Mobilidade em Foco – OS CAMINHÕES FNM DA FROTA DO DER DE SANTA CATARINA




Essa matéria utiliza como uma das fontes o livro que descreve a história da Estrada de Lages e mais a colaboração dada pelo engenheiro civil Antônio Carlos Werner, que foi Diretor Geral do DER (Departamento de Estradas de Rodagem de Santa Catarina), nomeado pelo governador Antônio Carlos Konder Reis, com atuação de 15 de março de 1975 à mesma data de 1979. Neste período o engenheiro Werner conheceu a história do trajeto rodoviário entre Florianópolis, no litoral, a Lages, no planalto catarinense. Nesta função ele se dedicou para a viabilização da implantação definitiva da rodovia BR-282, propulsora do desenvolvimento socioeconômico daquela região. Antônio Carlos Werner dedicou quase toda sua vida profissional a estudar, projetar e construir estradas de rodagem.

Formado em 1955 pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná, exerceu inicialmente o cargo de Engenheiro Residente do DER e foi também responsável pela construção de trechos da BR-101. Foi ainda titular de escritório particular de planejamento e projetos, professor de disciplinas na área de transportes na Universidade Federal de Santa Catarina e Diretor Geral do DER/SC. Após, foi posto à disposição do Ministério dos Transportes para o exercício da função de Coordenador dos Corredores de Exportação de Santa Catarina, tendo se aposentado como engenheiro civil após todas essas atividades. A estrada que ganhou impulso justamente no governo Konder Reis é antiga. Como surgiu a idéia dessa ligação rodoviária?

Para descobrirmos os motivos de sua construção retrocederemos ao século XVIII. Com a fundação das freguesias de São José da Terra Firme e São Miguel, a imigração açoriana estimulou o desenvolvimento do litoral catarinense. A agricultura tomou impulso, a pesca abundava e as indústrias manufatureiras produziam e supriam as necessidades da sociedade da época. A algumas centenas de quilômetros do litoral se situava os Campos de Lages e, nele, a próspera Vila de Nossa Senhora dos Prazeres das Lagens. Fundada em 22 de novembro de 1766 por Antônio Corrêa Pinto de Macedo, sua fundação cumpriu determinação do Governador da Capitania de São Paulo. Com vasta extensão territorial, a economia era baseada no comércio de gado, já que se localizava nas margens do trajeto Sorocaba-Viamão. No entanto uma situação prevaleceu desde aqueles tempos.

E que eram as dificuldades impostas pelas Serras do Mar e Geral, fazendo com que os habitantes da Vila de Lages e regiões próximas permanecessem sem ligação rodoviária com a capital catarinense. Mesmo assim Lages prosperou a olhos vistos como centro regional de criação e venda de gado e da extração e beneficiamento de madeira, provenientes dos milhares de hectares cobertos com araucárias (pinheiros). Neste contexto começou a ser planejada a Estrada Desterro-Lages. A conveniência da ligação entre as Vilas de Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e de Nossa Senhora dos Prazeres das Lagens teve como um dos objetivos a união do litoral ao planalto serrano, facilitando o transporte de pessoas e de mercadorias por um caminho mais curto do que pelo litoral Norte e o Vale do Itajaí.

Para tanto, o Capitão-Mor regente em Lages, Antônio Corrêa Pinto de Macedo, após reiterados apelos conseguiu que o Coronel Pedro Antônio da Gama de Freitas, então governador da Capitania de Santa Catarina, ordenasse em 1776 que o Tenente José Luiz Marinho, chefiando um grupo de desbravadores, abrisse uma picada exploratória em direção ao planalto serrano. Partindo da foz do Rio Cubatão, o tenente chegou, inclusive, a elaborar um mapa em que constava o itinerário seguido e a localização de campos além da Serra Geral, cuja jurisdição passou a reclamar o governador catarinense. Eram os campos de Lages e estava sendo povoado por paulistas. Em 1777 ocorreu a invasão da ilha catarinense pelos espanhóis, fator que evidenciou a necessidade urgente da abertura e implantação de novas e estratégicas estradas na capitania. Mas as dificuldades eram de tamanha magnitude que a abertura da picada-mestre só foi retomada 10 anos depois, em 1787. No fim da década de 1880 deu-se início à implantação da estrada de rodagem ligando Desterro a Lages. Não encontrei dados, mas acredito que a estrada de chão batido, macadamizada, ligando Florianópolis a Lages, apta ao tráfego de autos, exista desde 1930.

