Roubos de carga de caminhão explodem e batem novo recorde em SP

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Era madrugada quando o caminhoneiro Kaleu da Silva Munhoz, 30, de Extrema (MG), decidiu estacionar o veículo para dormir em uma estrada vicinal de Piracicaba, no interior de São Paulo.

Foi acordado por criminosos. Feito refém, o motorista só foi liberado quatro horas depois, em Guarulhos, quando a carga de iogurte que levava (no valor de R$ 185 mil) já havia sido roubada.

Histórias semelhantes à de Munhoz, envolvendo roubo de cargas, vêm se tornando cada vez mais comuns em São Paulo. Só em agosto passado, foram repetidas à polícia ao menos 917 vezes no Estado.

Trata-se do maior número de casos registrados pela polícia em um único mês desde janeiro de 2011 —o início da série histórica do governo.

Levantamento do Setcesp (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo) mostra que, em 2015, houve 19.250 desses delitos no Brasil —44% apenas no Estado de São Paulo.

O recorde de agosto se deve à explosão dos registros em quatro das 12 regiões do Estado, entre elas a Grande São Paulo, onde os casos praticamente dobraram em comparação com o mesmo período do ano passado: pularam de 115 para 226 crimes.

Segundo o governo paulista, parte do índice se deve ao aumento dos ataques a cargas de alimentos, que cresceram 64% em comparação ao mês de agosto de 2015 -saíram de 188 casos para 309.

Para o secretário da Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, o crescimento dos roubos, incluindo os de cargas, está diretamente ligado à crise que o país atravessa.

“Tudo isso leva a crer que há um aumento em virtude da crise. Esse aumento do roubo [de cargas de alimentos] é para jogar no mercado alternativo, vendendo produto muito mais barato do que preço normal”, afirma.

Especialistas em segurança pública discordam desse diagnóstico. Para eles, o roubo de cargas é um “crime profissional e organizado”, e não praticado por pessoas eventualmente desempregadas.

“Crime profissional não aparece porque há um ano estamos numa crise”, diz o analista de segurança Guaracy Mingardi, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG que reúne especialistas do setor.

De acordo com ele, o crescimento se deve à falha no combate à receptação. “É o mesmo que ocorre com roubo de celular. Se não tiver para quem vender [diminuem os crimes].”

O diretor-presidente do Fórum, Renato Sérgio de Lima, diz acreditar que houve uma migração de criminosos para a área de cargas, assim como para ataques a carros fortes e a empresas de valores.

“Claro que pode ter um efeito indireto da crise. Efeito ou não, [o Estado] precisa reagir. Como? Investigando e reforçando a prevenção e a coordenação”, afirmou.

Lima diz que a melhor maneira de combater o roubo de cargas é usar a inteligência e ações coordenadas entre todas as esferas de governo, como ocorreu em 2006 (após os ataques do PCC), com participação da Polícia Federal e da Receita Federal.

“É preciso reforçar canais de inteligência. Quando a gente vai para o enfrentamento bélico, é sinal de que houve fracasso na prevenção.”

Para Tayguara Helou, presidente do sindicato das transportadoras de SP, o roubo de cargas não é apenas um problema de segurança pública, mas de “toda a sociedade”. É ela, diz, que acaba pagando mais caro pelos produtos.

“Quando uma carga é roubada, agrava o valor da operação logística. Isso aumenta o preço do produto ao consumidor final”, afirma.

Secretário

Para o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, o aumento dos crimes de roubos de cargas não tem ligação com a ineficiência da polícia, mas, sim, com questões macroeconômicas do país.

“Então, eu não acredito que eficiência da polícia seja motivo para esse aumento nos casos de roubos e furtos. […] O grande problema é o que venho falando nos últimos meses. O agravamento da crise, o desemprego”, disse ele no mês passado.

Para a queda dos indicadores, ainda segundo o chefe da segurança estadual, é preciso a melhora deste quadro.

“Acho que a crise já dá sinais de começar a diminuir. Esperamos que isso venha a ter reflexo nos indicadores.”

De acordo com a secretaria da Segurança, outra aposta para redução de roubos é a regulamentação da lei que prevê a cassação da inscrição estadual de estabelecimentos flagrados com produtos furtados ou roubados.
A punição ocorre mesmo sem a identificação do criminoso que roubou o produto.

“Segundo a nova regra, não só receptadores serão punidos, como já o são criminalmente, mas todo comerciante que participar da cadeia de escoamento do produto roubado para o mercado consumidor também será punido”, diz a pasta em nota.

Ainda segundo a nota, as polícias Civil e Militar mantêm operações para coibir esse tipo de crime. No mês passado, segundo a SSP, foram apreendidos “15 tablets e 99 invólucros de maconha, 331 cápsulas de cocaína, quatro veículos. Três armas de fogo foram retiradas das ruas”.

O órgão afirma ainda que, de janeiro a agosto deste ano, o Deic (especializado em roubos) prendeu 412 pessoas por receptação de carga. Outras 456 pessoas foram presas pelos crimes de roubo e furto de carga, em 315 flagrantes.

“A SSP vem desenvolvendo medidas para combater os roubos de carga em todo o Estado. Entre as ações estão a implantação de um sistema de georreferenciamento das áreas em que ocorrem esses crimes, locais onde as cargas são recuperadas e banco digital de imagens de presos envolvidos nesse tipo de crime.”

Diz ainda que foi “solicitado às grandes empresas de varejo” o registro dos EMEIS de celulares nas notas fiscais para que, em caso de roubo, o bloqueio dos aparelhos seja imediato”.

Fonte: Folha de São Paulo




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