Oportunidade longe de casa

Fazer o que se gosta e ser bem remunerado é o desejo de todo profissional de qualquer categoria, inclusive dos motoristas de caminhão. E a dificuldade de atingir este objetivo tem levado muitos carreteiros a buscarem melhores oportunidades e condições de trabalho em outro continente, como a Europa, por exemplo, para onde seguem em busca de uma nova chance para alcançar sonhos que pareciam improváveis no Brasil.

“Estou em Portugal desde 2000 e tenho me empenhado cada vez mais para aumentar as minhas raízes e formar a minha família”, disse o carreteiro Laércio Ribeiro Silva, que há cinco anos faz transporte para o Correio português. Ele é um dos idealizadores da “Família Buscapé”, grupo formado por motoristas brasileiros que organiza encontros, festas e até uma revista. Por meio do rádio PX, mais de 150 carreteiros mantêm contato e deixam a rotina um pouco mais ao modo brasileiro.

Realizado na profissão, Laércio lamenta que a realidade do carreteiro no Brasil esteja muito distante da ideal e conta como alguns serviços facilitam no dia a dia da profissão na Europa. “Hoje, praticamente não há dificuldade nem para trocar um pneu, pois a maioria dos caminhões possui assistência técnica durante as viagens, um direito garantido no contrato de compra do veículo”, diz. Além deste tipo de serviço, os motoristas têm direitos trabalhistas garantidos, leis de trânsito que funcionam e estradas em ótimas condições. Isso sem contar a organização dos portos e fronteiras, condição praticamente ignorada no Brasil com as longas e absurdas filas.

O piso salarial de um carreteiro em países como Espanha e Portugal é formado por um fixo de 800 euros mais 12 cêntimos (centavos da moeda européia) por quilômetro rodado. Na média, a remuneração final é de 2500 euros, valor em torno de R$5.700. A carga horária ao volante é controlada por tacógrafos digitais e limitada de acordo com a legislação de cada país. Em geral, as leis permitem ao motorista dirigir nove horas diárias durante seis dias. No sétimo ele é obrigado a parar o veículo por 24 horas. Na Suécia, por exemplo, após quatro horas e meia de direção, o motorista deve parar 45 minutos para descanso. Caso ultrapasse em mais de 15 minutos o tempo ao volante, recebe multa em torno de mil reais e pode perder a carteira de habilitação. Diferenças consideráveis das leis brasileiras.

Um dos exemplos mais emblemáticos desse choque de realidade na profissão é a história do casal, Elezane e Alex Souza. Eles revezam ao volante para transportar carga fria pelos principais países do Oeste Europeu, enquanto no Brasil esposas de carreteiros são proibidas de entrar com os maridos em algumas empresas. Atualmente, o casal vive em Tudela Navarra, na Espanha, e não esconde a satisfação de dividir a boleia. “A melhor parte do trabalho é poder conhecer lugares, culturas e pessoas diferentes juntos e ainda receber por isso”, afirma Alex.

Embora a solidão seja atenuada pela união até no trabalho, a saudade é uma das maiores dificuldades para o casal. Por não suportar mais morar longe da família e dos amigos, Elezane faz planos para o futuro. “Vamos voltar para o Brasil ainda este ano para construir nossa casa e comprar um caminhão”, confidencia. Esse desejo da carreteira é comum entre a maioria dos entrevistados. Geralmente, as pessoas ficam cinco anos, fazem uma bom pé-de-meia e retornam ao Brasil com o objetivo de abrir o próprio negócio ou comprar um caminhão. Decisão determinada, na maioria dos casos, pela “imensa” saudade dos familiares.

Para o motorista Rafael Motta Mendes, que roda quatro mil quilômetros por semana, transportando peças de automóveis por toda a Europa, a saudade de casa não transpõe a realidade. “Sabemos que a vida ainda é muito difícil no nosso País. A situação precária da saúde e da segurança pública mostra que o Brasil precisa evoluir muito. Quando se tem uma família é preciso pensar em tudo. Então, vamos ficar aqui por enquanto”, afirma referindo-se à família. Rafael destaca ainda que exercer a profissão na Europa tem outros benefícios, que vão além da remuneração e da carga horária. “Aqui estão os melhores caminhões em tecnologia e conforto. É muito difícil você ver um modelo com mais de sete, oito anos de uso. Além de praticamente não existir serra ou pistas esburacadas, o que diminui muito o risco de acidente”, opina.

Quem pretende morar fora do Brasil deve obter visto de trabalho ou de residência, de acordo com as exigências de cada país. Apenas dessa forma é possível ter acesso a bons empregos e direitos trabalhistas. “Os motoristas não devem permanecer ilegalmente nos países ou se deixar enganar por propostas de trabalho sem os devidos documentos. Aqui a fiscalização existe”, aconselha Rafael.

