Renovação constante




A troca de carro é um sonho almejado por milhares de brasileiros. A aspiração por veículos mais novos também alimenta o dia a dia do caminhoneiro autônomo. De acordo com entidades ligadas ao setor, a busca por um caminhão em melhores condições de uso, com foco na renovação da frota, é uma constante entre os profissionais da categoria. A maioria opta pelos seminovos. Para adquirir um caminhão usado é necessário observar itens importantes, como o modelo adequado ao segmento de carga e a procedência. Dessa maneira, o profissional pode evitar problemas de desgaste e dificuldades com a documentação.

O engenheiro mecânico Antônio Carlos Canale, professor da EESC (Escola de Engenharia de São Carlos), da USP (Universidade de São Paulo), enfatiza que o caminhoneiro precisa se atentar, entre outros itens, para as dimensões do veículo, as configurações dos eixos e de tração, a suspensão, os dispositivos de segurança, os pneus e o chassi. “O caminhoneiro deve avaliar algumas variáveis. Muitas empresas não contratam, por exemplo, veículos que vão transportar produtos perigosos sem determinados dispositivos de segurança, como o ABS. O  transporte de produtos frágeis pode necessitar de um caminhão com uma suspensão a ar. Outros, que serão usados em regiões com declives longos e severos, vão precisar de retardadores e sistemas de tração 6×4. Por isso, adquirir o caminhão adequado ao segmento da carga a ser transportada é imprescindível.” Ele diz que o processo para a compra de um caminhão usado não se difere muito das regras para quem vai adquirir um carro seminovo.

Canale indica consultar um especialista para garantir uma escolha mais apropriada. Segundo ele, apesar de exigir do proprietário uma manutenção maior, o capital investido no usado é menor, o que pode compensar, em parte, o custo para a conservação do caminhão. “O caminhoneiro deve dar especial atenção ao consumo de combustível. Veículos mais novos  consomem menos e isso também pode ser um diferencial importante.”

Na opinião do engenheiro, o caminhão usado não representa perda de segurança para o motorista, se as manutenções preventivas e corretivas forem realizadas. “O veículo é projetado para manter a sua margem de segurança ao longo de sua vida útil. Essa conservação deve ser realizada por profissionais capacitados e credenciados, usando-se, em trocas e reposições, produtos e componentes certificados pelo próprio fabricante do caminhão.”

Luiz Carlos Neves, presidente da Fenacat (Federação Nacional das Associações e Cooperativas de Caminhoneiros e Transportadores), também considera que a segurança não é  comprometida com a aquisição do caminhão usado. “Toda revenda tem que oferecer a garantia do produto vendido por 90 dias. De todo modo, nunca é demais verificar o estado dos itens que podem afetar a segurança do veículo.” Canale afirma que a escolha do caminhão usado deve priorizar, dentro das possibilidades financeiras do caminhoneiro, o veículo mais novo possível e com o maior número de acessórios de segurança. “Os modelos mais recentes, que possuem dispositivos de segurança, abrem possibilidades de novos negócios.”

José da Fonseca Lopes, presidente da Abcam (Associação Nacional dos Caminhoneiros), afirma que somente a minoria dos autônomos consegue adquirir um veículo zero quilômetro. “O Procaminhoneiro oferece condições de financiamento para um caminhão novo e também financia o usado em até oito anos. O problema é que grande parte dos caminhoneiros, devido às dificuldades inerentes à profissão, não consegue comprovar renda e financiar pelo  programa.”

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O Procaminhoneiro, criado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), é um programa de financiamento de caminhões direcionado aos motoristas autônomos e microempresários do setor. O programa oferece taxa fixa de juros anuais a 7%, opção de compra de caminhões usados com idade média de até 15 anos e uma complementação de garantia chamada FGI (Fundo Garantidor para o Investimento). O BNDES, por meio de sua assessoria, diz que a instituição reconhece a dificuldade do autônomo em comprovar sua renda. O banco ressalta que o Procaminhoneiro é um programa indireto, sendo que as exigências para o financiamento são de responsabilidade das 21 instituições financeiras aptas a executá-lo.

Ainda segundo a entidade, o FGI foi uma das ferramentas criadas para auxiliar o caminhoneiro que adquire o veículo por meio do programa. A garantia do BNDES/FGI varia conforme o prazo e o valor garantido, sendo financiado nas mesmas condições do caminhão e, na média, representa um acréscimo no custo efetivo de 0,18% ao mês. De acordo com Lopes, da Abcam, os autônomos estão mais habituados a adquirir o caminhão usado nas revendas. “Antes da troca, os veículos têm média de idade de 23 anos. Para renovar, o motorista busca caminhões de 5 a 6 anos de uso. Muitas vezes, eles não oferecem a tecnologia disponível nos modelos mais novos.”

