“Eu só quero trabalhar”




A lei da Física diz que é impossível colocar dois corpos no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Na capital de São Paulo existem, segundo dados do Detran, 5.210.725 automóveis e 155.438 caminhões. E esses números, de novembro de 2011, com certeza já estão superados, pois todos os dias mais carros e caminhões entram em circulação.

O grande problema é que as ruas de São Paulo não cresceram e está faltando espaço para circulação. Em vez de o governo investir no transporte público para retirar os carros das ruas, apelou para o mais simples: em 1986 foi criada a Zona de Máxima Restrição de Circulação, compreendendo uma área com aproximadamente 11,5 km², onde os caminhões tiveram o trânsito proibido durante o período diurno. Como se isso não fosse o suficiente para trazer grandes problemas para os caminhoneiros, em 06/11/2007 essa área foi ampliada para 25 km² e, em 30/06/2008, atingiu a dimensão atual de 100 km², que corresponde a quase toda a região do Centro Expandido. Em 2008, os caminhoneiros também passaram a ter que respeitar o rodízio de placas, como os automóveis.

E como tudo que está ruim pode ficar pior, a Secretaria Municipal de Transportes para “reduzir as ocorrências envolvendo caminhões que geram interferências no sistema viário principal nos horários mais críticos”, implantou uma nova regulamentação para o trânsito de caminhões que foram proibidos de transitar entre 4h e 10h e entre 16h e 22h de segunda a sexta-feira e, aos sábados, das 10h às 14h, exceto feriados. Em um ato de “nobreza e bondade”, as multas só começarão a ser aplicadas a partir de meados de janeiro de 2012.

Estrangulamento

A prefeitura pensou em resolver os problemas de trânsito, mas esqueceu que a cidade precisa ser abastecida. Ninguém discute que as medidas surtiram efeito e a lentidão do trânsito diminuiu. O que se questiona é: quem está pagando a conta?

“Essa restrição me prejudica totalmente”, afirma Artur Gama Caradori, caminhoneiro há 36 anos, e que tem três filhos também na profissão. “A gente não pode trabalhar. Eu moro na Freguesia do Ó e não posso sair de casa. Estou ilhado com essa restrição da Marginal Tietê”.

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Caradori, que transporta mobília para eventos, precisa sair por ruas alternativas, estreitas e acaba se arriscando a ser roubado. Sem a restrição, ele sairia pela avenida Inajar de Souza, entraria na Marginal Tietê, rodovia dos Bandeirantes até Itapecerica da Serra onde carrega seu caminhão e de lá voltaria para Interlagos, por exemplo. “Com essa restrição, eu vou ter que acordar às 2 da manhã para poder fazer esse mesmo percurso”, lamenta Caradori.

O experiente caminhoneiro prevê sérios problemas no cumprimento dessa norma. “Imagina como vai ficar a Marginal Tietê depois das 10 horas”, alerta. “Todo mundo vai ficar parado esperando o horário para poder trafegar. Quando der o horário permitido, todos os caminhões que estiverem parados vão entrar na marginal. Imagine o caos que será. E tem mais, não há locais para que os caminhões fiquem esperando o horário de liberação. Não há postos suficientes, nem áreas de estacionamento. Os caminhões serão obrigados a ficarem parados, expostos ao risco de serem assaltado. Tudo para privilegiar o transporte individual”.

Sem essa última restrição, Caradori demora três horas para ir da Freguesia do Ó ao autódromo de Interlagos, e espera tempos piores. “O governo precisaria investir mais em transporte público para tirar os automóveis das ruas”, analisa Caradori. “Tiraram os caminhões da 23 de maio e ela continua parada, tiraram os caminhões da Radial Leste e ela continua parada. É injusto querer restringir ainda mais nossas atividades”.

Artur Caradori é um caminhoneiro esclarecido e sabe seus direitos. Mais do que isso, luta por eles. “Falei com alguns sindicalistas, com outros amigos, com o pessoal da Secretaria dos Transportes para ver se podíamos achar uma solução que não prejudicasse nossa categoria”, conta Caradori. “Lamentavelmente é uma pena que a categoria não é unida e cada uma só pensa em si. Minha esposa perguntou se valia a pena eu tentar mobilizar as pessoas contra esse absurdo. Ela teme que eu acabe morrendo por lutar pelo meu direito de trabalhar”.

