Caminhões vão disputar atenção durante a Transposul

Transposul




Se a atividade econômica brasileira está em baixa velocidade na largada do segundo semestre, o setor de transporte está disposto a puxar o ritmo. Com esse ânimo, o comando da 16ª Feira e Congresso de Transporte e Logística (Transposul) adotou a estratégia básica: é na crise que se investe. A coordenação da feira projeta comercialização, na edição deste ano, abaixo do saldo de 2013. A previsão é de negócios no valor de R$ 100 milhões, ante R$ 135 milhões do ano passado (mais de 60% em venda de caminhões).

Para o Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística do Estado (Setcergs), expositores e especialistas, a meta está ajustada ao tamanho do mercado, que sente a queda de investimentos e espera o efeito Copa do Mundo e eleições passar. “Os números já são efeito do período recessivo, mas as empresas que querem vender precisam se mostrar”, avalia o presidente do Setcergs, Sérgio Gonçalves Neto.

Em mais uma edição, entre os dias 15 e 17 deste mês, no Centro de Eventos da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), em Porto Alegre, a ocupação de espaços na mostra de produtos e serviços é total, o que tem sido rotina ante as limitações de espaço físico e interesse crescente. A Transposul é considerada o maior evento do segmento após a Fenatran (Salão Internacional de Transporte), em São Paulo. Na Fiergs, serão 100 empresas expositoras, 30 delas estreantes, que apresentarão novidades em caminhões, equipamentos e autopeças e as vedetes na área de tecnologia de gestão de riscos e processos.

Neto explica que o setor enfrenta carências de infraestrutura, malha rodoviária com baixa oferta de trechos duplicados (o Estado é um dos piores, considerando as grandes economias regionais), mas precisa se qualificar para a competição cada vez mais acirrada com players globais que avançam dentro do País. Para o presidente do Setcergs, avanços nos anos recentes, como a queda na vida média dos caminhões, que recuaram de mais de 20 anos para 15 anos no Estado, são importantes. “A mudança é efeito das vendas de 2011 e 2012”, constata Neto, que ressalta os anos como os mais promissores da própria Transposul. Hoje a frota gaúcha é de 250 mil caminhões, 60% de empresas e o restante de autônomos.

O coordenador do evento, Leandro Bortoncello, também da direção do sindicato, aposta em repetir a atração de 13 mil visitantes (dado de 2013) e 3,1 mil no congresso. “Mesmo com dificuldades na economia, o interesse sobre os temas que serão debatidos e a busca por atualizar a frota continua”, ressalta Bortoncello. A feira poderia crescer pelo menos 30% em tamanho. “A feira vem crescendo, mas gostaríamos que ela tivesse o dobro do tamanho. Em quatro anos, não desenvolvemos mais nada por não ter para onde expandir”, explica Neto. O congresso da Transposul terá um time de primeira linha, que traçará cenários para a atividade de transportes e do País.

Presidente do conselho de administração da Foton Aumark do Brasil e ex-ministro no governo de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Mendonça de Barros advertirá, logo após a abertura do evento, que o ambiente de desconfiança em 2014 resume o fim de um ciclo. “Tivemos um período longo de crescimento e perdemos o fôlego nos últimos dois anos. Há distorções que precisam ser corrigidas”, assinala Barros. “Não vou só olhar o momento ruim, senão vão me chamar de maluco, pois estou implantando uma fábrica no Rio Grande do Sul”, lembra o executivo. A primeira planta de caminhões da marca chinesa Foton começa a ser erguida em Guaíba, com aporte de R$ 250 milhões.

Mendonça de Barros acredita que resultados das obras oriundas das concessões federais de rodovias e implantação de novas, um dos trunfos da presidente Dilma Rousseff, exigirão mais frota. “O caminhão que roda em pista esburacada não é o mesmo que rodará em estradas asfaltadas e duplicadas”, observa o presidente da Foton, que prevê crescimento acima de 3% em caminhões após 2017.

