Veterana Kombi luta para sobreviver

Prestes a completar 55 anos, a Kombi luta para prorrogar seus dias na linha de montagem da Volkswagen no ABC paulista, onde começou a ser fabricada em 2 de setembro de 1957. O veículo mais antigo em produção no mundo, e ainda o mais vendido em sua categoria no Brasil, deve sair de cena até o fim do próximo ano.

A partir de 2014, os veículos terão de ser produzidos com airbag e freios ABS. A antiga Kombi não tem estrutura para receber esses sistemas. Adaptá-la exigiria investimento elevado.

As chances do modelo são praticamente nulas, mas a Volkswagen ainda não desistiu de buscar uma alternativa para seu produto mais carismático. A Kombi foi o primeiro modelo da marca alemã a ser feito no País. Até agora, foram 1,5 milhão de unidades, a maioria vendida no mercado interno para uso de trabalho.

Neste ano, já foram vendidas 14,9 mil unidades, mais que o dobro do segundo colocado na categoria de furgões, o Fiat Ducato, com 5.965 unidades. Em 2011 inteiro, a Kombi vendeu 24,8 mil unidades e o Ducato, 13,4 mil.

Embora ambos sejam classificados como furgões pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as especificações e capacidade de carga são diferentes e os preços também. A Kombi custa a partir de R$ 43,8 mil e o Ducato a partir de R$ 76,3 mil, também sem os itens de segurança, que são opcionais e custam R$ 2.890.

A Volkswagen chegou a encomendar um sistema de airbag específico, mas a Kombi não passou no teste. Fontes do mercado afirmam que a montadora estuda pedir uma prorrogação do prazo para a obrigatoriedade do item, uma vez que o veículo não tem concorrentes diretos em preço e categoria de uso. Seu fim deixaria uma faixa do mercado sem opção de compra.

O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) informa que não há impedimentos para que o prazo seja alterado, “mas não há nada que indique que isso poderá ser feito”. Outra tentativa seria mudar a classificação da Kombi para uma categoria isenta da obrigatoriedade do item de segurança. Isso também teria de ser aprovado pelo Denatran, o que parece improvável.

Há ainda quem aposte na produção do Bulli (desenvolvido na Alemanha), um moderno furgão cujo protótipo (na versão elétrica) foi mostrado na Rio+20, em junho. A expectativa é de que esse veículo poderia ser adaptado para produção em série.

Nos bastidores, a Volks não nega que busca uma solução, mas, oficialmente, se limita a informar que o setor da Kombi opera em um turno na fábrica de São Bernardo do Campo com 630 empregados. Assim como o próprio veículo, a linha de produção não teve mudanças significativas desde o início da produção.

Vaca leiteira

O especialista em estratégias empresariais e professor da Universidade Mackenzie, Marcos Morita, ressalta que a Kombi é uma “vaca leiteira”, no conceito chamado de Matriz BCG, da Boston Consulting Group, usado para avaliar se o produto é atrativo, participação no mercado e ciclo de vida.

“O conceito envolve um produto que atua num mercado que cresce pouco, mas tem grande participação nas vendas”, diz Morita. O investimento é praticamente zero, pois os gastos com desenvolvimento, maquinário para produção e marketing já foram amortizados. “Tudo o que entra é lucro e ajuda a sustentar os novos produtos que estão sendo introduzidos no mercado.”

Em razão disso, Morita acredita que o fim da Kombi “talvez afete o fluxo de caixa da Volkswagen”. Para o consumidor, que não terá mais acesso a um produto único, o impacto pode ser menor. “Normalmente, o mercado se adapta, pois outros produtos chegam para ocupar o espaço, nem sempre com a mesma característica ou faixa de preço.”

Modelos mais modernos disponíveis, como o Mercedes-Benz Sprinter e o Ford Transit têm preços bem superiores aos da Kombi. Outros mais baratos, como o chinês Towner, não têm a mesma capacidade de carga.

