Cumplicidade e companheirismo até na boleia do caminhão




Maria Odete Adão Pereira e Saul Sombrio Pereira são casados há mais de meio século e mantêm firme a parceria de vida. Ela tem 72 anos e é natural de Torres, no Rio Grande do Sul. Ele, 79, nasceu em Braço do Norte. Casados há 57 anos, Odete e Saul têm um astral de colocar muitos jovens no chinelo, como se diz no popular.

Já trabalharam na lavoura, mas foi no caminhão que tiraram o sustento da grande família que construíram. Seu Saul foi caminhoneiro por 32 anos e dona Odete o acompanhou em muitas viagens, inclusive com os filhos a tiracolo. O casal tem seis filhos, 16 netos e quatro bisnetos, além de mais um a caminho. Orgulho é o que não falta a eles por todo o esforço feito para dar estudo aos herdeiros e mantê-los sempre unidos.

– Nesses mais de 32 anos na estrada, sempre viajavam os dois?
Odete – Não. Enquanto eu tinha filho estudando, na época de aula eu ficava sempre em casa. Quando eles pegavam férias, a gente colocava os filhos todos dentro do caminhão e ia viajar. Passávamos as férias por aí, no Norte, no Nordeste. Depois que eles terminaram os estudos, há cerca de cinco anos, antes de ele parar fiquei direto na estrada.

– Como começou a história de vocês na estrada?
Odete – Nossa vida começou bem devagar. A gente trabalhava na roça lá no Rio Grande, onde casamos, ficamos morando no terreno do meu pai, onde fizemos uma casa. A gente que tirou a madeira do mato para serrar e fazer a morada. Quem fez fui eu e meu tio. Eu serrava e ele pregava. Desde que casei, eu fui na frente. Ele trabalhou toda a vida, criei os filhos tudo sozinha. Ele só vinha em casa e voltada.
Saul – Eu tinha que dar conta para pagar as contas.
Odete – Temos seis filhos, cinco formados na faculdade e a mais velha pegou a herança do pai dela, é caminhoneira. Ela fez o segundo grau, casou com um caminhoneiro, começou a viajar com ele e depois a trabalhar com ele. Agora, ela anda de caminhão sozinha para um lado e ele vai para o outro. Hoje (a entrevista foi feita na última terça-feira), ela está lá no interior de São Paulo carregando açúcar. O segundo filho, Romário, é formado em Educação Física. A terceira, Cida, é professora, está quase se aposentando. Depois tem o Marcionei, formado em Ciências Contábeis e que hoje tem um depósito de bebidas. A Ceilin é formada em Farmácia. O mais novo, Saul, é Médico.

– E toda a formação deles foi bancada com o dinheiro conquistado na boleia do caminhão?
Odete – Tudo que a gente conquistou veio do caminhão. No começo, quando a gente comprou esse terreno aqui (eles moram na comunidade de Rio Bonito, em Braço do Norte), ele já tinha caminhão, foi fazer frete e eu comprava casca de acácio e vendia. Eu andava com um Fusquinha por tudo quanto é morro comprando e vendendo. Pagamos o terreno com casca de acácia. O lucro ia pagando o terreno. Trabalhamos a vida inteira.
Saul – Todos os filhos estudaram bem. Sofremos um pouco para pagar as faculdades, mas valeu tudo a pena.
Odete – Ele teve que trabalhar dia e noite, graças a Deus nunca se feriu em nenhum acidente.

– Hoje se vê tantos assaltos. Naquela época era muito mais tranquilo…
Odete – Era bem mais traquilo. podia dormir no posto de porta aberta, se quisesse. Hoje não dá mais. Tem mais bandido nas estradas.
Saul – Os bandidos estão por tudo. As pessoas não podem nem mais sair com nada na mão.

– Nunca foi assaltado?
Saul – Nossos caminhões já foram roubados nas mãos de motoristas, mas eu nunca fui alvo de assalto.

– Então vocês estão aposentados, mas continuam no ramo?
Odete – Quando o filho mais novo se formou na faculdade, ele disse que o pai não precisava mais trabalhar. A gente tinha um caminhão bem bom na época. Nosso fillho disse que a gente teria uma vida mais tranquila e está acontecendo. Hoje não temos preocupação financeira. Não temos dívidas para pagar.

– Chegaram a ter mais de um fillho cursando o ensino superior junto?
Odete – Não. Felizmente, teve um espaço entre eles.

– A senhora dirigia também, dona Odete?
Odete – Eu era mais companheira mesmo. Mas já dirigi muito, lá pelo Nordeste/Norte, de Recife para Belém. Até teve uma história engraçada. Encontramos um casal de amigos num domingo meio-dia. Íamos de Recife para Belém. Resolvemos fazer almoço juntos, tinha cozinha no caminhão. Enquanto as mulheres faziam o almoço, eles bebiam umas. Eles iam para Recife e nós para Belém. Saímos de lá, o Saul pegou o caminhão e não andou 100 metros. Bem num trevo, ele pulou para o lado e disse para eu pegar porque não conseguia mais. Tive que pegar o caminhão andando e dirigir a tarde inteirinha (risos).
Saul – Fazíamos muita arte (risos).

– Falando em bebida, hoje fala-se muito do uso de drogas por caminhoneiros. Como era naquela época?
Saul – Eu viajei 32 anos e não sei a cor que tem esses produtos.
Odete – Naquela época já tinha muito arrebite.
Saul – Agora eu quero renovar a minha carteira e tem o teste toxicológico. Nunca precisei fazer um teste desse.