Foram construídos os primeiros 50 quilômetros até Teresópolis, no Vale do Cubatão, por ordem do governador Augusto Fausto de Sousa. A obra não teve prosseguimento nos governos seguintes, ficando parada de 1889 até 1894, quando o governador Hercílio da Luz reiniciou as obras. E novamente, por motivos diversos, o prosseguimento de abertura da estrada ficou paralisado por 60 anos, de 1894 a 1954. Jorge Lacerda, nos anos em que governou o Estado (1956 a 1958), determinou a realização do projeto para pavimentação com asfalto da estrada que liga Florianópolis a Lages via Alfredo Wagner e Bom Retiro. A coordenação da obra coube ao engenheiro civil Antônio Carlos Werner, em junho de 1957. Meses depois o governador falece e a conclusão da estrada sofreu nova interrupção.

E é justamente neste espaço de tempo que entram na matéria os caminhões FNM e as minhas observações. Naquela época a frota do DER/SC era bem superior a de hoje e este órgão tocava inúmeras obras, abrindo estradas, macadamizando, alargando e abrindo curvas fechadas com o objetivo de aumentar o campo de visão e a segurança, além de diminuir os ângulos dos aclives e declives. O DER dos anos 60 e 70 era um órgão com grande poder de atuação em todo o Estado, com frota própria, motoristas, mecânicos e pessoal de apoio. Sua frota era composta por pás carregadeiras, patrolas (motoniveladoras), tratores de esteiras, caminhões tanque e muitos caminhões com caçambas basculantes. Eu, quando criança nos anos 70, conheci o canteiro de obras situado em Ponte Canoas.

Este canteiro de obras abrigava vários caminhões FNM D-11000 com cabine tipo Standard, chassis com configuração de rodas tipo 4 x 2 e equipados com caçamba basculante com fominhas. Sim, elas já existiam naquele tempo. As cores das cabines dos possantes iam do branco, verde escuro, verde limão, até o azul. Todos com fabricação entre os anos de 1965 a 1973. A base deles ficava no Distrito de Canoas, mas do outro lado do rio Canoas, já no município de Lages e não em Bom Retiro. Isso foi nos anos de 1974 a 1977. Além dos FNM havia também um Mercedes-Benz LP-321, cabine de cor azul, chassi 4 x 2, tracionando caçamba basculante. E que, apesar da potência inferior, não dava moleza para os possantes FNM naquela íngreme e sinuosa estrada intermunicipal.

Essa estrada que liga Lages a Florianópolis, passava por Índios, Bocaina do Sul, Piurras, Ponte Canoas, Irapuá, Mangueirão, João Paulo, Águas Claras, Bom Retiro, Alfredo Wagner, Águas Mornas, Palhoça e, por fim, Floripa. E não era pavimentada na época, apesar de ser a ligação mais curta entre Lages e a capital catarinense. Do canteiro de obras também faziam parte dois tratores de esteiras, um Allis-Chalmers e um Fiat. As pás carregadeiras, duas, eram Clark Michigan. Esta base estava aos pés de uma serra com macadame de boa qualidade, no lado lageano do rio Canoas. Mesmo sendo criança a minha paixão era ver os caminhões FNM e Mercedes passarem em frente a casa dos meus pais, além de observar o trabalho dos tratores de esteiras e das pás carregadeiras.

