Não quero proteção do governo se eu não for competitivo, diz chefe da Mercedes-Benz

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O alemão Wolfgang Bernhard, chefe mundial de caminhões e ônibus do grupo Daimler/Mercedes-Benz, tem uma receita para tirar o Brasil da crise que não é comum entre os empresários: a abertura do mercado.

“Não quero que o governo brasileiro proteja fornecedores não competitivos e não quero que me proteja se eu não for competitivo”, disse Bernhard em rápida visita ao país. “O Brasil precisa ter condições de competir sem subsídios.”

Ele reconhece que a Mercedes se beneficiou do apoio ao setor automotivo no governo Dilma, mas diz que a economia sofre com “abstinência” quando os subsídios são retirados, porque eles apenas antecipam o consumo.

A Mercedes enfrenta sua maior crise em 60 anos de atuação no Brasil. Entre 2013 e 2016, cortou 5.000 vagas, e a fábrica em São Bernardo do Campo opera com mais de 50% de capacidade ociosa.

O executivo disse ainda que o impeachment no Brasil não foi percebido como “golpe” pela matriz na Alemanha. “Não consigo julgar se o governo Temer tem o respeito dos brasileiros, mas sei que os governos Dilma e Lula não tinham mais.”


As vendas de caminhões caem 30% no Brasil em relação a 2016. Por quê?

Wolfgang Bernhard – O ano passado foi muito ruim, e não imaginávamos que poderia piorar, mas piorou. Projetamos pouco mais de 50 mil caminhões vendidos no mercado brasileiro neste ano. As vendas de outubro ficaram em 3.000 unidades -é o mês mais fraco em 16 anos.

Vai demorar para o mercado voltar aos patamares de quando a crise começou. Leva tempo para corrigir erros estruturais. Empresas, consumidores, governo -todos precisam se ajustar.

O governo está fazendo um ajuste fiscal, que é importante para restabelecer a confiança, mas limita o espaço para política industrial. Qual é a sua opinião sobre isso?

Se o Brasil quiser se inserir no mercado global, é preciso ser competitivo sem a ajuda do governo. Não quero que o governo proteja fornecedores não competitivos e não quero que me projeta se eu não for competitivo.

Sei que há uma longa história de subsídios no setor automotivo, mas não dá para ter subsídio um ano, tirar no outro e depois voltar a ter… Precisamos de uma base confiável para tomar decisões.

A Mercedes se beneficiou dos subsídios do governo Dilma ao setor automotivo. Aquela política estava errada?

Sim, nós nos beneficiamos. Os subsídios ajudaram o mercado local por algum tempo, mas, toda vez em que são retirados, a economia tem sintomas de abstinência. Os subsídios apenas antecipam consumo, não se trata de aumento concreto de demanda. Agora estamos passando por um ajuste muito doloroso.

O setor automotivo sobrevive no Brasil sem subsídios?

O Brasil precisa ter condições de competir sem subsídios. Me deixem importar as autopeças que não posso comprar a preços competitivos. O Brasil protege os fornecedores não competitivos.

Temos muitos casos em que uma peça local é exatamente o preço internacional mais a tarifa de importação, que está quase em 20%. Isso nos torna automaticamente 20% menos competitivos lá fora.

Mas o governo protege as montadoras com uma tarifa de 35% para a importação de veículos. Essa tarifa também deveria ser zerada?

Todas as tarifas, para autopeças ou veículos, deveriam ser reduzidas lentamente. Assim as empresas terão tempo para se adaptar.

Mas é preciso um regra, por exemplo: em cinco anos, as tarifas serão zeradas. Obviamente não importaríamos tudo. Temos excelentes fornecedores no Brasil, que são competitivos globalmente.

Qual é o tamanho da capacidade ociosa de suas fábricas?

Hoje só a unidade de São Bernardo do Campo consegue produzir todos os caminhões que o Brasil compra no ano. Temos capacidade para montar 50 mil caminhões, e esse é o tamanho do mercado brasileiro para todas as empresas.

Como resolver esse problema?

Temos uma parceria de 60 anos com o Brasil, que já teve tempos bons e ruins. Planejamos no longo prazo, o que não significa que não temos que reagir as circunstâncias. Fomos obrigados a reduzir a nossa força de trabalho.

Mas o Brasil é um país jovem, rico em recursos naturais, e o caminhão é o principal meio de transporte de carga. Quando o país se recuperar, o mercado de caminhões também vai se recuperar.

Qual foi a avaliação da matriz da Mercedes sobre o processo de impeachment no Brasil?

O Brasil se desenvolveu nos últimos dez anos, mas a receita do governo anterior se esgotou. Eles falharam em tomar o próximo passo.

Como entrar no mercado global com companhias dirigidas remotamente pelo governo? Deveriam ter deixado as forças de mercado funcionar, mas não permitiram.

O resultado foi um desajuste na economia, que levou a uma enorme crise de confiança, que já durava dois anos.

Tivemos um impeachment no Brasil e muitos acharam que era um golpe. Mas, ao observar as recentes eleições municipais, é perceptível que o regime anterior perdeu o apoio da população.

O Brasil agora está indo na direção correta?

É cedo para dizer. O governo passou recentemente na Câmara uma nova lei que limita os seus gastos. Achei encorajador ter sido aprovado por grande maioria.

Qualquer que seja o governo, o mais importante é que tenha o respeito e a confiança da população. Não consigo julgar se o governo Michel Temer tem o respeito dos brasileiros, mas sei que os governos Dilma Rousseff e Lula não tinham mais.

Há sinais de que a Lava Jato pode chegar a Temer. Qual seria o impacto para os negócios?

Ninguém sabe para onde as investigações vão levar. Talvez sejam necessárias várias rodadas para emergir um grupo que consiga o respeito das pessoas. Mas, se o país tirar as lições certas, pode até entrar para o mundo desenvolvido.

RAIO-X
Wolfgang Bernhard

Cargo
Chefe mundial de caminhões e ônibus do grupo Daimler AG desde 2010; ingressou na Mercedes-Benz em 1994

Formação
Engenheiro eletricista, com MBA em negócios pela Universidade Columbia (EUA).

Fonte: Folha de São Paulo




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