– O senhor considera importantes esses testes toxicológicos?
Saul – Por um ponto é bom. Tendo essa cobrança, muitos vão pensar duas vezes antes de usar. Do jeito que está indo…

– Com uma família tão grande, cabe todo mundo na hora do almoço (risos)?
Odete – Nossa família tem 37 pessoas. A mesa que temos já nem chega para todo mundo. Muitos dos netos já são casados e vem todo mundo.

– Qual o segredo para um casamento duradouro?
Odete – O segredo é bem simples: se um não aturar o outro, nao vive. Hoje, o que está acontecendo com a maioria dos casais, na minha opinião, é que cada um quer ter a sua liberdade, não quer ceder nada, e o casamento, para durar, não é assim. A minha mãe sempre dizia que se um está bravo o outro tem que se acalmar. Ela dizia para encher a boca de água que daí não falava e não brigava (risos). Mas claro que em todo casamento existe alguma briga, isso é normal. Hoje em dia, muitos casamentos não estão durando porque já casam pensando que se não der certo separam. Ninguém quer ser subordinado ao outro, é claro. No casamento tem que ter uma parceria, eu tenho que ceder e ele também. Eu nunca admiti que um mande no outro. A gente tem que ser companheiros. Casamento é isso, um respeita o outro. Se eu não respeitar meu marido, nós não vamos viver bem. A mesma coisa ele, não pode querer dar ordens. Um concorda com o outro.
Saul – Tem que ser assim, porque nós homens somos muito errados. A mulher pensa mais na família. Temos que agradecer pela família que temos. Drogas e banditismo existem em tudo que é lugar, e graças a Deus nunca ninguém precisou falar dos meus filhos. As amizades deles eram só com gente boa.

– Como era no tempo de caminhão e o que mudou de lá para cá?
Saul – Cansei de chegar em casa domingo de manhã e sair domingo de tardezinha. Mas valeu a pena, não nos falta nada.
Odete – Quando eu fui viajar com ele, cinco anos antes de ele parar de trabalhar, aí já tínhamos colocado um turbo clima, que naquela época era a coisa melhor do mundo. No começo, tínhamos um ventiladorzinho. O turbo clima era uma maravilha, só que quando desligava o caminhão não podia deixar ligado a noite inteira, porque acabava a bateria. A gente deixava um pouco e depois desligava. Ainda bem que a gente podia dormir até com as portas abertas, mas se fosse hoje já não dava mais. Hoje, a ‘motoristada’ tem todo o conforto do mundo. Eles têm geladeira, ar-condicionado. Ao chegar perto de um caminhão hoje, se sente até um frio que vem por baixo da porta. Na nossa época era um bafo de calor que vinha.

– Eles têm mais conforto, mas em compensação falta segurança. Vocês curtiam mais as viagens, pode ter certeza…
Odete – As viagens eram um passeio para nós. Quer ver quando eu tinha os quatro filhos mais velhos. Tenho um irmão que mora em Torres ainda, que era caminhoneiro também, e quando a gente o encontrava na estrada ele logo falava: “Lá vem o Saul com a creche dele” (risos). Quando começava a descer os filhos, não parava mais (risos).

– Quanto tempo vocês chegaram a ficar sem se ver?
Saul – Eu tive seis meses longe. Tinha que pagar o caminhão. Eu podia vir em casa só quando terminasse de pagar o caminhão. Mas mandava o dinheiro certinho.

E como vocês se falavam?
Odete – Por telefone. Mas era lá no vizinho. Naquele tempo, era bem diferente, a gente passava até um mês sem conversar. Era caro e eu não tinha telefone em casa. Daí a gente usava o do vizinho. Para conseguir colocar telefone em casa, tivemos que pagar a linha para vir do centro de Braço do Norte até aqui, era um dinheirão. Mas foi necessário, pois era um meio de a gente se comunicar mais fácil. Ele parava muito na estrada. Eu fiquei com quatro filhos nove anos. Quando engravidei e ganhei a Ceilin, resolvi fazer a ligadura (das trompas) para não ter mais filhos, porque eu já tinha cinco. No dia que fui fazer a cesária, tinha quatro mulheres e de noite colocaram todas na fila. Duas eram para ligar e duas não. Ligaram a pessoa errada e me deixaram sem. Eu vim embora achando que estava tudo certo. Um ano e três meses depois, comecei a desconfiar, comecei a vomitar. Um dia o Saul estava viajando e eu não tinha carro na época, peguei um ônibus para Tubarão e fui consultar com o médico que me ligou. Quando ele me viu na porta do consultório, já arregalou os olhos. Eu estava abatida. Daí ele já puxou histórias do Estados Unidos, de que erros aconteciam, e me levou pra fazer um teste. Quando fui pegar o resultado, a moça já veio e meu deu os parabéns quando me entregou. Voltei no médico e desabei, briguei com ele e voltei embora. Meu filho costuma dizer que é teimoso, porque veio sem querer e ficou muito doente, teve meningite com 1 ano e 3 meses. Nós nunca interferimos nos estudos dos nossos filhos, cada um fez o que quis. O mais novo disse que se não fosse a Medicina não ia fazer mais nada. Mas era tão difícil passar… e caro. Ele passou e a mensalidade era R$ 1,8 mil já naquela época. Como é que iríamos dar conta? A gente apertou, ficamos devendo coisas do caminhão para pagar a faculdade dele. Os outros filhos também ajudaram. No primeiro ano depois que ele se formou já colocou nossas contas todas em dia. Assim que ele pegou o diploma, começou a trabalhar e também pagou o que ficou da faculdade. Quando faltava dois anos para ele se formar, a gente não conseguiu mais. Passou para R$ 3 mil por mês. Daí fizemos o Fies, que ficou para ele pagar metade depois. Ele juntou dinheiro e depois pagou tudo à vista. Graças a Deus, minha família é unida.

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