O segmento de furgões, com 20 modelos disponíveis, vendeu neste ano 48 mil unidades, 3,7% menos ante igual período de 2011. A Kombi cresceu 4%.

Outros modelos

A Kombi não é único veículo que vai sair de linha por não ter condições de receber airbag e ABS. O Uno Mille, da Fiat, no mercado há 22 anos, é outro que será descartado, mas seu substituto já está anunciado para 2014. Outro que estava com dias contatos, mas ganhou sobrevida, é o Classic, da GM. Lançado há 15 anos, terá airbag na versão 2013.

Proprietários lamentam o final da produção

Após 55 anos, mais de 1,5 milhão de unidades comercializadas no Brasil e inúmeras marcas atingidas, a Volkswagen Kombi, o veículo mais antigo em produção no mundo está se despedindo do mercado. O motivo é a incapacidade de adaptação de dispositivos de segurança que passarão a ser obrigatórios no País a partir de 2014, os freios ABS e o sistema de airbag. Mesmo sendo o veículo mais despojado da categoria e com visual sem grandes renovações desde seu lançamento há mais de cinco décadas, a Kombi mantém até os dias atuais, o título de mais vendida da categoria, agradando tanto quem precisa de um carro com disposição para transportar cargas e passageiros no dia-a-dia quanto os mais tradicionalistas, já que preserva características dos modelos iniciais, como o câmbio de quatro velocidades. Em 2011 saíram das concessionárias 24,8 mil unidades do utilitário VW, quase o dobro em relação à segunda colocada nas vendas, a Fiat Ducato, com 13,4 mil. Entre as virtudes da lendária perua destacam-se a versatilidade e mecânica eficiente, aliadas ao baixo custo de compra e manutenção.

Proprietário de duas Kombi, o comerciante Mário Carvalho Filho já possuiu cinco ao todo. “Para mim, não existe carro melhor. Eu aprendi a dirigir em uma Kombi quando tinha 16 anos. Desde então, nunca deixei de ter uma, e agora tenho duas. É um carro com uma manutenção simples e barata, que se arruma em qualquer lugar. É realmente um pecado parar de fabricá-la”, lamenta. Segundo ele, a perua mais antiga, ano 80, é ainda melhor que a mais nova, ano 2005. “Tenho esse carro desde 1986. E olha que eu abuso dela, chego a colocar muito mais carga do que ela suporta. Mesmo assim ela continua funcionando perfeitamente. Já recebi várias propostas de compra, mas não tenho a menor intenção de me desfazer dela”.

A Kombi pode levar uma tonelada de carga e é um dos poucos veículos que consegue transportar mais carga que seu próprio peso.

Mário conta ainda, que a velha perua já lhe proporcionou momentos memoráveis. “Certa vez, quando minha família tinha uma outra Kombi, ainda mais antiga do que essa, sofri um acidente com uma carreta na av. General Carneiro. No colisão o pára-brisas acabou partido e como não tínhamos condições de arrumar, remendamos com uma corda de varal e continuamos usando assim por mais de um ano, passando até mesmo por uma abordagem, quando o guarda nos liberou mesmo com o veículo sem condições de rodar”, relembra.

O construtor civil Ezequiel Ávila de Assis também conta que, mesmo diante do fim da fabricação da perua, também não pretende vender a sua tão cedo. “É um carro muito bom, uso diariamente para transportar pessoas. Acho que agora que vai sair de linha vai fazer muita falta, pois é um carro barato para trabalhar e manter. A minha mesmo, já tenho há 12 anos e dificilmente apresenta algum problema, portanto, vou continuar com ela”, diz.

Com o término da produção da Kombi, o Volkswagen Gol assume o posto de carro mais antigo em produção no Brasil. Porém, diferentemente da perua, o popular lançado em 1980 e que há 25 anos ocupa a posição mais alta no ranking dos veículos mais vendidos do Brasil já passou por inúmeras modificações, tanto mecânicas quanto estéticas.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul





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