Uma carga apreciada

Para atender as exigências do mercado, o vinho produzido na região da Serra Gaúcha, que há décadas era distribuído em garrafas, barris e corotes de madeira, passou a ser transportado em carretas com tanques de aço inox de grandes capacidades de carga

Durante muitos anos o transporte de vinhos produzidos na região da Serra, no Rio Grande do Sul, para os principais centros consumidores do País, era feito em pequenos caminhões. Distribuída cuidadosamente em caixas contendo as garrafas com os vinhos mais finos, o restante da carga ficava em garrafões de cinco litros, corotes (pequenos barris) e em barris com capacidade de até 100 litros. Como algumas cantinas também vendiam o produto para engarrafadores de outras localidades – que tinham marca própria – era comum ver nas estradas serranas os caminhões com pipas de madeira, que costumavam deixar um cheiro forte da bebida por onde passavam. Com as novas exigências do mercado, esse tipo de transporte foi substituído por um dinâmico sistema de logística que utiliza modernos caminhões com enormes tanques de aço inox e grande capacidade de carga. O transporte agora é mais abrangente, incluindo outras bebidas, como a cerveja.

Antônio Mioranza considera o transporte agora mais abranjente, pois inclui outras bebidas

Antônio Mioranza considera o transporte agora mais abranjente, pois inclui outras bebidas

Em Flores da Cunha, município localizado a 150 quilômetros de Porto Alegre – e considerado o maior produtor de vinhos do Brasil – a Alpes Transportes Ltda. nasceu e cresceu em meio a parrerais e cantinas da região. Hoje, com 20 caminhões, as rotas incluem todo o território nacional, Mercosul e Chile, conforme explica Antônio Alvise Mioranza, 73 anos de idade, e um dos donos da empresa. O começo – lembra – foi em 1961, quando comprou um Chevrolet para transportar vinhos para o Rio de Janeiro. O negócio deu certo e logo ele convocou os irmãos Maximiliano e Gabriel para abrirem a sua própria cantina. Nascia a Sociedade de Bebidas Mioranza Ltda. e, em 1979 começava a operar a Transmioranza, com três caminhões, e que em 1990 transformou-se em Alpes Transportes, em homenagem aos pais e avós, imigrantes daquela região da Itália.

Daniel dos Santos, que já havia dirigido carreta graneleira e ônibus, diz que pegou o jeito de dirigir caminhão com tanque

Daniel dos Santos, que já havia dirigido carreta graneleira e ônibus, diz que pegou o jeito de dirigir caminhão com tanque

Gabriel Ângelo Mioranza, 63 anos e 36 de estrada – lembra que a frota possui certificado de capacitação 27C, faixa laranja que indica transporte de bebidas alcoólicas e produtos alimentícios, exigência do INMETRO para identificação do tipo de produto transportado. Todos os caminhões são equipados com tanques cilíndricos e isotérmicos de aço inox. Em viagens de longa distância, a variação térmica dentro dos tanques pode chegar, no máximo, a 2°C. Transporta exclusivamente líquidos destinados à industrialização de bebidas e alimentos: álcool, vinho, maltes, aguardentes, sucos e destilados. Além disso, segundo Gabriel Mioranza, a frota é renovada a cada três anos.

Para manter os caminhões em operação, Gabriel Mioranza buscou saída no transporte de biodiesel nos seus caminhões equipados com tanques inox

Para manter os caminhões em operação, Gabriel Mioranza buscou saída no transporte de biodiesel nos seus caminhões equipados com tanques inox

Salienta que os motoristas passam por treinamento e cursos para transportes. Assim o serviço torna-se profissional, honesto e seguro. Garante que os profissionais são pessoas idôneas, com experiência na área de transportes e responsáveis pelo produto que transportam.

Com isso surge a grande dificuldade em conseguir no mercado bons motoristas, que estejam dentro do padrão de qualidade exigido pela empresa. Todavia, garante que o pessoal da casa é muito valorizado e só sai se quiser. Cita o exemplo do estradeiro Leonildo Rachelli, 56, e que está na empresa há 36 anos. Dirige um Volvo 2008 no transporte nacional e internacional. “É uma pessoa de total confiança”, afirma. “Conhecemos todas as manias dele e ele as nossas”.

Para garantir o crescimento pessoal e profissional, Nildomar Gehrke tem vários cursos necessários para o motorista e pretende fazer outros

Para garantir o crescimento pessoal e profissional, Nildomar Gehrke tem vários cursos necessários para o motorista e pretende fazer outros

Apesar de uma retração de até 70 por cento nas vendas de vinhos nas cantinas, e de 20 por cento no transporte – em razão da chamada Lei Seca, e a mais recentemente da crise econômica que tem afetado a economia mundial – Gabriel continua otimista. Vai procurar alternativas para manter os caminhões da Alpes rodando. Pensa na utilização dos tanques de aço inox no transporte de biodiesel e na ocasião já estava em negociações para explorar esse segmento do mercado. Por isso, continua preocupado com a questão de encontrar motoristas realmente capacitados para o trabalho.

Daniel dos Santos da Costa, o Meio Turno, 32 anos e 10 de estrada, é um dos novos contratados. Natural de Antônio Prado/RS, ele tinha experiência como motorista de ônibus e carreta baú em viagens do Sul para São Paulo e Rio de Janeiro. Garante que está tranquilo e já pegou o jeito de dirigir caminhão com tanque. Acredita que exige um pouco mais de cuidado, manter a velocidade e cuidar do controle da temperatura no termostato, de acordo com a carga, e depois “é só mostrar resultado para os patrões que tudo dá certo”.

Outro novato na Alpes Transportes é o Tuca, como é mais conhecido Nildomar Acélio Gehrke, 28 anos, nove de profissão e há cerca de um ano no cargo. Ele é natural de Arroio do Meio/RS e já dirigiu caminhões graneleiros. Tem todos os cursos necessários para a profissão, mas pretende se manter sempre atualizado com as novas tecnologias e os novos caminhões que vão entrando no mercado. Para isso, sempre que possível quer fazer novos cursos “para garantir o crescimento pessoal e profissional”, conforme enfatiza.

A Sociedade de Bebidas Mioranza Ltda. está entre as cinco maiores cantinas do município de Flores da Cunha, com uma produção anual de sete milhões de litros de vinhos, distribuída para consumidores de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Brasília. “Alguma coisa vai para os Estados Unidos e Alemanha”, segundo Antônio Mioranza. Ressalta que pelo menos 15% da produção é vendida a granel para engarrafadores do centro do País. Gabriel Ângelo Mioranza lembra que, além desse volume, os caminhões da Alpes também transportam vinhos de outras cantinas da região, e também outros tipos de bebidas. “Afinal, é preciso manter a frota rodando”.

Fonte: Revista O Carreteiro