para descarregar uma carreta, ou para indicar um endereço.

Apesar de ser uma prática muito comum nas estradas brasileiras, a profissão ainda não é regulamentada pelos órgãos trabalhistas competentes. Em tempos de bom movimento, os “chapas” chegam a faturar até R$ 3 mil por mês.

O perigo que vem das estradas, para eles, significa sustento. Acordam de madrugada, vestem a roupa mais simples que tem, andam quilômetros até chegarem a um ponto movimentado da BR, e depois, exercitam a paciência.

Desde as cinco da manhã, sentado em um pneu no acostamento da pista da BR-324, José Nilton espera que algum caminhão pare e solicite seu serviço para que ele possa levar a janta para casa.

Desempregado há três anos, ele sempre volta a exercer a função de chapa quando as coisas dificultam em casa, nisso, acumula 15 anos de experiência. “Eu estou aqui por que estou desempregado, sou motorista, mas não arrumo emprego. Chego às 5 da manhã e saio às 5 da tarde. Isso não é vida. Eu tenho profissão, isso aqui pra mim é um bico. Eu só venho quando estou quase passando fome,” conta.

Trabalho pesado

Pai de três filhos, o mais velho com 16 anos, José Nilton trabalha todos os dias usando apenas uma sandália nos pés, nas mãos nada de luvas. “A maioria das empresas não disponibiliza a luva pra gente, tenho medo de um acidente, que graças a Deus, até agora não aconteceu,” conta Nilton.

Mesmo com toda a dificuldade, o trabalhador não admite que os filhos sigam o mesmo caminho. “De jeito nenhum, eu nunca iria deixar, eles tem que estudar, estou aqui por isso, todos os dias, pra que eles tenham estudo,” diz emocionado.

Se, por um lado, chapas se arriscam por um trocado, do outro, motoristas de caminhão desconfiados, utilizam cada vez menos os serviços desses profissionais.

Caminhoneiro há 25 anos, Lorindo da Silva, admite optar por outros recursos antes de contratar um chapa. “É complicado, hoje o mundo está muito violento e os caminhoneiros sempre são visados pra assalto. Nós vamos com GPS, ou sabendo logo onde está a empresa que vamos levar a mercadoria. Já usei o chapa algumas vezes, mas tenho medo, só uso quando tem alguém que eu conheço e me indica,” explica.

Há mais de 15 anos descarregando caminhões, Israel Gomes, reclama do tratamento que os chapas recebem dos caminhoneiros e remuneração duvidosa e malvista. “Eles não querem dar valor ao que nós fazemos. Desconfiam da gente, não querem pagar à diária que cobramos. Carregamos piso, brita, alimentos, fazemos de tudo para sustentar a família, mas está difícil,” conta.

Diária até R$ 100

A diária cobrada varia de acordo com o produto. “Os produtos mais pesados à gente cobra R$ 100, os mais leves pode ser R$ 30 a R$ 50. Se for pra seguir de guia, e o local for muito longe, cobramos a diária de R$ 100, mas isso é o que a gente cobra, o que ganhamos é bem diferente,” conta Gomes.

O que eles ganham muitas vezes, não chega à metade de um salário mínimo. “Olha, por mês eu tiro R$ 300, mas pra tirar esse valor, tenho que descarregar uns 4 a 5 caminhões por dia. Nos bons períodos, em que seguiam o valor da nossa diária, conseguíamos R$ 3 mil no mês. Eu era feliz e não sabia,” finaliza Gomes.

Apesar da prática ser realizada há muitos anos, a Policia Rodoviária Federal informa que não foi contabilizado nenhum acidente com os profissionais. Ainda segundo a PRF, a futura regularização da profissão é uma das torcidas da Policia. “Eles não nos causam transtorno. Inexistem dados que informem acidentes sofridos ou motivados por eles. Na verdade, eles ajudam os caminhoneiros que são parados com excesso de peso a descarregar aquilo. Torcemos para que esse problema da regularização seja sanado o mais breve possível,” finaliza o Policial Rodoviário Federal, Roberto Garcia.

Fonte: Tribuna da Bahia




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