Fabiano Chinelato, vice-presidente da Abacet (Associação Baiana dos Caminhoneiros e Transportadores), diz que o modelo usado mais procurado pela categoria é o veículo frontal e trucado. Esse tipo de caminhão possui o motor instalado embaixo do assento e tem seu para-brisa rente. Essa versão facilita as manobras e reduz o comprimento do caminhão. Ronildo Silva, gerente de vendas da Carga Pesada, revendedora de caminhões usados, com sedes na capital paulista e em Campinas (SP), afirma que o veículo trucado tem maior capacidade de carga, por isso leva vantagem na escolha dos compradores. “Tanto autônomos quanto empresas de transporte buscam um caminhãoque possa maximizar o volume de carga”. De acordo com Silva, caminhões do tipo custam a partir de R$ 120 mil.

Os valores variam conforme o ano e a marca. Chinelato diz que o caminhoneiro deve considerar a parte de força do veículo (motor e caixa de câmbio) na hora da compra, pois ela é determinante para a vida útil do caminhão. Na opinião do dirigente, a troca de caminhão deve ocorrer quando o veículo atinge seis anos ou 1 milhão de quilômetros rodados. Outra dica de Chinelato é consultar o Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) antes de concluir a compra.

“Por esse cadastro é possível saber se o caminhão tem pendências jurídicas e/ou financeiras. Também indico a consulta de, no mínimo, três agentes financeiros antes de fechar o negócio. Dessa maneira, o motorista terá um comparativo para fazer a melhor escolha.” Essas orientações também são indicadas pelo caminhoneiro Luciano Teixeira, que possui 25 anos de profissão. Ele afirma que o autônomo se sente mais atraído pelo caminhão usado devido às condições financeiras. “Enquanto a prestação de um zero quilômetro pode chegar a R$ 6.000, um usado custa a metade.” De acordo com o caminhoneiro, para verificar as condições do usado pretendido, é fundamental conferir a procedência, o número de proprietários e saber que tipo de serviço e carga o caminhão transportava anteriormente.

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Em relação às condições de financiamento, Neves, da Fenacat, afirma que as melhores taxas oferecidas atualmente no mercado são a do Procaminhoneiro; do Finame (Financiamento de Máquinas e Equipamentos), criado também pelo BNDES, que oferece linhas de financiamento específicas; o leasing (arrendamento mercantil, em que o proprietário do bem negociado o cede a um terceiro, recebendo em troca uma contraprestação); e o CDC (Crédito Direto ao Consumidor). “Entre essas modalidades, o CDC tem a maior taxa de juros. Portanto, cabe verificar qual instituição financeira oferece melhores condições, com valores mais reduzidos.”

Dicas de compra

O que observar na hora de adquirir um caminhão usado

• Escolher o modelo conforme o segmento da carga a ser transportada
• Ouvir especialistas, como engenheiros e mecânicos de confiança, para garantir uma escolha mais adequada
• Dentro do orçamento disponível, priorizar modelos mais novos e com maior número de itens de segurança
• Não adquirir caminhões com mais de 1 milhão de quilômetro rodado. Com tal quilometragem, é provável que o motor já tenha sofrido intervenções mecânicas
• Verificar as condições do motor, da caixa de câmbio, do número de proprietários e que tipo de carga o caminhão transportava anteriormente
• Checar se não há ruído estranho, ou acima do normal. Trocar, preventivamente, o óleo lubrificante
• Quebra ou travamento de um rolamento pode ser muito perigoso e danifica componentes importantes e caros do veículo. Recomenda-se averiguar se há ruídos estranhos com o caminhão desengatado e em movimento, sobre um asfalto em boas condições
• Verificar se não há falta de dispositivos de fixação da suspensão e das molas. A presença de molas quebradas é perigosa e diminui a estabilidade do caminhão
• Inspecionar cuidadosamente os pneus. Pneus com bolhas ou saliências nos flancos (laterais) devem ser trocados. Eles devem ser substituídos quando a banda de rodagem estiver descolando ou desgastada
• Verificar se a luz de advertência de mau funcionamento do ABS no painel do veículo está ativada. Se estiver acesa, uma manutenção nesse sistema será necessária
• Todo o circuito de freio deve ser inspecionado, assim como a instalação elétrica e todos os componentes do sistema de direção
• Consultar o Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) do caminhão, antes de concluir a compra

Fonte: Revista CNT Transporte Atual




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