Estrada Assombrada – Mercedes-Benz LS 1929 6×2

MB-LS-1929-1983..

Eram quatro da madrugada
Dirigindo dezoito horas sem parar.
A sua mente não assimilava nada.
Só pensava que tinha de chegar.

Seu velho cavalo mecânico vermelho,
Dezenove vinte nove, barulhento.
Pé colado, no bruto chegando o relho.
O olhar cansado vendo tudo cinzento.

O antigo Mercedes trucado
puxava a carreta com facilidade.
Mais um rebite foi tomado,
Manter-se acordado, a dificuldade.

Na beira da pista uma aparição.
mulher, com roupa resplandecente.
Sentiu gelar seu coração,
viu do caminhão ela entrar na frente.

Seu corpo todo arrepiado.
Fechou os olhos por um instante.
Sentiu, sentada a seu lado,
aquela mulher com roupa brilhante.

Ele não conseguia lembrar
de ter parado seu caminhão
Nem de ter visto ela entrar.
Pensou ser uma assombração.

Em completa letargia
parecia que estava sonhando.
O que fazer não sabia
Ela foi logo falando:

“Você tem trabalhado demais
e sua mulher está preocupada”.
“Seus filhos não o vêem mais,
A caçula está gripada”.

Você precisa ficar mais tempo
junto com sua família.
No trabalho, contratempo
o afasta dos filhos e da filha.

“Você não tem descansado
vai acabar morrendo”.
“Correndo e sempre apressado
seu caminhão acabará batendo”.

Mesmo aterrorizado
pensou no que ela dizia.
Ele realmente estava esgotado
Como de tudo isso sabia?

Ela continuou dando-lhe sermão:
“Drogas não aumentarão sua resistência”.
Terminou fazendo uma afirmação:
“Eu sou a voz da sua consciência”.

Ela não parava de falar
e ele sentido-se culpado.
Finalmente a voz resolveu parar
e ele pensou em olhar de lado.

Não havia mais ninguém.
E ele teve um palpite.
Decidiu não ir além,
Jogou fora o vidro de rebite.

No acostamento parado,
Desligou seu estradeiro.
No sofá-cama deitado.
Dormiu de babar no travesseiro.

Dormiu doze horas seguidas.
Acordou totalmente recuperado.
No seu bruto deu partida,
e foi para o trecho aliviado.

Entregou o frete naquele dia.
Para casa rumou então.
Foi motivo de grande alegria
quando estacionou seu caminhão.

Em cada filho um abraço.
Na esposa apaixonado beijo
A ela deu seu braço,
olhando-a com amor e desejo.

Brincou com cada filho
com a esposa fez amor.
Amanheceu no olhar com um brilho,
e um contentamento avassalador.


Roberto Dias Alvares

Travessia perigosa – MAN 6X4‏

0205cajumanTGX 28_440(1)[1]

Aquela era uma manhã
enevoada e cinzenta.
Dirigindo meu caminhão MAN
vinte seis quatrocentos e quarenta.

A noite fora chuvosa,
saí do Rio Grande do Sul.
Levando carne, carga preciosa,
Dois reboques, carreta baú.

Cavalo mecânico traçado,
carretas protegidas por lacre.
O carregamento seria levado
ao longínquo Estado do Acre.

Passei por Santa Catarina
e a chuva caia persistente.
Ora forte, ora garoa fina,
O caminhão seguia em frente.

A cabine muito espaçosa,
tornava a viagem produtiva.
Mesmo naquela pista chuvosa
fazia uma condução precisa.

Cavalo e carreta, o conjunto
estavam colados no chão.
No PX pondo em dia o assunto,
conversando com colega de profissão.

Passando pelo Paraná,
a chuva continuava sem parar.
No destino, até chegar lá
tinha muito asfalto para rodar.

No PX e pela televisão,
das notícias, a derradeira.
O norte e toda a região,
sofria com enchente do Rio Madeira.

Estradas alagadas
impediam a passagem.
Mesmo não estando interditadas,
não era possível seguir viagem.

Eu seguia esperançoso
que a chuva diminuísse.
Teria de ser corajoso,
se passar eu conseguisse.

Para o Acre, principal ligação,
quatro pontos de alagamento.
Como passaria com caminhão?
Pensava nisso no momento.

Nas paradas para descansar,
conversava com outros caminhoneiros.
Diziam que lá não iria chegar,
Tudo alagado e cheio de atoleiros.

Durante a noite dormia bem
Cabine-leito cinco estrelas.
Conhecia belas mulheres também,
e marcava encontro para revê-las.

A mulher conseguiu emancipação,
também nesta terra brasileira.
Conheço várias que dirigem caminhão.
Tem no sangue a vocação estradeira.