No Estado, dirigentes da Fiergs também reconhecem avanços com os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em novas estradas e programas de manutenção, o coordenador do conselho de infraestrutura da federação, Ricardo Portella Nunes, contabiliza R$ 9 bilhões. “Não adianta só construir estradas, a manutenção é fundamental”, diz. Estudo da Fiergs estimou que é preciso aplicar R$ 4,5 bilhões por ano para manter a infraestrutura adequada para operações logísticas locais.

Feira deste ano será palco dos novos confrontos envolvendo a indústria de caminhões

Nos carros, o mercado e os consumidores já se acostumaram. A concorrência com asiáticos veio para ficar. No terreno dos caminhões, a 16ª Transposul será palco da disputa entre as marcas tradicionais e líderes e as candidatas a ganhar terreno no Brasil, algumas como a Foton, da China. A menor projeção de vendas no ano, com expectativa de comercializar 140 mil a 150 mil unidades (ante as 160 mil de 2011, considerado o ano de ouro do setor), deve aquecer a briga também na feira, que será realizada na Fiergs. Em 2013, foram computados 479 pedidos de compra de caminhões. Neste ano, a coordenação prefere não falar em números.

Veterana de Transposul, a MAN, marca de caminhões Volkswagen, espera vender 100 unidades na edição de 2014, menos que os 150 de 2013 (receita de R$ 30 milhões). A montadora mostrará variações de linhas mais pesadas, segmentos que o gerente regional de vendas de Porto Alegre da MAN Latin America, Carlos Eduardo Rocca de Almeida, avalia que se mantêm no foco de investimentos. Almeida cita que a oferta de crédito ficou mais restrita e que diferenciais de tecnologia e automatização e maior eficiência no consumo de combustível são atrativos dos modelos da marca.

“Com novos entrantes, como Foton e outros que virão, os fabricantes precisam inovar mais. Estamos passando por uma tempestade, mas em poucos anos o mercado retoma o ritmo”, afirma o gerente. O Estado é o segundo mercado na região Sul e responde por 5% das vendas da marca no País. Até a carência de motoristas ou qualificação para dirigir veículos mais sofisticados é fator adverso na conjuntura. “Para isso, há solução intermediária, com câmbio automatizado, facilmente assimilado mesmo por motoristas ruins, garantido maior produtividade”, associa Almeida.

Estreante na Transposul, a Foton quer ocupar espaço, o que, na atual fase de demanda freada, significa tomar pedaços de outros players. Enquanto a fábrica, cuja construção começa no fim deste mês em Guaíba (na mesma área que no fim dos anos 1990 foi destinada à Ford) com previsão de colocar os primeiros caminhões de 3,5 a 10 toneladas no mercado em 2016, a marca importa modelos prontos da China.

Neste mês, a primeira carga com 100 unidades começa a entrar pelo porto do Rio Grande, operação prevista no protocolo de incentivos assinado com o governo do Estado, diz o presidente do conselho de administração da Foton Aumark do Brasil, Luiz Carlos Mendonça de Barros.

Ele, que negociou com a Foton Beiq a transferência de tecnologia, destaca que os modelos já aportam ajustados às exigências e ao perfil dos transportadores nacionais. O executivo projeta que o crescimento da demanda por variações mais leves, destinadas ao transporte nos centros urbanos, será acima de segmentos mais pesados. “É nesse segmento que entramos. O aumento deve ser de 5% a partir de 2017, quando a fábrica de Guaíba alcançará o ponto mais robusto de produção”, esclarece Mendonça de Barros. Além disso, ele revela que o grupo chinês analisa ter plantas de fabricação de versões de caminhões pesados, e até de ônibus. “Os investimentos devem se concentrar no Rio Grande do Sul.”

Fonte: Jornal do Comércio Texto de Patrícia Comunello




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