Onde está o irmão da estrada?




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Antigamente, quando um motorista estava com o caminhão quebrado, os que vinham atrás paravam e ofereciam ajuda. Só saiam do local quando o veículo seguisse viagem. Mas isso são cenas de outro tempo, porque hoje as coisas estão bem diferentes”. A citação acima é de um carreteiro experiente, o cearense Edmilson Agostinho Rodrigues de Lima, 61 anos, dos quais 35 passou dentro da cabine de um caminhão.

Conhecido como Capivara nas rodas de conversas de motoristas, Edmilson admite sentir saudade dos primeiros anos de profissão. De acordo com ele, naquela época havia muito respeito na estrada, o pessoal do trecho era prestativo ao extremo. “Se alguém estava quebrado se formava até fila para ajudar, mas hoje é complicado. Se você bobear passam por cima mesmo”, lembra inconformado com a mudança de comportamento de certos companheiros de volante, nos últimos anos.

Bom de prosa, enquanto aguardava carga em Rondonópolis, cidade localizada à 220km de Cuiabá, região Sul de Mato Grosso, Edmilson relembrou várias histórias das quase quatro décadas de carreira. Uma delas ele guarda com muita tristeza. “Certa vez fiquei 12 dias no Rio de Janeiro esperando alguém para me dar uma mão. Até gente da minha cidade me ignorou, fiquei lá jogado, até que consegui dinheiro e me virar, mas foi muito triste. Nunca mais vou esquecer aqueles dias”, desabafou.

O sul-mato-grossense Everaldo Pereira Albuquerque, de 39 anos de idade e 16 de volante, acompanhou as afirmações do colega e também reclamou da forma como se comporta a categoria hoje na estrada. Em sua opinião, está cada vez mais individualizada e cita como exemplo as rotas que antes eram feitas em grandes comboios e hoje não passam de dois ou três caminhões.

“Antes você combinava para sair junto com o camarada que estava indo para o mesmo destino. Juntávamos vários carreteiros e seguíamos viagem. Era bem mais seguro e mais econômico também, mas aqueles dias ficaram no passado, não existem mais”, lamenta saudoso. Ainda em sua narrativa, Everaldo acrescenta que hoje em dia uns gostam de andar mais enquanto outros preferem parar mais cedo. “Ninguém entra em acordo e todo mundo anda sozinho. Quando dois ou três caminhões estão viajando juntos é porque são da mesma empresa. Mesmo assim é difícil”, acrescenta.

Para ele, a falta de união da categoria está explicita no desembarque. “Essa hora é uma das mais críticas. Às vezes você está parado num posto, aí comenta com um conhecido que vai descarregar em tal lugar. O camarada também vai para o mesmo lugar, mas ao invés de falar ele fica calado e sai na sua frente. Tudo isso para descarregar antes de você, pegar outra carga e garantir mais uma comissão. Hoje o dinheiro fala muito mais que a amizade”, lamenta.

Outro veterano do trecho é o mato-grossense José Sacco, que começou a pegar estrada com 20 anos de idade, hoje acumula 32 de experiência e se diz um apaixonado pela profissão. O sobrenome inusitado e o bom humor fez dele uma figura conhecida em diversos pontos do País. As brincadeiras e o sorriso fácil foram deixados de lado quando a tônica da conversa foi amizade na estrada. Para Sacco, existem ainda bons companheiros na profissão, mas amizade como a de outros tempos está cada vez mais difícil. “Antigamente você parava em qualquer lugar e sabia quem era o João, o José e o Pedro. Hoje acabou, o caminhoneiro encosta num canto, vê algum conhecido, faz uma saudação, puxa papo e depois cada um segue seu rumo. Até as conversas são mais restritas”, explicou.

José Sacco que é autônomo, afirma que a falta de ética entre os colegas é muito clara, inclusive entre motoristas de uma mesma empresa. “É muita concorrência”, diz. Ele exemplifica dizendo que se o patrão entrega um caminhão novinho para um certo motorista trabalhar, ao invés dos outros admitirem que o cara é profissional merecedor do veículo, vão dizer coisas como que a mulher dele tem um caso com o chefe ou que a filha dele tem rolo com o gerente. “ E assim vai. Isso não contribui em nada, nós é que estamos perdendo”, alerta.

Há 44 percorrendo o Brasil de ponta a ponta, o carreteiro Neudi Antônio Batiston, 62 anos de idade, viveu praticamente todas as experiências dos demais colegas da estrada. Ele comenta com certa mágoa sobre a atitude de alguns colegas, que ao invés de respeitarem sua experiência na profissão fazem chacota. Diz que em certa ocasião foi corrigir um rapaz que fazia um comentário sobre caminhão e teve de ouvir que já estava na hora de se aposentar e cuidar dos seus netos. “Sinceramente, eu fiquei muito humilhado. Apenas quis ajudar, pois tenho mais de 40 anos de profissão e nunca bati meu caminhão”, lembrou.

Neudi comentou também a diferenciação que existe na estrada entre aqueles que rodam com caminhões novos com os outros que ainda estão com veículos velhos. “Os caras que chegam com carro zero se sentem no direito de tudo, não querem esperar, acham que podem tudo. Hoje, se você tem um caminhão antigo é menosprezado, diminuído. É muito triste. Tenho muita saudade dos tempos lá de trás, quando um pneu mal furava e já tinha dois, três para ajudar a trocar. Tudo que precisasse era só pedir, hoje não tem mais nada disso”, lamentou.

O autônomo de Campo Grande/MS, Celso Lima Yule, 44 anos e 24 de profissão analisa que o comportamento atual da categoria refletiu diretamente na última greve nacional de caminhoneiros. De acordo com ele, a categoria não conseguiu muita coisa porque perdeu a razão. Acrescenta que greve é para deixar o caminhão parado na frente de casa, no posto ou na empresa. “A desunião é tão grande que muitos só pararam quando as rodovias foram trancadas. Aí deixamos de ter o apoio da sociedade e com isso saímos perdendo, tudo por conta da desunião e aí estamos nós, nessa situação. O companheirismo é essencial em qualquer profissão, sem união não existe avanços”, finalizou.

Fonte: Portal O Carreteiro – Texto de Erik Valeriano




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