Mantenho com elas contato,
pelas estradas nos encontramos.
Para a conquista talento nato.
Nas paradas, na cabine namoramos.

Apesar da dificuldade,
me divirto trabalhando.
Sou um homem sem vaidade,
pela vida sempre lutando.

Para o Acre a rodovia,
estava alagada de fato.
Mesmo assim, tentaria,
mas não parecia sensato.

Para atingir objetivo proposto
de chegar logo ao Estado Acreano,
completei o tanque no ultimo posto,
e aquela lâmina d’água fui encarando.

Não conseguia ver a pista.
Havia água por todo lado.
Eu já estava pessimista,
de ter a rodovia encarado.

Até onde alcançava a vista
água para todo lado.
Mostrei ser audacioso motorista,
segui firme no cavalo trucado.

Onde não tinha alagamento,
havia sempre atoleiro.
Para trabalhar, um tormento,
dificuldade pra este caminhoneiro.

Outros companheiros da estrada
com seus caminhões atolados.
Carretas só saiam rebocadas,
por tratores caminhões eram puxados.

Apertei apenas um botão.
e deixei o cavalo preparado.
No terceiro eixo a tração.
Acelerei firme o meu pesado.

Para todo lado voou lama.
patinava pneus dos eixos traseiros.
O meu MAN justificou a fama,
arrancando aplausos dos caminhoneiros.

O cavalo MAN mostrou potência,
arrastando os reboques frigoríficos.
Saí de lá com competência.
Meus objetivos eram específicos.

Tinha de chegar rapidamente
Pois o produto era perecível.
Chegar ao destino era urgente.
Não sabia se seria possível.

Saí daquele atoleiro
enfrentando pista alagada.
Era assim o tempo inteiro,
Não enxergava o piso da estrada.

A chuva havia parado
mas o rio Madeira não baixava.
jogando água pra todo lado
rumo ao Acre continuava.

O trecho era vencido
eu já estava animado.
Mas finalmente fui detido
Ponto não podia ser atravessado.

A água cobria a pista logo adiante.
Já ia a quatro metros de altura.
Parei em local isolado e distante
que não tinha nenhuma estrutura.

Esperar a água baixar
era o único remédio.
O tempo demorava passar
Jogava truco pra espantar o tédio.

Improvisamos um banheiro
para conseguir tomar banho.
Passávamos o tempo inteiro,
em uma paciência sem tamanho.

Uma semana ali parado,
de água, um metro e meio.
O piso não fora danificado.
passar logo era meu anseio.

Combustível sendo consumido
para manter a refrigeração.
Finalmente, passar foi conseguido.
Cheguei do outro lado do ribeirão.

Iria chegar bem atrasado.
Naquelas circunstâncias, compreensível.
Rio Branco, capital daquele Estado,
cheguei já quase sem combustível.

Em grande supermercado
A carne seria descarregada.
Mas o local fora inundado,
Não podia ser desembarcada.

Mais dois dias ia esperar
até que o lugar estivesse pronto.
Armazenamento da carne iriam pagar,
e pelo atraso não haveria desconto.

Precisava abastecer o bruto.
A situação era terrível.
No posto, diesel nobre produto
não havia este combustível.

A noite no restaurante
bela garçonete me atendeu.
Mulher de meia idade, elegante.
Que eu a paquerava, percebeu.

Eu já não era nenhum menino.
Com mulher, era uma pessoa esperta.
Ser solteiro, achava, era meu destino,
Talvez não encontrara a pessoa certa.

Nos dedos não tinha aliança.
Ela sorria ao me ver olhar.
Isso deu-me esperança.
quem sabe não acabara de encontrar.

Quando terminei o jantar
Ela veio recolher meu prato.
Falei se com ela poderia conversar.
Um “Sim” respondeu-me no ato.

Quando ela terminou o expediente
eu a esperava do lado de fora.
Ela disse boa noite ao gerente,
E eu a levei embora.

O cavalo desengatado
serviu então de carruagem.
Eu tinha ali ao meu lado,
mulher que parecia uma miragem.

Conversamos sobre tudo
Ela era tão inteligente e bonita.
Tinha uma pele de veludo.
Prestava atenção em cada palavra dita.

Uma hora da madrugada
conversar com ela, tão bom.
No rádio, uma música era tocada.
Me encantava com ela e com aquele som.

Pediu-me para levá-la a sua residência.
Fiquei muito animado,
Não convidou-me a entrar, paciência.
Para o outro dia, encontro marcado.

No outro dia, a espera,
o combustível quase no fim.
A situação que boa não era
ficou mais complicada pra mim.

Dois dias não foram suficientes
para a limpeza do supermercado.
Balcões frigoríficos ineficientes.
Continuaria com a carne carregado.

