COLUNA MOBILIDADE EM FOCO – O CAVALO MECÂNICO COM CARA DE PÔNEI DA SIRENE TRANSPORTES

mercedes-benz L-608 D cavalo mecanico




Na revista Carga, edição Nº 47, em 1988, matéria publicada a partir da página 40, se estendendo até a 43, cujo título era “O Adeus do Mercedinho”, o repórter jornalista Marco A. Souto-Maior redigiu uma excelente matéria sobre o Mercedes-Benz L-608 D, que se despedia do mercado após 16 anos de fabricação pela marca da estrela. Aliás, embora com o mesmo estilo de cabine, a versão aposentada foi o L-708D, que cedeu lugar na linha de produção aos novos L-709 e L-912, o último com motor turboalimentado. O Mercedinho foi o primeiro caminhão da categoria dos Leves no Brasil a vir de fábrica com motor a diesel, pois os seus rivais, em 1972, Ford F-400 e Dodge D-400, tinham motor a gasolina.

Por ser o mais pequeno entre os Mercedes-Benz foi apelidado de Nelson Ned, cantor que fazia sucesso na época e era anão. Com capacidade para 4.230 quilos de carga, chassi com duas opções de comprimento, 2.950 e 3.500 mm (milímetros) no entreeixos, o PBT (peso bruto total) homologado ficava em seis toneladas. Foi o Mercedinho que obrigou a Ford a sair do marasmo, pois o F-350 estava sozinho no mercado até 1969, uma década inteira, quando ganhou um concorrente, o Dodge D-400. Isso obrigou a Ford a transformar o F-350 em F-400, com chassi de 4.033 mm e capacidade de carga de 3.723 quilos.

Veja bem, por ter cabine tradicional, bicuda, o F-400 precisava ter chassi de maior comprimento, o que dificultava as manobras de estacionamento para entrega e coleta nas cidades. E o F-400, mesmo com PBT de seis toneladas, tinha capacidade de carga inferior ao L-608 D, 3.723 kg contra 4.230 do Mercedinho. E o Mercedinho ainda tinha outras virtudes, como cabine mais espaçosa para os ocupantes, maior visibilidade e possibilidade de encarroçamento com carrocerias de metragem cúbica superior ao F-400. Nos anos 70, a partir de 1975, quando o F-400 virou F-4000, o L-608 D ainda ganhou mais um concorrente, o Fiat 70.

Por ser diesel, econômico, versátil, o “powertrain” do caminhãozinho da Mercedes, tracionado pelo excelente motor OM 314, quatro cilindros em linha, aspirado, com 85 cv de potência, ganhou muitos simpatizantes entre frotistas e autônomos nos anos 70 e 80. Mas o Mercedinho que tratamos nessa matéria foi um dos mais raros já visto, filhote único até onde se sabe, ou seja, somente existiu uma unidade dele. Mercedinhos trucados, configuração de rodas 6 x 2 não são raros, existiram muitas unidades implementadas por terceiros, não era produto original de fábrica, que saia sempre tipo 4 x 2 (toco). O L-608 D da foto dessa matéria pertenceu a frota da empresa Sirene Transportes, do Grupo Hidroplás.

O conjunto cavalo mecânico/carreta com um eixo foi adquirido pela Sirene Transportes em 1987 numa concessionária da Mercedes-Benz na cidade de Avaré. O cavalo mecânico era ano 1984 e a carreta de marca Bortolotto, de Caxias do Sul, ano 1985. Antes de passar para as mãos da Sirene este L-608 D operava numa granja no transporte de ração, ovos, galos, galinhas e pintos de um dia. Era uma granja avícola destinada a produção de ovos. Na Sirene a carga a ser tracionada pelo Mercedinho passou a ser mais pesada, peças de fibra de vidro para a Mercedes-Benz, Scania e a Caio. Passou a rodar com 6.500 quilos de carga por viagem entre Botucatu e São Paulo.

Mas, segundo o motorista José Adolfo Barreto Neto, o L-608 D rodou muitas vezes com até oito mil quilos de carga, com consumo de 5,8 km/litro a 80 km/hora. Entre as modificações técnicas feitas pela Bortolotto estavam a instalação da 5º roda, diminuição do entreeixos de 3,50 para 3,18 metros de comprimento, cortando a longarina, soldando e reforçando a mesma com uma alma. Com este entreeixos e mais a carreta o comprimento do conjunto passou para 9,50 metros, com tara total (cavalo mais carreta) de 4.580 quilos, sendo 2.980 quilos para o cavalo e 1.600 quilos para a carreta. O sistema auxiliar de suspensão da cabine era composto por uma mola helicoidal, o que diminuiu consideravelmente o efeito “cabrito” quando rodava vazio, sem carga, não pulando tanto como acontecia com muitos cavalos mecânicos da época quando descarregados.

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro
Página Mobilidade em Foco: Aqui o debate é técnico




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