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Mas Caradori não está lutando sozinho. A medida da prefeitura foi tão desastrosa e prejudicial que conseguiu unir caminhoneiros, empresários, sindicalistas e profissionais do setor de transporte de cargas para pedir ao prefeito Gilberto Kassab que não amplie as restrições aos caminhões na Marginal Tietê para não inviabilizar as operações de milhares de empresas de transportes que atuam em São Paulo.

Tais restrições aumentam o custo do transporte na cidade, ônus que é repassado aos consumidores, que pagam mais caro por tudo o que compram em seu dia a dia e não ajudam a melhorar o trânsito.

A armadilha

Desde o dia 1º de dezembro os caminhões estão proibidos de transitar das 4h às 22h, de segunda a sexta-feira e, aos sábados, das 10h às 14h, exceto feriados. Isso se aplica na Marginal Pinheiros, Avenida dos Bandeirantes, Av. Afonso Escragnole Taunay e Av. Jornalista Roberto Marinho. A proibição do final de semana se manterá igual, ou seja das 10h às 14h, exceto feriados. Os caminhões de transporte de máquinas, equipamentos e materiais básicos para a construção civil terão o trânsito excepcionalmente autorizado das 10h às 16h nas vias acima. A multa, que será cobrada apenas a partir do dia 12 de janeiro de 2012 é de R$ 85,12, infração média, quatro pontos na carteira de habilitação.

Enquanto o Governo continuar tomando decisões em gabinetes, priorizando o individual em detrimento do coletivo, irá trazer mais transtornos do que benefício. Enquanto a minoria privilegiada anda com seus carros importados, os homens de bem, como Artur Caradori, ficam “presos” em casa esperando o horário para poderem trabalhar. “Eu só sei fazer isso. Eu só quero trabalhar”, diz desolado o caminhoneiro.

Fonte: Revista Caminhoneiro




3 comentários em ““Eu só quero trabalhar”

  • 21/02/2012 em 03:37
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    ÉÉÉ FODA MESMO JA FUI CAMINHONEIRO POR VARIOS ANOS POR FIM QUANDO COMEÇOU ESSAS MERDAS DE RESTRIÇÃO AI EM SAMPA NEM KIZ VIAJAR MAIS MORAL DA HISTORIA VENDI MEU CAMINHÃO E COMPREI UM TAXI

    ACHO QUE É O SEGUINTE SE ELES QUEREM FERRAR COM O MOTORISTA DE CAMINHÃO , TEM QUE BOTA NA POPULAÇÃO TBB SE O FRETE ERA 500 PASSA A COBRAR 2000 MIL AGUEM TEM QUE PAGAR ESSA CONTA ….

    FALO ISSO COM MUITA TRISTEZA MAS ESTÃO ACABANDO COM A PROFISSÃO SE JA NÃO BASTASSE O FRETE MISERIA AGORA ESSAS KCTADAS DE RESTRIÇOES EM VARIAS CIDADES PELO BRASIL A FORA REALMENTE NÃO DA MAIS ….:(

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  • 16/01/2012 em 17:53
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    A ditadura mudou a vestimenta,da farda para o terno e gravata! ainda tem gente que acha que a ditadura acabou…Quantas injustiças são praticadas diariamente neste “pais”políticos,imprensa e justiça são farinha do mesmo saco, um não existe sem o outro não podemos esperar nada desses filhos da puta.Não sei onde li essa frase”o povo não tem que ter medo do governo e sim o governo tem que ter medo do povo! Devemos fazer uma greve ou então boicotar as cargas para SP,e jogar o povo contra esse prefeito FDP e os vereadores que o apoiam,as pessoas vão ter dinheiro e não vão ter o que comprar…

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  • 06/01/2012 em 22:44
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    E´ meus amigos, a corda arrebenta do lado mais fraco.
    A falta de conhecimento do ramo, faz com que as soluções
    propostas se tornem nulas, pois, a poluição continua e o
    transito no horário de pico, já esta atingindo as marcas de
    outrora.
    Como bem diz esta matéria, os trabalhadores estam sendo
    sufocados, para bem estar de poucas dondocas que agora
    podem dirigir no trânsito, pois, não há caminhões circulando.
    Ou seja, para atender sua esposa o legislativo sacrificou os
    trabalhadores de logística.
    Existe uma medida que não foi aventada pela classe sindical,
    que se chama mandato de segurança coletivo contra a prefeitura
    e seus ocupantes de cargos temporários……..por que os repre-
    sentantes sindicais ainda não impetraram este instrumento
    será que os advogados não conhecem tal instrumento…????

    São muitas as perguntas, poucas são as respostas,…….!!!!!!!!!

    Abraços,

    Léo – SP – Capital.

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