O caminhão em funcionamento
para ativar a refrigeração.
Não tinha como fazer abastecimento.
Faltava diesel e reinava a confusão.

Aquela bela mulher, reencontrei.
Fomos passear após o jantar.
Falta de combustível com ela comentei.
Problema da cidade iria agravar.

O tanque já na reserva,
poderia perder todo carregamento.
Carne congelada e em conserva.
Era urgente fazer abastecimento.

Ela me disse àquela altura,
que seu pai, um homem incrível,
usava todo o óleo da fritura
e o transformava em biodiesel.

Pedi a ela se poderia
com seu pai conversar.
Respondeu-me que no outro dia
a ele iria me apresentar.

Aquela mulher bela
com olhar cheio de mistério
disse-me com voz singela
que queria compromisso sério.

Fiquei meio assustado
Com aquilo que ela me disse
Eu, um solteiro inveterado,
achava casamento uma tolice.

Mas tenho de confessar
Seu encanto me pegou
Queria ao lado dela ficar
Até parece que me enfeitiçou.

No dia seguinte bem cedo
Ao seu pai ela me levou.
Chamava-se senhor Alfredo.
Minha presença ali ela explicou.

Todo óleo de cozinha usado
em biodiesel ele convertia.
Boa quantidade tinha armazenado.
Perguntei-lhe se me vendia.

Ele disse que para vender
dependeria da minha resposta.
Com a filha dele o que eu ia querer.
Se pedido de namoro era a proposta.

Fiquei bem embaraçado
e ela olhou-me envergonhada.
Disse que gostaria de ser seu namorado
e que ela me acompanhasse na estrada.

Disse-lhe que chegara o momento
de assumir um compromisso.
E pedia a ele o consentimento,
pois sofrera do amor um feitiço.

O pai dela acreditou em mim.
E deu sua permissão.
Vida de solteiro chegava ao fim.
Teria companhia no caminhão.

Comprei todo o estoque
de biodiesel que ele tinha.
Uma parte levaria no reboque.
Dois mil litros de óleo de cozinha.

Fiquei sem dinheiro completamente
Na carteira nenhum tostão.
Mas apesar disso, estava contente,
cheios os tanques do caminhão.

Os reboques descarregados
encontrar carga seria difícil.
Onde fretes podiam ser encontrados
escritório da transportadora em edifício.

A enchente trouxe prejuízo
o comércio paralisado.
Achar carga era preciso,
Só partiria carregado.

Congelada polpa de açaí.
Castanha do Brasil e borracha.
Com esta carga, de lá saí.
Dia seguinte pus-me em marcha.

Não viajava sozinho.
Bela acreana ia a meu lado.
Conversávamos pelo caminho.
Dirigindo meu MAN trucado.

Ia baixando o Rio Madeira
Devagar ia rodando.
mas quedas de barreiras,
faziam-me ir parando.

Ela me dando apoio.
Sentia forças pra prosseguir.
Ponte de madeira sobre arroio
passava o bruto com risco de cair.

Eram tantos buracos
que a viagem não rendia.
Não era lugar para fracos.
Ali, não se sobreviveria.

Já no Centro-oeste
por Mato Grosso passando
Rumando para o Sudeste,
com meu cruzador rodando.

Não fosse da cabine o conforto
seria maior o cansaço.
Faltava muito para chegar ao porto
mas confiava no meu cavalo de aço.

Após viagem cansativa,
a bordo de meu potente dino.
O carregamento da cooperativa,
entregava no destino.

Após um mês viajando,
retornaria para o Norte.
Ela o tempo todo apoiando,
Ao seu lado sentia-me forte.

Sempre que desejava,
Fazia para seu pai ligação.
Em mim ela confiava
Me entregara seu coração.

Acre, retornei àquele Estado.
Viajei com sol brilhante.
Ia muito bem acompanhado.
Levava um raro diamante.

A estrada muito melhor
do que a um mês atrás.
Cada quilômetro conhecia de cor
chegar com rapidez seria capaz.

Quando cheguei em Rio Branco
levei-a até o pai dela.
Pagamento do frete depositei no banco.
Saímos para jantar, eu e ela.

A bordo do meu pesado
Ia feliz como uma criança.
Lá sacramentei nosso noivado.
Pus em seu dedo uma aliança.

Saí para outra jornada
Ela ficou em sua cidade.
Deixei lá minha amada,
razão da minha felicidade.

No meu retorno seria marcado
a data do nosso casamento.
Meu MAN potente e trucado.
soberano na pista de rolamento.

Esta viagem foi pequena.
Retornei logo em seguida.
A travessia perigosa valeu a pena
pois conheci a mulher da minha vida.

