Pátios lotados, férias coletivas

Patio Mercedes-Benz




O mês de maio começou de forma promissora para as montadoras instaladas no País. Além das negociações entre Brasil e Argentina em torno de um novo acordo automotivo, o governo brasileiro dava sinais de que anunciaria medidas para melhorar o financiamento de seus produtos. Quatro semanas depois, nada saiu do papel. Sem saída e com os pátios lotados, os fabricantes passaram a ajustar o volume de produção à demanda desaquecida e, simultaneamente, lançaram mão de ações de marketing, que incluem até a presença do presidente da General Motors do Brasil, Santiago Chamorro, na tevê, na função de garoto-propaganda.

Nos spots de 30 segundos, Chamorro oferecia aos consumidores descontos idênticos aos dos funcionários da GM na aquisição de carros da marca. A estratégia não é nova. Em 2002, o então vice-presidente da marca, José Pinheiro Neto, estampou as campanhas publicitárias para tentar sensibilizar os clientes. Na época, a GM enfrentava queda nas vendas e era iminente o risco de fechar parte de suas fábricas. A Ford também escalou, em 2001, o seu então presidente Antonio Maciel para protagonizar comerciais que exaltavam os veículos da marca. Além de colocar os executivos na linha de frente, as campanhas das montadoras estão mais agressivas, oferecendo preços menores e taxa de juros zero nos planos de financiamento.

Todo o esforço, no entanto, tem sido em vão. Até o dia 28 de maio, as concessionárias no País comercializaram 243 mil carros, uma média diária de 12.970 unidades. No mesmo período do ano passado, a média foi de 14.481 veículos, volume 11,6% maior. “A economia dificilmente vai reagir este ano para incentivar as vendas de carros”, diz o consultor e presidente do Lean Institute, José Roberto Ferro. “Vamos ter queda na produção e no mercado.” A retração tem preocupado a cúpula das montadoras que iniciaram o ano projetando uma expansão de 1,1% nas vendas, totalizando 3,8 milhões de veículos. Além da alta do IPI na virada do ano, a direção da Anfavea responsabiliza as instituições financeiras, que estariam sendo muito rigorosas na concessão de crédito.

“Os bancos não estão aqui para atender a indústria automobilística”, afirma Érico Ferreira, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (leia entrevista aqui). Nem mesmo folgas e as férias coletivas adotadas em abril pela Fiat, Renault, Toyota, Iveco, GM, Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen foram suficientes para diminuir os estoques. “Temos reuniões constantes para definir estratégias para melhorar nossa cadência de produção”, diz um executivo de uma montadora. Não por acaso, o governo já estuda um novo pacote de R$ 5 bilhões para estimular o setor.

Para calibrar o ritmo na linha de montagem à realidade do mercado, mais empresas estão adotando programas de demissão voluntária (PDVs). Na semana passada, a General Motors e a Ford abriram o mecanismo para suas fábricas paulistas. No caso da GM, segundo dirigentes sindicais, cerca de 200 empregados devem aderir ao programa nas unidades de São Caetano do Sul, na região do ABC Paulista, e em São José dos Campos, no interior do Estado. No caso do PDV da fábrica de motores da Ford, no entanto, não há uma estimativa sobre o tamanho da adesão. Além das duas montadoras, a Mercedes-Benz, de São Bernardo do Campo, está com programa aberto desde abril com intenção de enxugar o quadro de pessoal em duas mil pessoas, quase 17% do total de funcionários.

Em nota, a GM informou que a medida, que se restringe aos funcionários horistas, tem como objetivo “adequar a produção à atual demanda do mercado”. Na fábrica do ABC, a montadora produz 1,1 mil carros por dia. Já em São José dos Campos, são 800 veículos, 2,8 mil transmissões e 2,5 mil motores diários. “O que se escuta na fábrica é que haverá outro PDV para funcionários mensalistas”, diz Francisco Nunes, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul. A Ford informou que irá conceder férias coletivas na unidade de Taubaté, de 9 a 27 de junho, também para ajustar os estoques. O PDV vai se estender até o dia 4 de junho, para regularizar o ritmo de produção em função da queda dos volumes para exportação e da demanda do mercado doméstico.

Especialistas e sindicalistas ouvidos não acreditam em uma onda de demissões em massa no setor. A maioria prevê a adoção de medidas como a suspensão temporária do trabalho, o chamado lay-off, férias coletivas e paradas programadas na produção. “Demitir alguém é jogar fora a qualidade e a experiência do setor”, diz o consultor Ferro. “É muito difícil e caro formar um profissional qualificado atualmente.” O presidente do sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos, Antônio Ferreira de Barros, conhecido como Macapá, diz que a orientação da entidade é para que os funcionários da GM não entrem no PDV aberto pela montadora.

O sindicato e a empresa estão negociando benefícios referentes à participação de lucro e resultado (PLR). “Não existe excedente na unidade de São José dos Campos”, afirma Barros. “Não tem motivo para aderir ao programa.” Há 5,4 mil funcionários no local e, segundo o sindicalista, mil pessoas já foram demitidas neste ano. Segundo os especialistas, se o governo federal não tirar da cartola nenhum incentivo e mantiver mais um alta do IPI programada para o mês de julho, os fabricantes de veículos terão um ano decepcionante. E, é claro, o setor conta com a volta do crédito mais longo e barato.

Fonte: IstoÉ Dinheiro




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