Depois de intensos ajustes, indústria recorre às férias coletivas




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Os trabalhadores da indústria contam os dias para a custosa retomada do mercado de trabalho num 2016 que demora a passar. Se em tempos de crescimento econômico os empregados da iniciativa privada esperam com entusiasmo pelas férias de fim de ano, em meio à crise deste ano em setores de grande peso na indústria mineira, como o automobilístico e o siderúrgico, o período de descanso chega a ser visto com desconfiança e até desânimo. Mais uma parada na atividade é sinal de que a recuperação ainda vai levar tempo. Apesar dos ajustes feitos durante todo o ano nas fábricas, com antecipação de férias, lay-off (a suspensão temporária dos contratos de trabalho), o uso de bancos de horas e redução de jornada, as tradicionais férias coletivas estão mantidas.

Desde o início do ano, o setor automotivo está entre os segmentos que mais vêm adotando medidas de desaceleração para ajustar a produção à baixa demanda. Em agosto, as montadoras de veículos Fiat, de Betim, na Grande Belo Horizonte; Iveco, de Sete Lagoas, na Região Central do estado; e Mercedes Benz, de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, chegaram a adotar algum tipo de ação, como as paradas técnicas das linhas de produção. “As fábricas que lançaram mão das paradas remuneradas (o trabalhador fica em casa mas continua a receber o salário) tinham por lei 12 meses para recuperar esse tempo. No entanto, não houve aquecimento da demanda e ninguém conseguiu recuperar o custo dessa medida”, observa Osmani Teixeira de Abreu, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Segundo ele, em períodos de economia aquecida as fábricas podem postegar férias para responder à produção, o que não é o caso em 2016, segundo ano de recessão econômica.

A Fiat informou que ainda está definindo o período de férias coletivas neste fim de ano. Na Iveco, marca de caminhões e comerciais leves do grupo Fiat, a dispensa ocorrerá entre 19 de dezembro e 2 de janeiro. Na fábrica da Mercedes Benz, em Juiz de Fora, o período também está sendo definido, devendo seguir o tradicional cronograma próximo das festividades de Natal e ano-novo.

João Alves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Igarapé e São Joaquim de Bicas, calcula que entre 2015 e este ano, cerca de 10 mil demissões foram feitas no polo industrial, puxadas pelo setor automotivo. A essa altura do ano, diferentemente de períodos de crescimento econômico, as férias coletivas são vistas com certo receio e o esperado é que o prazo não seja alongado. “Os trabalhadores estão com excesso de férias, o que é uma ameaça ao emprego”, observa Alves. Segundo ele, embora o ritmo das demissões tenha desacelerado, o desemprego continua crescendo e 2017 gera incertezas sobre as contratações.

O fim de ano chega para a indústria com uma sensação de fundo do poço, mas o sentimento que parece ruim também traz alguma esperança. “Como regra, praticamente todos os setores reduziram a produção, fizeram paradas técnicas, anteciparam férias ou demitiram. Agora, a expectativa que se tem é de que a queda seja interrompida”, observa Osmani Abreu.
“Foi um ano (2016) em que o trabalhador enfrentou demissões, lay-off, acumulou banco de horas e ainda redução de jornada”, aponta Ernane Geraldo Dias, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sete Lagoas. Segundo ele, no ano passado, o sindicato homologou 3.630 demissões na região e neste ano “vai ficar muito próximo a esse número”, prevê. A expectativa do sindicalista para 2017 é de que ocorra retomada da atividade, com mais regularidade no fluxo do trabalho.

Ociosidade

O Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte, Contagem, Ibirité e Região estima que algumas indústrias vão entrar em férias coletivas em dezembro, operando com 30% de sua capacidade. “Calculamos que perdemos perto de 20 mil postos de trabalho em dois anos”, diz Geraldo Valgas, presidente do sindicato. Segundo ele, a esperança é que 2017 seja um ano menos instável. Na região de Sete Lagoas, o sindicato local conta em funcionamento 11 de 23 siderúrgicas instaladas e de um total de 37 altos-fornos, estima que 26 estão desligados.

No Brasil a indústria finaliza o ano com aproximadamente um terço de ociosidade. Em Minas, segundo sondagem da Fiemg, a expectativa dos empresários é de que nas fábricas o desemprego continue a crescer, ainda que em menor ritmo, nos próximos seis meses.

O economista e professor Sérgio Guerra, da Escola de Administração e Negócios Ibmec, aponta que o maior ajuste feito pela indústria ocorreu no ano passado, quando a tormenta no mercado de trabalho foi mais forte. Ele diz que a previsão é de que o emprego reaja de forma defasada a uma possibilidade de retomada da economia prevista para começar agora. “Alguns setores seguraram as demissões e, por isso, estão prontos para retomar o crescimento sem fazer, a princípio, novas contratações”, observa. Guerra está também convencido de que a taxa de desemprego deve continuar a apresentar crescimento nos próximos meses, impulsionada por aquelas pessoas que não estavam buscando trabalho e, agora, percebendo um aquecimento da economia, voltam a buscar ocupação.

Fonte: Estado de Minas




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