Roberto Dias Alvares

Vida na Estrada: Repórter mostra flagrantes de uso de drogas por caminhoneiros

vida na estradaPara reduzir o tempo das viagens, os caminhoneiros abusam das drogas, principalmente cocaína, metanfetamina e rebite. O vício se estende por todas estradas do País e, em alguns casos, é alimentado por esquemas de distribuição em postos de gasolina. Acompanhe os detalhes na reportagem de Eduardo Ribeiro.


Fonte: Jornal da Record

Histórias de um carreteiro 3

MErcedes-Benz LP 331

A chuva cai com intensidade.
Batendo no asfalto, enxurrada.
Caminhão moderando a velocidade,
Puxa sua carga pela estrada.

Belo cavalo mecânico trucado.
Imponente com seus dez pneus.
Mercedes Benz LPS dourado,
levando no reboque os sonhos meus.

A dirigi-lo, me vejo e imagino.
Enfrentando perigos sem medo.
Brincava de carrinho quando menino.
Agora eu dirijo o brinquedo.

Transportando combustível:
Gasolina, querosene ou etanol.
Também pode ser óleo diesel.
Debaixo de chuva ou de sol.

Fazendo transporte de areia
ou até carregando cimento.
Soja, trigo, milho, arroz, aveia.
ou qualquer outro mantimento.

Leva uma carga de madeira,
Entregá-la logo no destino.
Na subida o motor pede primeira.
Dirigi-lo, brincadeira de menino.

A chuva então aumenta.
Mais rápido o vai-e-vem do limpador.
Qualquer carga, meu caminhão aguenta.
Aperto o pedal do acelerador.
A velocidade já passando dos noventa.
Sobe o giro do motor.

Dois escapamentos apontam pra cima.
Joga para o alto a negra fumaça.
Meu caminhão, uma obra prima,
Levando o progresso por onde passa.

Cortando a noite escura,
Ligo também os faróis de milha.
O possante suavemente murmura.
Corrijo o volante, o caminho certo trilha.

Eis que surge de repente
Carro veloz põe-se a meu lado.
Alguém grita insistente,
vejo que está armado.

Homem dentro do carro
uma arma então aponta.
Com o caminhão nele esbarro.
Escapando desta afronta.

Seguro firme o caminhão,
Tentando fugir do perigo.
De repente uma explosão
era o carro do bandido.

No posto policial,
aviso do acontecido.
O motivo porque afinal
no carro havia batido.
Perdeu a vida um marginal,
que tinha me perseguido.

Poema de Roberto Dias Alvares

Uma corrida para o Norte

caminhao_atoladoEnquanto o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) financia a construção de terminais nos portos de Mariel, em Cuba, e Rocha, no Uruguai, a BR-163, que liga Cuiabá-MT a Santarém-PA, virou um lamaçal nesta época de chuvas na Amazônia. Mesmo assim, as empresas nacionais e multinacionais que trabalham com o agronegócio tentam escoar boa parte da supersafra do Centro-Oeste por esse que há muito tempo deveria ser um dos mais importantes corredores logísticos do País, pois inclui o aproveitamento da hidrovia Tapajós-Amazonas.

Se a estrada já tivesse sido asfaltada, os ganhos de frete, tempo e eficiência logística seriam muitos – cerca de 35% – , em comparação com o percurso que a maioria dos caminhões faz em direção aos portos de Santos-SP e Paranaguá-PR, enfrentando o dobro de tempo e rodovias e vias de acesso à zona portuária completamente congestionadas. Em compensação, os caminhões que optam pela direção Norte têm de enfrentar riscos de derrapagens, quebra de peças, atoleiros e ainda o dobro do tempo que a quilometragem exigiria se a viagem fosse feita em asfalto.

É claro que a pavimentação da BR-163 já resolveria grande parte dos problemas, mas o percurso não termina na rodovia de terra batida porque os caminhões precisam seguir até Miritituba, distrito de Itaituba-PA, onde o transbordo da carga é feito para barcaças que descem o rio Tapajós até os portos de Santarém-PA e de Vila do Conde, no município de Barcarena-PA, ou ainda Santana, no Amapá. De terminais, a carga é transferida para navios Panamax que seguem para a Europa e Ásia.

Mesmo sem a contrapartida do governo federal, empresas como a Bunge e a Cargill têm investido em terminais na região. Algumas, é verdade, até congelaram investimentos, já que esperam o asfaltamento da BR-163 há quase duas décadas. Mas, seja como for, levando em conta o potencial dessas multinacionais, com certeza, a médio prazo, o que se prevê é que o escoamento de grãos passará a ser feito majoritariamente pelo Norte do País.

Obviamente, essa seria a solução para os congestionamentos que ocorrem na região Sudeste à época da safra do Centro-Oeste.

