COLUNA MOBILIDADE EM FOCO – CAMINHÕES SUPERDIMENSIONADOS, UM DESPERDÍCIO DE DINHEIRO

VOLVO FH 540




No segundo semestre de 2014 o Informativo WEG, entre tantas matérias, divulgou que subestações móveis de geração de energia elétrica, num projeto experimental da empresa no Sul do Brasil, seria utilizado em situações de emergência, como a geração de energia elétrica para um hospital em caso de falta de energia da rede pública, por exemplo. Com este intuito o projeto experimental testado no Rio Grande do Sul com êxito, que consistia numa subestação de geração de eletricidade, passaria a ser móvel, ou seja, poderia ser deslocado para qualquer cidade onde houvesse uma emergência. Para tanto, para o deslocamento da subestação de energia um caminhão trator/cavalo mecânico da marca Volvo foi comprado.

O caminhão escolhido para tracionar a carreta com a subestação de energia da marca WEG foi o cavalo mecânico Volvo FH 540, com cabine versão Globetrotter (teto alto) e carreta de três eixos traseiros espaçados, semelhante a uma “Vanderléia”, com mais um eixo na parte da frente da carreta, se direcional não sabemos. Não houve no release/matéria especificação se a configuração do chassi do FH 540 era 6 x 2 ou 6 x 4 (traçado) ou se apenas com cubo redutor nas rodas traseiras. Um braço mecânico também foi instalado atrás da cabine do Volvo.

Segundo a nota o mesmo se mostrou apto para o serviço nos testes realizados pela empresa, apresentando bons resultados de tração, estabilidade, aceleração rápida e frenagens seguras. O conjunto adquirido caminhão trator/carreta servirá para transportar as duas novas subestações móveis da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) do Rio Grande do Sul em toda a região de abrangência operacional da empresa, que engloba 72 municípios, 34% do mercado consumidor gaúcho. Diante do exposto vamos aos fatos, fazendo uma análise conjuntural. Primeiro não podemos deixar de mencionar o desperdício de dinheiro. Pra que comprar um caminhão Volvo FH 540 Globetrotter para tracionar uma carreta de três eixos?

Essa cultura de comprar caminhões superdimensionados no Brasil para certas tarefas é nova, começou ali pelos idos do ano de 2000. E começa gradativamente chegar ao fim. A melhor aplicação para um FH 540 é em composições bitrens de sete e nove eixos. É nesta configuração que se dá melhor o aproveitamento de toda a sua potência, da velocidade de cruzeiro e a recuperação/amortização do dinheiro investido nele, que não é pouco. Um FH 540 tinha preço sugerido em 2014 de R$ 539.000,00. Para tracionar uma mísera carreta de três eixos espaçados, com uma subestação com algo em torno de 30 toneladas de peso bastariam, e de bom tamanho, um cavalo mecânico com potência de 400 cv. Ainda mais que este caminhão vai rodar pouco nos municípios de abrangência da empresa gaúcha de eletricidade.

Da Volvo, por R$ 473.000,00, tínhamos na mesma época um FH 420 6 x 2. Economia inicial de R$ 66.000,00. Da Scania poderia ter-se optado por um R 440 Streamline 6 x 4 ao custo de R$ 445.000,00. A economia seria de R$ 94.000,00. Nos caminhões da Mercedes-Benz teríamos veículos de menor desembolso inicial ainda. Um Axor 2544 6 x 2 saia por R$ 336.132,00. A economia chegaria a R$ 202.868,00. Mas não, alegaram que em estudos o Volvo FH 540 se mostrou como o mais apto em todos os testes realizados. Espera aí. Que testes, quais simulações? O feito por vendedores de alguma concessionária Volvo alegando que o seu caminhão era o melhor do mundo, imbatível em todas as análises? Foi isso? Fizeram teste efetivo, de campo, com caminhões de outras marcas? Todos sabemos da ânsia de vendedores em sempre vender caminhões da maior potência possível na ânsia de faturamento maior e comissão a receber também mais vitaminada.

Temos inúmeros casos de aberração, de venda inadequada, da compra de caminhão superdimensionado. Já vi Volvo FH 520 com chassi de configuração 4 x 2 tracionando carreta de três eixos. Um absurdo o dinheiro desperdiçado na compra desse caminhão. Na prefeitura de Jaraguá do Sul, SC, comprou-se nos anos 90 um Mercedes-Benz LS-1935 4 x 2 para tracionar carreta pranchão de dois eixos e que mal roda 150 quilômetros por semana. Um crime o desperdício de dinheiro público empregado nesta transação, quando bastaria um cavalo mecânico de 275 cv na época. No caso do Poder Público o Tribunal de Contas da União cada vez mais tem se debruçado sobre esse tipo de assunto.

Detectou, por exemplo, desperdício de dinheiro público na liberação de verbas na compra de caminhões pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em municípios potiguares, caminhões estes superdimensionados para recolha e compactação de lixo, vocacionados para cidades com mais de 50.000 habitantes e sendo aplicados em municípios com população de 3.000 a 10.000 habitantes. Essas compras que representam uma afronta ao princípio da economicidade, caracterizando malversação de dinheiro público, precisa cada vez mais ser objeto de apreciação por parte dos Tribunais de Contas dos Estados e do Ministério Público.

No caso do Volvo FH 540 Globetrotter que vai tracionar subestações de energia elétrica no Rio Grande do Sul por 72 municípios se a compra deu-se através da empresa WEG tudo bem. É uma empresa privada que contingencia dinheiro do seu orçamento anual para aplicar naquilo que quiser. Não deve satisfações. Mesmo assim teria sido um investimento questionável. Agora se a compra do FH 540 foi feito pela empresa estatal gaúcha CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica) o assunto passa pra outra esfera, o de interesse público. Quem redigiu este malfadado Edital de Licitação que qualificou o FH 540 como a melhor opção? Que cláusulas, muitas vezes dirigidas, levaram a essa escolha que fere mortalmente o princípio da economicidade e do respeito ao erário público?

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro
Foto: Informativo WEG




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