Os interessados devem também ficar atentos ao cenário econômico do lugar que planeja viver. Vários países da Europa, por exemplo, passam por uma crise que afeta vários setores, inclusive o de transportes. “As ofertas de trabalho caíram muito e, por consequência, os valores do frete. Os governos também estão mais exigentes com relação à documentação para liberar os vistos de trabalho”, avisa o motorista Valmir Ferreira Martins, um dos mais experientes membros da “Família Buscapé”. Ele trabalha como agregado e transporta frutas e verduras do sul da Espanha para o norte da Europa, passando por países como Alemanha, Inglaterra, Itália, Áustria, Eslovênia, Bélgica, Holanda e França. Diferente da maioria dos motoristas, Valmir diz ficar 30 dias na estrada e apenas cinco em casa. “Mas o tempo ao volante nunca ultrapassa o permitido por lei”, garante.

Fonte:
O Carreteiro

“Sou do mundo”, dizem os caminhoneiros apaixonados

“Meu pai é caminhoneiro. Meu tio é caminhoneiro. Meus três irmãos são caminhoneiros. Eu tenho paixão por ser caminhoneiro, mas sou uma exceção: gosto do que faço”, diz Eloir Antonio Sbardelotto, de 28 anos.

Sentado na cabine de um caminhão Mercedes, em um posto de combustível à beira da “Rodovia da Morte”, a Régis Bittencourt, o trecho da BR-116 que liga São Paulo à Curitiba, Sbardelotto tem entusiasmo pela profissão que adotou mesmo antes de completar 18 anos.

Diz que já rodou todo o Brasil. “Caminhoneiro é turista de periferia, conhece todos os lugares onde são feitas as entregas de cargas”, diz. Para completar em seguida: “Eu, não. Gosto de saber os costumes locais e o que se come em cada região”.

Com o primeiro grau completo, Sbardelotto chega a tirar R$ 4 mil nos melhores meses do ano, quando a safra precisa ser escoada pelas estradas e os caminhoneiros costumam dobrar ou triplicar sua remuneração. “Há muito médico que não tira isso”, compara, dizendo que chega passar dia sem dormir para cumprir a entrega de cargas.

De acordo com o sindicato dos caminhoneiros autônomos, o salário médio da categoria varia entre R$ 900 a R$ 1.300.

Há dois anos, Sparbelotto deixou a esposa, sua namoradinha desde a adolescência, para trás, em São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, onde nasceu.

No início, ela acompanhava nas viagens de caminhão, mas cansou da vida, de dormir na boléia e tomar banho em posto de gasolina. Pediu para ele deixar a estrada. Ele não quis.

“Sou do mundo”, afirma.

Sonho frustrado

Tiago Marciano dirige um caminhão Mercedes 1113 desde os 18 anos. O veículo foi fabricado em 1976, 13 anos antes de ele nascer.

“Segui a profissão do meu pai, que também tem caminhão”, afirma o jovem de 22 anos, que tentou ser mecânico.

“Mas não deu. Não conseguiu estudar”, antes de fazer uma entrega numa fábrica de produtos de limpeza às margens da Rodovia Raposa Tavares, em Cotia e voltar à Valinhos, ambos municípios em São Paulo, distantes a 100 quilômetros.

Entregas internacionais

O argentino Damian Molina, caminhoneiro há 21 dos seus 38 anos, costuma fazer a rota entre a Grande Buenos Aires, onde nasceu, até a Grande São Paulo, “puxando” – como se diz na gíria das estradas – cargas de autopeças, produtos de higiene e limpeza e máquinas.

Com residência em Paso de los Libres, na fronteira da argentina com o Rio Grande do Sul, Molina tem cinco filhos gerados em três casamentos. “É uma profissão muito dura. Ninguém aguenta ficar longe da família. Minhas mulheres já me mandaram embora várias vezes.”

Filho de caminhoneiro, ele dá preferência a correr grandes distâncias. “Para nós (argentinos), é mais fácil transportar cargas internacionais”, conta.

“Como se fica três a quatro dias esperando na fronteira para desembaraçar as mercadorias, a gente costuma ganhar diárias. Já os caminhoneiros brasileiros, não. A maioria ganha uma comissão por frete. Para eles, dia parado é prejuízo.”

Molina diz que na Argentina vive também uma falta de caminhoneiros, mas que as empresas pagam três vezes mais do que no Brasil, algo equivalente a R$ 6 mil por mês.

Ele aponta a organização sindical como um dos fatores que fortalece a profissão na Argentina.

Fonte: IG