Por outro lado, é preciso avaliar bem se os terminais graneleiros que o governo federal pretende licitar na área da Ponta da Praia, no porto de Santos, terão em cinco ou dez anos a demanda dos dias de hoje. Afinal, as previsões indicam que até 2020 o Centro-Oeste deverá estar escoando 40 milhões de toneladas de grãos por ano. E a tendência é que esse escoamento seja feito por modal fluvial. O que é vê hoje é uma preparação para um rush em direção ao Norte, que só não ocorreu ainda por falta de ação do governo federal.

Texto de Mauro Lourenço Dias é engenheiro eletrônico, vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Motorista flagrado com “rebite” pode ser indiciado por tráfico de drogas

???????????????????????????????A Polícia Rodoviária Federal (PRF) promete agir com mais rigor para tirar de circulação os motoristas que dirigem usando misturas para combater o sono. Os caminhoneiros admitem que usam os chamados rebites para seguir viagem, mas alguns tipos dessas substâncias são proibidas pelo Ministério de Saúde e se flagrado o motorista poderá reponder por tráfico.

Um caminhoneiro, que prefere não se identificar, revela que faz o uso da substância. “Se não chegarmos pontualmente com a carga, há vários descontos. Então o jeito, é tomar esses remédios para conseguir dirigir por mais tempo e entregar a carga. Principalmente as cargas com verduras, tem que ser entregue de forma mais rápida”, disse o caminhoneiro.

De acordo com a PRF existe uma rede organizada de comercialização deste tipo de substância e os principais distribuidores são os próprios motoristas. Mas, a pessoa que for flagrada pode responder criminalmente.

“O motorista que for flagrado utilizando terá a carteira apreendida e responderá na área criminal. Podendo até ser preso por tráfico de entorpecentes, já que alguns desses medicamentos constam na lista do Ministério da Saúde, como substâncias proibidas”, informou o chefe de policiamento da PRF, inspetor Tony Carlos.

O neurologista Sabry Batista explica os riscos à saúde e a segurança de quem usa as substâncias. “Além do risco eminente de infarto, há um grande risco de acidente, porque essas substâncias causam episódios de micro sono, que duram segundos. Esses ataques de sono são suficientes para proporcionar um acidente se o condutor estiver, por exemplo, em uma curva ou realizando uma ultrapassagem”, disse Sabry Batista.

O caminhoneiro Antônio de Sousa Santos revela que já fez o uso desse tipo de droga, mas parou há alguns anos. “Sentia o coração palpitar mais forte, ficava agitado e com a pressão alta”, conta Antônio.

Fonte: G1

Entrevista com Luiz Carlos Xavier de Oliveira, o caminhoneiro brasileiro no gelo canadense

Entrevista com Luiz Carlos Xavier de Oliveira, o caminhoneiro brasileiro no gelo canadenseNatural de Ubatuba-SP e atualmente vivendo em Calgary, Província da Alberta, Canadá, Luiz Carlos trabalha na Westcan Bulk Transport, com um Mack Pinnacle 2009, transportando cimento, cal, fertilizantes, sal para estradas no inverno, explosivos, combustível e outros, em uma carreta Silo pneumática, além de outros implementos, pelas Provincias de British Columbia, Alberta, Saskatchewan e Território Norte.

Com 47 anos, trabalha há 23 com caminhões, e começou a carreira influenciado pelo pai e pelo irmão mais velho, para conhecer lugares e pessoas. Viajava com o pai nas férias escolares, assim adquiriu certa experiência na estrada. “Depois, foi fácil o resto”, disse. Depois de perder o pai, resolveu seguir os passos dele. Quando vivo, o pai era contra, não queria que Luiz trabalhasse com caminhões, mas a paixão falou mais forte.

Luiz viajou para os Estados Unidos, onde trabalhou em construção civil e panificação, e posteriormente trabalhou com outro brasileiro para começar com caminhões. Depois de certo tempo trabalhando na América do Norte, voltou para o Brasil e chegou a uma conclusão: “Não gosto da maneira como somos tratados no Brasil. Isso eu falo em relação a empresas e aos próprios caminhoneiros mesmo”.

A principal diferença entre o Brasil e o Canadá, de acordo com Luiz, é a organização das empresas e a responsabilidade de todos em relação ao transporte. Com quase sete meses de inverno, o Canadá faz com que o transporte de cargas seja muito solitário. Apesar de ser um país de primeiro mundo, as estradas, em sua maioria, são de pista simples e muito apertadas.

Para trabalhar no Canadá, além de conhecer o caminhão e saber dirigir bem, o candidato tem de ter inclinação para mecânico, além de coragem e boa saúde. Com temperaturas que chegam a 40º Celsius negativos no inverno, por muitas vezes o caminhoneiro precisa sair da cabine, para colocação de correntes nos pneus para vencer o gelo das montanhas, tanto subindo quanto descendo.