E não só observei, os motoristas eram todos gente boa e davam carona pra todos que pediam. Eu passeei um monte a bordo destes FNM do DER. De Ponte Canoas rumo a um local chamado Mangueirão, onde desembarcava pra ir para a casa da minha avó paterna e de Ponte Canoas rumo a Rio Rufino, onde morava uma tia, irmã da minha mãe. Para qualquer uma dessas localidades a distância era de 7 km. Viajei em todos eles, desde os de cabine de cor branca, verde escuro, verde claro, amarelo ocre e azul. Detalhe, neste período eu era criança. Mas já era apaixonado por caminhões. E fazia mil perguntas. Peguei carona ainda nos Fiat 180, 210, 130 e 140, entre Canoas, Rio Rufino e Rio de Areia. Viagens que se estenderam aos Chevrolet D-60 com motores Perkins e Detroit.

Embarquei ainda nos Ford F-700, F-350, F-100 e F-75, Jeep Universal e 101, Kombi, Mercedes LP-321, 1113, 1313, 1513 e 1519, e Scania 111. São recordações inesquecíveis. A frota de FNM do DER teve a incumbência de macadamizar e diminuir a sinuosidade da estrada que ligava Ponte Canoas a Bom Retiro, com 45 km de extensão. E depois os 7 km entre Canoas e Rio Rufino, indo ainda até Urupema, subindo uma serra cujo aclive era de dar medo. E os FNM deram conta do recado, dia após dia, do verão ameno até os dias gelados do inverno, de geadas de congelar poças d’água e a água encanada. Hoje, muitos anos depois, lendo e relendo, pesquisando, muitas coisas aprendi sobre os FNM que tive o prazer de viajar tantas vezes.

Tempos nostálgicos que não voltam mais, mas eternamente presentes na minha mente o ronco de seus motores, como era o interior de suas cabines, cada motorista decorava de uma maneira. De um dos “motoras” o seu nome jamais esqueci, era chamado de Pistoleiro, usava lenço no pescoço, chapéu e se vestia a moda gaúcha. Diziam que era perigoso e andava sempre armado. Mas um ás no volante naquelas estradas de curvas fechadas e subidas e descidas de tirar o fôlego. Devo confessar que uma das minhas predileções é recordar dessas viagens, onde cada reta e cada curva das estradas ainda se encontram gravadas na minha mente. Jamais esqueci. E jamais confessei isso a alguém, é a primeira vez que confesso que sempre me imagino guiando estes possantes por aquelas estradas.

Pra finalizar, não sei porque macadamizaram aquela SC, já que em 1977 começou pra valer a construção do traçado final, terraplanagem e pavimentação da BR-282, trechos de Bom Retiro a Alfredo Wagner; e de Lages, passando por Índios, Bocaina do Sul até Bom Retiro. O novo traçado relegou ao abandono a antiga SC que por tantos anos foi a principal via de ligação entre Lages e Bom Retiro. O declínio da estrada marcou também a decadência econômica do Distrito de Ponte Canoas e de Irapuá. O primeiro, vilarejo de pujança econômica nos anos 50, 60 e 70, com serraria de grande porte (do meu avô materno), hotel, armazém, depósito e fábrica de móveis de vime e centenas de habitantes. Até os ônibus das empresas Reunidas e da Rex deixaram de circular, não havia mais passageiros a serem transportados entre Lages e Florianópolis e Lages e Urubici.

A BR-282, trecho ligando Lages a Bom Retiro foi inaugurado em 1983. A última fase de pavimentação foi inaugurada em 14 de janeiro de 2002. Assim encerramos este relato que contabiliza um pouco dos mais de 200 anos do início da abertura da estrada que, de uma simples trilha de tropeiros passou a estrada carroçável e, por fim, pavimentada. Lamentavelmente, grande parte dela, do antigo traçado, encontra-se abandonada e em desuso, outra parte utilizada apenas por quem mora nas proximidades. Neste contexto, os trechos ligando Ponte Canoas a Irapuá, Mangueirão, Serra do Cupim e João Paulo, além de outros trechos, passaram de uma estrada SC de importância ímpar a uma mera estrada vicinal utilizada por moradores ao longo da mesma. E que são cada vez menos. Muitos já morreram e outros tantos mudaram para outros locais em busca de melhores oportunidades. Este relato mescla então um pouco da história dessa artéria rodoviária histórica com a valentia dos caminhões FNM que tanto trafegaram por ela.

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro

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