O CARRETEIRO E A MISÉRIA HUMANA – Cavalo mecânico Mercedes Benz LS 1934

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Luiz deu na esposa um beijo.
Abraçou a filha e o filho caçula.
Pegaria a estrada no ensejo.
Homem de caráter que não se macula.

Embarcou no seu Mercedes Benz.
A carreta era seu ganha-pão.
Viajaria para um lugar, terra de ninguém.
Iria para o Nordeste, interior do sertão.

De cada lado do semirreboque
Duas caixas, utensílios de cozinha.
Sentiria falta do gostoso nhoque.
Para ele, prato de primeira linha.

Levava, panelas, garfo, faca e prato.
Micro-ondas e um pequeno fogão a gás.
No Mercedes Benz dezenove trinta e quatro
Carregava de tudo e um pouco mais.

Até uma pequena geladeira
funcionava com a bateria do caminhão.
Concha, colher e escumadeira,
para tirar da panela a sua refeição.

Levando carregamento variado
de secos e molhados era composto.
Arroz, feijão e todo tipo de enlatado.
A cabine, cuidada com esmero e bom gosto.

Andando pelo sertão pernambucano
em estradas de terra levantando pó.
Seu Mercedes Benz seguia soberano.
O destino era a cidade de Cabrobró.

Enquanto guiava sua carreta
pensava que em casa estava a família.
O filho Eduardo e a esposa Loretta.
Também Catarine, sua linda e amada filha.

Aquela região extremamente perigosa
onde reina o crime e não há emprego.
Luiz seguia em sua máquina poderosa.
Para chegar lá não teria sossego.

Antes de chegar naquela cidade,
parou em um posto de gasolina.
Cozinhava com toda tranquilidade.
A sua frente apareceu uma menina.

Tinha treze anos no máximo
e de Luiz começou um drama.
Para o carreteiro, momento dramático.
A menina queria fazer um programa.

Luiz levou um grande susto
e tentou entender o porquê.
Uma criança, nem tinha busto.
“Tenho uma filha mais velha que você”.

Luiz perguntou se estava com fome.
Serviu-lhe um prato de comida.
O carreteiro nem quis saber seu nome.
Talvez nunca mais a visse na vida.

A pequena comeu e repetiu o prato.
Luiz olhou-a com compaixão.
Passava fome, isso era um fato.
Para aquele homem, dura lição.

Antes de ir embora
Luiz lhe deu dez reais.
Já era bem tarde aquela hora.
O carreteiro não poderia fazer mais.

Enquanto a garotinha se afastava,
pensou qual seria o destino dela.
poderia ser a filha que tanto amava.
Situação de penúria era aquela.

No dia seguinte bem cedo
dirigindo-se para Cabrobró,
Seguia com cautela mas sem medo.
Pensava na menina e sentia muito dó.

A estrada até a cidade pernambucana
de perigos e bandidos era repleta.
Criminalidade, fruto da miséria humana.
Em rápida aproximação Volkswagen Jetta.

Mas o carreteiro era experiente
e não andava desarmado.
Um revólver levava somente.
Quarenta e quatro sempre carregado.

Luiz para a direita deu seta
e o carro ultrapassou veloz.
Aquele trecho era uma longa reta.
O Mercedes e o carro andavam sós.

Aqueles dois veículos somente
andavam naquela estrada deserta.
De Luiz, assalto não tinha em mente.
Mas com aquele carro ficou alerta.

Durante a ultrapassagem
os vidros do carro estavam abertos.
A bordo daquele Volkswagen
dois elementos alertas e espertos

Daqueles homens, viu os rostos.
Pois passaram olhando sorrateiros.
Estavam apoiados nos encostos.
Na aparência se via serem desordeiros.

Quando o carro parou lá na frente,
homens desceram armados.
Luiz tomou atitude urgente.
Daria um jeito naqueles safados.

Quando perceberam que não pararia,
dispararam contra seu parabrisa.
Luiz, o que fazer já sabia.
Mancha de sangue no ombro de sua camisa.

Levou um tiro de raspão.
mas isso não iria pará-lo.
A carreta ia em rota de colisão.
Contra o carro jogou seu cavalo.

O veículo destruído por completo.
Os bandidos conseguiram se safar.
Luiz, trabalhador digno e correto
dessa emboscada conseguiu escapar.

Luiz não esqueceria aqueles criminosos
que haviam lhe causado um ferimento.
Certamente levar seu caminhão desejosos.
Estavam a pé naquele momento.

Ao chegar em Cabrobró, pobre cidade,
foi primeiro entregar o carregamento.
Ferido no ombro com pequena gravidade.
No hospital fez curativo no ferimento.

Avisou autoridade policial.
Disseram que nada podiam fazer.
Faltava contingente de pessoal.
Não tinham como bandidos prender.

Luiz pegou caminho de volta.
Seu Mercedes com as marcas de bala.
Sua fé em Deus era sua escolta.
Criminosos não o mandariam para a vala.

Andando com toda a atenção
no trecho não houve incidente.
Parou no posto pois chegara escuridão.
Luiz era homem previdente.