Ice Roads

Vista de uma Ice Road canadense

Outro problema no transporte é o enfrentamento das Ice Roads, estradas criadas sobre o gelo, onde o transporte é feito no inverno antes do degelo, quando as estradas ficam perigosas demais pelo gelo fino, ou simplesmente desaparecem. As estradas do gelo são tão cruéis com os motoristas, que muitos simplesmente desistem do trabalho, e nesta época do ano, sobram bitrens carregados, que precisam ser levados ao destino final antes do degelo. Agora, Luiz está transportando explosivos entre Calgary e o Território Norte, Yellowknife. Lá o implemento carregado é deixado para que seja transportado pelas Ice Roads até os destinos finais. No final da temporada de inverno, Luiz faz viagens nas Ice Roads, para auxiliar no transporte das cargas antes do degelo.

Um grande problema enfrentado nas estradas canadenses são os motoristas sem preparo para enfrentar o gelo, que acabam se envolvendo em acidentes. Apesar de não serem tão comuns, Luiz conta que, dependendo do destino da viagem, cada saída de casa é uma despedida.

A solidão é outro grande problema nas estradas do Canadá. Luiz brinca: “É mais fácil falar com um urso ou um alce”. Em contrapartida, sobra qualidade nos postos de combustível e áreas para descanso, que não são muitas, mas que tem banheiros e chuveiros, geralmente muito limpos. Para tomar um banho, se abastecer não paga, mas se precisar pagar o valor não ultrapassa os 10 dólares.

Quanto ao descanso, Luiz nos conta que dirige por no máximo 13 horas, e sempre descansa 8 horas. Porém a lei obriga que não se dirija mais que 70 horas em 8 dias, e é necessária uma folga de 36 horas depois desse período. Caso não dê tempo de chegar em casa, a empresa paga alojamento e mais um bônus de 150 dólares por essas 36 horas.

No geral, Luiz passa no máximo 15 dias fora de casa, e geralmente está em casa nos finais de semana. Na temporada em que trabalha nas Ice Roads, acontece de ter de ficar até 8 semanas fora de casa, onde a empresa fornece alojamento com restaurante e lavanderia, mas a saudade aperta, e é algo que Luiz tem que administrar muito bem.

Quanto ao uso de drogas ao volante, Luiz diz que é um problema existe no Canadá, assim como no Brasil, porém, lá o caminhoneiro passa por exames antidoping antes de começar a trabalhar, e também são escolhidos aleatoriamente pela empresa para realizar o exame. Se recusar fazer está demitido, se der positivo também. E isso é inserido na carteira de motorista, como um histórico. Para todas as empresas em que o motorista tentar uma vaga vai aparecer essa condição, por isso, um caminhoneiro que foi flagrado nos exames como usuário de qualquer tipo de droga, dificilmente vai conseguir um bom emprego novamente.

A imprudência no trânsito e acidentes ocorrem, mas em menor quantidade se comparados ao Brasil, por causa da frota menor e também da legislação mais rígida, com multas nada suaves. As imprudências são cometidas em sua maioria por motoristas estrangeiros, principalmente do antigo bloco soviético, que repetem atitudes dos seus países no trânsito canadense.

O povo canadense, no geral, é solidário no trânsito, e sempre que podem ajudam quem precisa. Luiz também disse já ter ajudado muitos desconhecidos, que acabam tendo problemas em estradas remotas, com pouco tráfego, e podem ficar expostos à temperaturas que chegam aos -40ºC. Nem sempre os motoristas estão preparados para tais situações .

Quanto às estradas, o asfalto é bom, mas sofre também pelas baixas temperaturas, que causa rachaduras e levantamentos do asfalto, por causa do derretimento do gelo durante o dia, que infiltra nas trincas do asfalto e recongela durante a noite, expandindo o asfalto, e fazendo com que ele levante. Animais na estrada também causam acidentes, principalmente bufalos e alces, e também estradas sinuosas demais, além do terreno encharcado que eventualmente cria elevações e depressões na pista. Porém esses defeitos são logo corrigidos.

A polícia não atrapalha o motorista que está com todos os documentos em dia, e até deixa passar algum problema menor, mas que deve ser corrigido antes da próxima fiscalização. Se não for arrumado, o caminhão pode ficar retido até regularização.

De acordo com Luiz, nenhuma empresa pode forçar o motorista a sair com um equipamento com defeito, realidade muito diferente do Brasil. O caminhoneiro é totalmente responsável pelo equipamento que dirige, por isso, caso se envolva em acidentes, desculpas do tipo “falha nos freios” não colam. O motorista será culpado, por não ter inspecionado o equipamento. Antes das operações, o caminhoneiro faz uma checagem de vários itens do caminhão e assina uma folha, garantindo que tudo está funcionando como deve. Caso algo esteja com problemas, ele deve avisar a empresa, que envia o serviço de estradas para realizar o reparo.

