Um ano para ser esquecido

EXPEDICAO SAFRA 2014 - CASGTRO - 01/03/2014 - AGRONEGOCIO




Todo final de ano, os carreteiros que estão no trecho começam a se preocupar com a possibilidade de alguns dias de folga no período de Natal e Ano Novo, para as comemorações em família. São poucos os que conseguem planejar as viagens e parar por alguns dias, porque a maioria admite que precisa continuar trabalhando para pagar contas no final do mês. Por isso, a alternativa é levar a mulher e filhos na viagem para, mesmo na estrada, estarem juntos no Natal e também na tradicional virada de ano.

O carreteiro autônomo Flávio Luiz Pappen, 46 anos de idade e 10 de profissão, natural de Boqueirão do Leão/RS, viaja entre os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais, transportando grãos e “o que der e o frete seja bom”, no caminhão fabricado em 1995. Casado há 24 anos e com uma filha de 18, ele lamenta, mas confessa que vai passar as comemorações de Natal e Ano Novo na estrada. “Não dá pra parar, é preciso faturar e pagar as contas”, afirma.

Segundo ele, se não rodar – mesmo que seja por poucos dias – o autônomo quebra. Só quem pode tirar alguns dias de folga, ainda negociando com o patrão, é quem trabalha como empregado e com carteira assinada. E apesar das reclamações da mulher e da filha, pela ausência em datas tão especiais, Pappen garante que elas entendem que ele precisa trabalhar. E conta que já está pensando nos presentes que vai dar a elas, cumprindo o ritual de todos os anos. Para a mulher será um sofá solicitado há tempos, para a filha um telefone celular, “desses bem modernos”.

Outro carreteiro que possivelmente passe as comemorações de final de ano na estrada é Alexandre Jacques, 35 anos de idade e oito de profissão. Natural de São Pedro do Sul/RS, ele trabalha com uma carreta Iveco sider ano 2013 na rota entre São Paulo e Santiago do Chile. Lembra que dá pra contar as vezes que conseguiu passar o período de festa natalina em casa com a mulher, com quem está casado há sete anos, e com a filha de dois. Se der, conforme diz, vai levar as duas para passarem juntos, na estrada, esses dias especiais, conforme salienta. Mas, enfim, tudo depende das circunstâncias e se ficar sozinho no trecho, sempre há uma confraternização – um churrasco ou jantar mais caprichado – com outros estradeiros . Algumas vezes a empresa até patrocina uma ceia natalina quando tem motoristas na mesma rota, mas não é sempre, destaca. E, mesmo com dor no coração por ficar longe da família, caso não consiga levá-la junto, admite que essa é a sua profissão e a vida que escolheu.

Fabiano Vieira Machado, 38 anos de idade e 20 de profissão, natural de Uruguaiana/RS, trabalha como empregado em viagens pelo Estado do Rio Grande do Sul e eventualmente para outras regiões do País. Está casado há sete anos e acredita que, “pelo jeito”, vai passar as festas viajando, porque a situação está mais feia este ano e as contas para pagar não tiram férias nunca. Machado pretende se programar e levar a mulher junto com ele neste final de ano nas viagens, “senão não tem jeito,” afirma.

Aos 70 anos de idade e 42 na profissão, o carreteiro Jacir da Rosa está aposentado e mesmo assim continua no trecho rodando com uma carreta ano 1993. Natural de Pelotas/RS, ele está no segundo casamento e tem três filhos, nove netos e um bisneto a caminho, afirma que precisa trabalhar porque recebe muito pouco da aposentadoria e precisa complementar a renda. Atualmente ele roda na rota entre Uruguaiana, São Borja e Pelotas, sempre com carga certa.

Em relação ao final de ano, garante que vai passar os festejos de fim de ano com a família, aproveitar para assar uma carne e ficar próximo dos familiares mais chegados. Lembra que quando era mais jovem e fazia viagens para as regiões Norte e Nordeste costumava levar a mulher e os filhos se tivesse de ir para a estrada no período dessas comemorações. Agora, no entanto, ele se programa para ficar em casa e confraternizar com os familiares e trocar presentes, apesar da falta de dinheiro imposta pelos “tempos bicudos”.

Natural de Gramado/RS, o carreteiro autônomo André Luís Gross Nunes, 35 anos de idade e 13 de boleia, dirige o seu próprio caminhão, ano 1998, transportando cargas em todo o território nacional. Casado, pai de uma menina de nove anos e à espera de um menino para breve, promete que vai fazer de tudo para comemorar as festas de final de ano com a família. “Mas, se não der, paciência, é preciso trabalhar porque a crise está grave”, comenta. Gross conta que todos os anos, quando está em casa, é costume armar a árvores de Natal, fazer churrasco, a ceia, trocar presentes, receber os amigos, fazer visitas, tudo dentro da tradição cristã. Lembra que a situação não está fácil para ninguém, por isso é mais provável que esteja na estrada nesses dias festivos e acredita que a família vai entender.

Para o estradeiro João Francisco Amaral, 37 anos de idade e 15 de volante, natural de Uruguaiana/RS, dono de uma carreta ano 1998 com sider, e operando na rota Brasil, Argentina e Chile, o importante mesmo é ficar junto com família nesses dias sagrados. Casado há 15 anos, ele tem uma filha de dois anos, é evangélico e frequenta a igreja sempre que possível. Por ser autônomo João Francisco tem mais facilidade para planejar as viagens, mesmo assim tudo depende do volume de cargas. Lembra que a situação está apertando de uma maneira terrível e a única saída é trabalhar cada vez mais. Se ficar em casa, certamente não vai faltar a tradicional árvore de Natal, ceia, visitas aos familiares, idas à igreja e, claro, um belo churrasco. “Afinal, é uma época sagrada e para ser comemorada em família”, reafirma.

Fonte: Revista O Carreteiro Edição 482 Texto de Evilazio de Oliveira

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