Desembarcou a tralha de cozinha
e começou a preparar seu rango.
Arroz, mandioca e batatinha.
Em uma panela cozinhava um frango.

Viu aquela menina novamente.
Ela parecia estar assustada.
Luiz observou atentamente
Percebeu que estava machucada.

A menina veio em sua direção
e o reconheceu de imediato.
Pedia dele somente proteção.
Sofrera de homens maltrato.

Luiz teve mal pressentimento.
Mas a ela deu abrigo.
Na cabine do Mercedes acolhimento.
A pequena estaria oculta do perigo.

Luiz voltou ao seu fogão
onde queimava azulada chama.
A menina dentro do caminhão,
ficou escondida no sofá-cama.

Dois homens mal encarados
surgiram no pátio do posto.
Luiz com os olhos arregalados.
Reconheceu aquele par de rostos.

Eram os dois malfeitores
que tentaram assalta-lo.
A eles causaria dessabores.
Abriu a porta de seu cavalo.

Pegou o revólver prateado
e por baixo da camisa pôs na cintura.
Nos afazeres fingiu estar concentrado.
Vigiava os vagabundos aquela altura.

Os dois homens se aproximaram de Luiz.
O carreteiro permaneceu atento.
De ser descoberto estava por um triz.
Bandidos aproximaram a passo lento.

Um deles lhe perguntou sério:
“Você viu uma menina por aqui”?
Luiz o encarou, ar de mistério.
Disse simplesmente: “Não vi”.

Mas a pequena, assustada
veio no parabrisa espiar.
Por um dos homens avistada.
Queriam a ela pegar.

Quando os homens olharam com espanto
Luiz segurava a arma determinado.
Um dos bandidos que nada tinha de santo
tentou sacar em ato desesperado.

Mas Luiz estava esperto.
Sem titubear fez o disparo.
No braço do bandido, tiro certo.
A tentativa custou muito caro.

O outro tentou correr,
mas Luiz não perdeu a oportunidade.
A coisa agora era para valer.
Queria por fim naquela perversidade.

Acertou um tiro na perna do bandido.
Os dois criminosos agora baleados,
em hospital teriam de ser socorridos.
Policial chegou e eles foram algemados.

Luiz recebeu ordem do policial,
que pusesse o revólver no chão.
Os dois homens, escravos do mau,
certamente iriam para prisão.

O carreteiro deu da história a versão
e falou da tentativa de assalto.
Homens maus, ícones da perversão
agora feridos deitados no asfalto.

O policial viu que Luiz era boa gente
e que agira em legítima defesa.
Liberaria o carreteiro que seguiria em frente.
Nenhuma acusação sofreria com certeza.

Os bandidos feridos, levados presos
e Luiz que tinha bom coração.
Ele e a menina saíram ilesos.
Não a deixaria naquela situação.

Levou-a para seu lar feliz.
Poderia ser acusado de sequestro.
Mas era intempestivo o Luiz.
Não aceitaria perdê-la sem protesto.

Quando chegou em casa com a criança
sua esposa ficou sem entender.
Luiz dava á menina de personalidade mansa
chance para que pudesse no mundo sobreviver.

Quando explicou á família
ao que se sujeitava a pobre criança.
Foi aceita em casa como filha.
Para ela haveria esperança.

ROBERTO DIAS ALVARES




12 comentários em “O CARRETEIRO E A MISÉRIA HUMANA – Cavalo mecânico Mercedes Benz LS 1934

  • 27/11/2016 em 10:05
    Permalink

    Quero agradecer imensamente aos meus leitores por esses mais de mil compartilhamentos. É isso que me inspira e me motiva a escrever sobre esse tema maravilhoso que é o asfalto e o caminhão sobre ele.

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  • 21/11/2016 em 18:04
    Permalink

    essa historia mostra do que o ser humano é capaz ajudar uma pessoa que as vezes nem conhece. neste caso ele correu perigo duas vezes mas teve discernimento e com ajuda de DEUS enfrentou a situação

    Resposta
    • 21/11/2016 em 19:33
      Permalink

      Fabiano, que bom que essa historia transmitiu isso. EssA era a intenção.
      Grande abraço

      Resposta
    • 18/11/2016 em 17:05
      Permalink

      Damião, vou escrever uma história da estrada cujo personagem dirija uma 1941. Aguarde. Obrigado por comentar.

      Resposta
    • 18/11/2016 em 17:07
      Permalink

      Pois é Damião. Às vezes dá saudade daquele diferencial que cantava- característica da 1932, 1933 e da 1934. A partir da 1935 já não existia mais aquele som característico do diferencial pois houve mudança do diferencial. Obrigado por comentar.

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    • 17/11/2016 em 15:01
      Permalink

      obrigado Djalma. São palavras de incentivo como estas que me estimulam a escrever. grande abraço.

      Resposta
    • 17/11/2016 em 15:02
      Permalink

      Obrigado Vilner. grande abraço.

      Resposta
  • 17/11/2016 em 08:32
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    Essa história retrata o que a miséria pode fazer com as pessoas e principalmente com as crianças. Mas mostra também que uma atitude pode mudar a vida de alguém,
    Espero que gostem dessa emocionar e história.

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