Todo caminhoneiro recebe treinamento antes de começar a trabalhar, seja do tipo de transporte que for. As empresas investem no caminhoneiro, que é pago para aprender.

Outro ponto é a facilidade de troca de caminhões, com muito pouca burocracia, que facilita a vida das empresas, reduz acidentes e a poluição. “É mais fácil comprar um caminhão do que um celular”, completa.

Para conseguir um emprego no Canadá, o primeiro ponto é ter experiência, pelo menos dois anos, além de segundo grau completo, e falar inglês ou francês fluentemente. A documentação necessária inclui comprovante de escolaridade, ficha de antecedentes criminais da Polícia Federal, do Estado e Judicial. Outro ponto é esquecer os vícios do país de origem. No Canadá você terá que aprender tudo novamente.

No tempo em que trabalhou nos Estados Unidos, Luiz tinha um serviço de vídeo ao vivo, que transmitia para mostrar aos brasileiros o seu dia-a-dia na estrada. O Blog do Caminhoneiro era um dos seguidores, e sempre haviam conversas, paisagens e histórias novas. Hoje, Luiz deixou de fazer tal transmissão, pois o serviço no Canadá é muito caro. Até pensou em fazer algo com uma assinatura, onde os interessados pagariam para ver, porém ele desconsiderou a ideia. Luiz foi o primeiro brasileiro a ter uma transmissão ao vivo direto de um caminhão, e também é o primeiro brasileiro a trabalhar nas estradas de gelo do Canadá.

Quando pedi a Luiz uma dica para quem está iniciando na profissão, ele foi direto: “Aos jovens que pensam em entrar na profissão, eu diria, se espelhem em profissionais, temos muitos. Não ache que dar quebrada de asas faz você melhor que eu ou qualquer outro profissional sério. Faz de você mais um idiota que esta contribuindo para que nossa categoria seja classificada como lixo. O DJ drogado está a ficar rico com vocês escutando as cretinices dele e a apologia ao uso de drogas. Seja profissional e honesto… Lutem por melhorias na classe e denunciem os drogados. Amanhã, você ou uma pessoa que você muito gosta por ser vítima de um desses que se intitulam os ninjas. Ninjas nunca chegarão a ser mestres… Geralmente eles não aprendem tudo”.

Outra dica que foi pedido foi quanto à trabalha na América do Norte. Ele disse: “Esqueçam o USA, pois é impossível se legalizar como motorista. No Canadá nem todas as Províncias legalizam nessa profissão, e as que legalizam são nas áreas mais remotas do país e vão exigir de você perseverança, paciência e disposição para lidar com a solidão das estradas aqui. Deixe o jeitinho brasileiro de ser aí. Se for pra vir fazer baderna e sujar a reputação dos brasileiro que vivem aqui é melhor ficar aí. Já temos mais que suficiente desses tipos aqui fazendo isso.”

Punidos pela idade

Lei-do-motoristaExperientes e desempregados. Esta é a situação vivida por muitos carreteiros e motoristas de ônibus que estão na faixa etária dos 50 anos. Os dias são de procura, levando o currículo aqui ou ali, mas as respostas são sempre de que infelizmente a preferência é por alguém mais jovem. A falta de motoristas no mercado tem amenizado um pouco a questão da idade, porque uma ou outra empresa termina dando emprego para o carreteiro com 50 anos ou mais, porém nestes tempos modernos, outra barreira surge: conhecimento de informática. Os caminhões e ônibus hoje “são computadores” e os profissionais mais antigos têm dificuldade em dominar esta tecnologia.

Muitos estão há quase 10 anos sem um emprego formal. É o caso de João Comissio, de 58 anos de idade e 27 anos de profissão. Desde 2006 ele não consegue emprego com carteira assinada para dirigir ônibus em Cascavel, no Paraná. “Depois dos 45 anos, você é descartado. Se deixar o emprego não consegue outro. Levo currículo e a resposta é sempre a mesma, a idade. Me sinto excluído. Esta mentalidade tem que mudar. A idade traz experiência, responsabilidade e as empresas estão jogando isso fora. Excluir os cinquentões também é prejudicial à economia. Podemos estar trabalhando normalmente, produzindo”, afirma.

João Comissio diz também não entender o comportamento dos chefes de Recursos Humanos nas Empresas. Lembra que antes não se conseguia emprego porque era necessário ter no mínimo experiência de três anos e que só conseguiu entrar na profissão porque teve um chefe muito legal que lhe deu uma chance. “Agora é a idade. Conheço gente de 62 anos trabalhando normalmente, só que eles tiveram a sorte de permanecer na mesma empresa quando chegaram aos 50″, completa o motorista.

Domingos Saldanha, 57 anos de idade e 30 de profissão, está desempregado há oito anos e se sente encostado. “Depois dos 50, currículo bom não vale. Deveria ser o contrário. Experiência profissional, de vida ganha importância a partir dos 40, mas isto não vale para as empresas”, lamenta. Tem opinião de que quando o profissional deveria estar se beneficiando da experiência é encostado, pois não consegue emprego fixo. “Isto é horrível, dói muito saber que você ainda é capaz, mas não consegue trabalhar na profissão de toda a sua vida”, frisa Domingos. Ele chama atenção para outro problema que poderia ser evitado se as empresas dessem oportunidade aos motoristas com mais idade. Ele destaca que a maioria dos acidentes envolvendo ônibus e caminhões são em decorrência da inexperiência. “Grande parte dos acidentes são com motoristas iniciantes. Basta ver as estatísticas”, destaca.

Orlando Maciel de Oliveira, 60 anos de idade e 26 de profissão, começou a sentir os dissabores da idade após ter sido dispensado da empresa em que trabalhava dirigindo um bitrem. Diz que nos últimos três anos tem recebido somente respostas negativas devido sua idade. “Eles chegam a dizer para você que preferem motoristas mais jovens, porque eles têm mais agilidade na hora de enlonar o caminhão”, exemplifica. Oliveira acrescenta que os servicinhos que surgem como quebra-galho normalmente são para dirigir caminhões mais velhos. “A lei agora é motorista velho com caminhão velho”, ironiza.

Aos 31 anos de idade e 10 de profissão, Alexandre Comissio já vive o problema da barreira. Seu problema é relacionado com a informática. “Hoje os caminhões são eletrônicos, verdadeiros computadores e isso é um entrave. Até o rastreador já é motivo de complicação para os mais antigos. A saída é estudar e adquirir conhecimento”, reconhece. Porém, ele destaca que quando se está empregado tem que estar na estrada e, portanto, sem tempo para estudar. “Quando você fica desempregado, vem o problema. Precisa arrumar outro emprego logo, porque as contas chegam, mas as portas estão fechadas. O ideal seria as próprias empresas proporcionarem oportunidades para você adquirir este conhecimento”, conclui.

A questão da idade e a falta de conhecimento de informática tem sido um problema para os carreteiros com 50 anos de idade ou mais. Mas há solução. Para Suzana Perboni, diretora do Sintrovel (Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Cascavel), no Paraná, a solução está em buscar novas ocupações para estes profissionais dentro da cadeia de transportes e estudo, levando-os a novas atividades.

De acordo com ela, o Sintrovel, através da Fundação Iguaçu, um braço do sindicato, procura oferecer cursos técnicos e superior a estes profissionais, ao mesmo tempo em que procura mostrar às empresas que eles são úteis e produtivos em outras áreas da organização. “Quem melhor para cuidar da logística do que alguém que esteve por 20 ou 30 anos na estrada. Conhece na prática detalhes da profissão e podem trazer vantagens para a empresa com melhor aproveitamento do caminhão ou do ônibus”, defende Suzana Perboni.

Em sua opinião, estes profissionais sabem como diminuir o gasto dos pneus, lonas de freios, poupar o equipamento, evitar riscos desnecessários nas estradas. “Podem contribuir para montar uma estratégia de logística que traga resultados para a empresa. É uma mão de obra a ser aproveitada”, reforça, acrescentando que ocorre hoje uma falta de respeito para com estes profissionais ao serem rejeitados.

“Eles se sentem humilhados quando só lhe oferecem oportunidades na borracharia da empresa, na oficina ou no abastecimento, ocupações que lhes diminuem”, destaca a diretora do Sintrovel, lembrando que estes profissionais estavam acostumados com a estrada, a olhar o mundo do alto da cabine.

Em relação aos estudos, Suzana entende que há uma resistência cultural por parte dos carreteiros. “É muito difícil você convencê-los de que precisam voltar à sala de aula, concluir o 2º Grau, fazer um curso superior ou técnico. Eles pararam de estudar para trabalhar e tudo ia muito bem até que chegaram aos 50 e perderam os empregos”, acrescenta. Ela destaca que eles não aguentam permanecer duas, três ou quatro horas sentados em uma sala de aula. “A saída é qualificá-los para novas ocupações na rede de transporte, muito conhecimentos ele já têm. É questão de despertar nos empresários a visão de que estas pessoas têm muito a produzir”, conclui Suzana.

Fonte: Revista O Carreteiro – Edição 471